Capítulo 22
No dia seguinte, Heloisa parecia uma louca de preocupação. Andava na recepção de um lado para o outro e seu pai tentava acalma-la.
- Vai ver dormiu e não quer falar com ninguém.
- Tem algo errado, preciso saber. Você mesmo disse que Andrade o pegou para ver o filho.
- Foi! Vai ver, não era quem ele procurava e o homem ficou decepcionado.
- Ora...! Ele é um homem prático. Tem quase vinte e quatro horas, trancado, sem comer nem dar sinal de vida. Vou lá...
- Não vai não!
Sem esperar por uma permissão do pai, ela pegou numa gaveta a chave mestra e subiu quase correndo as escadas. Ela estava completamente transtornada, na sua mente só conseguia imaginar que Agamenon havia morrido.
Nervosa e tremendo muito, Heloisa enfiou com dificuldade a chave na fechadura e abriu a porta. O quarto estava no escuro e viu o médico sentado no chão com a cabeça entre os joelhos ao lado da porta do banheiro. O quarto estava com o cheiro desagradável de suor e medo. Ela correu para ele e viu que chorava aos prantos, o abraçou e ele se entregou como se fosse uma criança abandonada.
Com muito carinho, ela sentia culpa por tê-lo abandonado tanto tempo. Sentou-se ao seu lado, o puxou para o colo e deixou suas lagrimas se misturar com as dele. Quase duas horas depois ele balbuciou algo que ela não entendeu e em seguida, foi levantando lentamente do colo de Heloisa. Com o olhar grudado no chão e as mãos se espremendo uma contra a outra, ele contou a conversa que tivera com Luiz.
- Estou em frangalhos! Sinto-me traído, enganado, por Dora, Arquimedes e Luiz. No entanto, acho que não são culpados de qualquer coisa. Fui um idiota, sempre vaidoso e cego, não via um palmo além do nariz. Meus sentimentos se confundem, entre dor, ódio e culpa. O pior é que senti minha alma fugir, mesmo quando ele me disse que estava doente, sem cura, com um vírus novo, não sentia mais nada. Meu coração se recusou a sofrer.
- A vida é assim mesmo! Cada momento que vem pode ser uma surpresa. Você tem a mim e prometo que não vai se arrepender de ficar no meu coração. Chore e sofra sem medo, depois tudo vai clareando e desaparece nas curvas do viver.
- Me beija, me acaricie, estou perdido em mim mesmo, solto no vento que me arrasta para idéias absurdas.
Com carinho ela segura o rosto de Agamenon, beija seus lábios suavemente acariciando os cabelos grudados de suor. Mesmo acariciado e beijado, um sentimento de vingança parece estabelecido na mente do médico.
Heloisa só conseguiu fazer o médico sair do quarto, três dias depois. Enquanto isso levava comida, lia jornais e fazia carinho. Andrade soube do que acontecera e veio visitar o amigo, no entanto voltou sem ser recebido. Havia muita dor, vergonha e raiva em Agamenon. No primeiro dia depois do seu retiro de angustias, foi com a moça até a casa de Joaquim. Embora não estivesse com interesse em mais nada, a possibilidade de voltar no tempo e vingar suas dores lhe parecia algo animador, não havia comentado esse sentimento com Heloisa, mas ela percebeu manteve-se calada por acreditar que poderia se enganar.
Na cabeça do médico, havia surgido repentinamente vontade de esbofetear o irmão que lhe traíra, expulsar a mulher que o enganara e dar um novo rumo a sua vida. Por outro lado, a duvida também o consumia, perguntava a si mesmo se valeria a pena deixar tudo que estava conquistando, com sacrifício, nos últimos dias.
O amor de Heloisa lhe parecia sincero, aos poucos seus problemas começavam a se desmanchar, era só questão de mais algum tempo e talvez, até poderia voltar a ser um médico de verdade.
Assim que chegaram na casa do tio da moça, foram recebidos na porta com muita alegria pelo Advogado que estava vestido como quem pretendia sair.
- Ótimo que chegaram, Vicente está nos esperando, vamos até a casa dele.
Sem ao menos permitir que o casal entrasse, ele saiu batendo a porta. Puxou os dois de volta até o elevador que ainda estava no andar. Entraram e ele apertou o botão com a letra G.
- Vou pegar o carro! A casa de Vicente fica fora da cidade.
Assim que saíram das ruas movimentadas, pegaram uma estrada estreita e em poucos minutos Joaquim estacionava ao lado de uma casa dentro de um sitio. Agamenon observou que mais distante da casa havia um pequeno galpão feito com paredes de madeira e telhado de um material que não conhecia. Uma mulher apareceu com uma vassoura na mão.
- Doutor Joaquim!
- Como vai Lucia?
- Vou bem!
- Onde está Vicente?
- No galpão! – a mulher apontou com a cabeça.
- Obrigado Lúcia! No dia que Vicente morrer, quero que vá trabalhar lá em casa.
- Sem se tratar, acho que não vai demorar muito! Tem fumado mais do que nunca e agora, vive enfurnado no laboratório.
Joaquim acenou sorrindo para a mulher, puxou o casal, segurando um em cada braço, em direção ao galpão. Assim que entraram, o médico viu Vicente sentado diante de uma mesa com um computador, junto de umas caixas mais à frente. A sua volta, havia pedaços de invenções por todo lado, maquinas que pareciam danificadas, amontoadas umas sobre as outras.
O homem estava entretido e nem percebeu a chegada dos visitantes até que Joaquim o tocou no ombro, ele deu um pulo da cadeira com expressão de susto no rosto, que aos poucos se desfez para um grande sorriso. Depois de se cumprimentarem, ele puxou Agamenon pelo braço e falou com ansiedade.
- Olha! Os cálculos me comprovaram teoricamente que estou certo. Já tenho até o material necessário para substituir o carro. – Ele apontou para o fundo do galpão onde havia uma grande bola pintada de cor laranja. – Um sinalizador de linha de transmissão de energia. – Vendo que todos se entreolhavam com desconfiança ele continua explicando. – Sei que é pequeno, mas O doutor não é muito grande, faço uma janela para ventilar.
- Já sabe quanto tempo vai demorar para a transposição? – Perguntou Joaquim como se estivesse bem inteirado da experiência.
- Não mandei o sinalizador, o equipamento antigo, não suportaria. Mandei uma caneta e demorou cerca de dois minutos para ela voltar. Isso quer dizer, que ele vai ter de sair nesse tempo do sinalizador, caso contrário, volta pra onde partiu.
Vicente acende um cigarro, dá uma grande baforada e se desequilibra levando a mão ao peito. Vendo que ele não está bem, Agamenon se precipita em sua direção a tempo de sustentar o corpo frágil do físico que começa a tombar para o lado. Com muito cuidado, ele deita Vicente no chão examinando suas pupilas e em seguida, tomando seu pulso.
- Ele está enfartado!
- Foi agora? – perguntou Joaquim assustado.
- Já devia estar antes e não se cuidou. – disse Agamenon olhando em volta. – Vamos levá-lo para casa, precisa repousar e de medicação certa.
- Tenho... remédios... no meu quarto. – fala Vicente com dificuldade como quem tem a língua grossa na boca.
Ainda no carro, Joaquim ao volante olha para Agamenon ao seu lado e depois para Heloisa no banco de traz, Começa a falar se cala e logo ultrapassaram o portão da casa de Vicente, pergunta de maneira insegura.
- Ele vai ficar bem?
- Vai! Pelo menos por enquanto, mas da maneira como se cuida, não demora muito pra morrer.- responde Agamenon com ar pensativo.
- Lucia tem razão, ele não demora pra morrer! – suspira Joaquim.- Ele é meu melhor amigo!
O restante do trajeto até a cidade, eles permaneceram calados. Quando chegaram na frente ao hotel, Joaquim estacionou o carro e saltou junto com o casal.
- Onde podemos beber uma cerveja aqui por perto?
- Vai beber, Tio...? – Perguntou Heloisa com preocupado.
- Já sou velho! Como diz Vicente, tanto faz mais um ano, um mês ou um dia. O importante agora é ter o que resta de prazer. Vou me deliciar com uma cerveja... sim!
Heloisa dá de ombros e se encaminha para entrar no hotel com uma expressão aborrecida. Agamenon segura sua mão.
- Não vai junto?
- Querem se embriagar, tudo bem! Tenho mais o que fazer.
A moça se solta do médico que fica olhando ela entrar e depois sai com Joaquim que parece preocupado. A moça passa pelo pai e entra em casa chutando a poltrona ao lado da porta.
- Merda! Ele quer voltar pra mulher, e me largar aqui. Não tenho sorte na vida! Mas se pensa que vou desistir se engana. Ainda vou mostrar que sou melhor..., Será que sou mesmo? Será que tenho esse direito?
A moça se atira no sofá de bruços deixando um soluço a dominar. Poucos minutos depois, Fausto entra preocupado com a filha que passou por ele feito um relâmpago quando entrou. Vendo a filha chorando, ele senta ao seu lado acariciando seus cabelos.
- O que foi que aconteceu, minha filha?
- Nada, nada...
- Sei que não tenho nada com sua vida, no entanto, sou pai...
- Desculpe, pai, estou angustiada.
- Com o quê?
- Agamenon quer voltar para sua vidinha anterior.
- Não se desespere com isso! Vocês se conhecem bem pouco e...
- Pai! Vou morrer de tanta tristeza! Mereço ser feliz, tudo dá errado, sempre dá errado.
A moça se abraça ao pai e chora aos prantos sendo acariciada com ternura por um bom tempo, depois ele se solta alegando que a portaria está vazia e sai do apartamento, mas antes de fechar a porta dá uma ultima olhada em Heloisa que voltou a se deitar no sofá aos prantos.
Heloisa havia adormecido no sofá depois de chorar muito. Acorda no meio da tarde com uma mão acariciando seu rosto, se volta lentamente e vê diante dela Agamenon com uma expressão angustiada. Uma raiva interior se apodera dela que levanta de um pulo e começa a bater no peito dele com as duas mãos fechadas, voltando a chorar.
- Volta pra junto de seu passado! Me deixe em paz....
- Calma, estou aqui e...
- Você não está aqui. Seu pensamento é tão claro que parece um filme. Só pensa em voltar, em satisfazer sua vaidade, se vingar de quem lhe traiu.
- Não é o sentimento de vingança que me move para o possível retorno ao meu tempo. Aqui, me sinto deslocado, tenho lido os avanços da medicina, substituição de órgãos, corações de quem morreu dando vida a quem já não tem esperanças...
- -Se acredita que vai conseguir viver novamente como antes, é um completo idiota.
- Olhe pra mim e me diga o que sou hoje? Eu lhe respondo! Hoje, não passo de um simples curioso na medicina, Teria que me recompor totalmente, estudar muito, começar quase do nada. Os tempos mudaram. A evolução foi rápida demais, não andei ao lado dela, saltei por cima. Sobrevivo na incerteza, sou infeliz sem rumo, antes, era um médico respeitado e poderia avançar com os conhecimentos de maneira significativa, agora, voltaria a ser apenas um estudante.
- Vai continuar sem ser feliz. Não terá mais a família que imagina ter, não terá a profissão que tanto gosta... Os equipamentos estarão como sempre estiveram, se tentar fazer o que pensa, passará por louco, ninguém vai acreditar que esteve no futuro.
- Não será bem assim!
- Vai ser pior! Se ao voltar no tempo, sua mente esquecesse o que viu, o que viveu nesses últimos dias, seria feliz. Mas ao que parece, não esquecerá nada e não poderá compartilhar suas experiências. Logo, vai sentir saudade de muita coisa, vai se arrepender e não terá como corrigir.
- Se ficasse, a única coisa boa que teria, seria você!
- Saia da minha frente, agora...- A moça o empurra até a porta – Não me faça sofrer mais, seja gentil e não me procure mais.
No lado de fora, Agamenon encostou a cabeça na porta que Heloisa bateu com força. Fausto do balcão olhava para ele de maneira critica, como quem está prestes a tomar o partido da filha. Abre a boca pra falar, resolve não se meter e se volta para o escaninho de correspondência. O telefone toca, ele atende, o médico sobe as escadas sentindo cansaço a cada degrau.
Heloisa dentro de casa fica andando de um lado para o outro, como fera dentro de jaula. Depois de alguns minutos, pega o telefone e faz uma ligação.
- Alô...! Norma?
No dia seguinte, Heloisa parecia uma louca de preocupação. Andava na recepção de um lado para o outro e seu pai tentava acalma-la.
- Vai ver dormiu e não quer falar com ninguém.
- Tem algo errado, preciso saber. Você mesmo disse que Andrade o pegou para ver o filho.
- Foi! Vai ver, não era quem ele procurava e o homem ficou decepcionado.
- Ora...! Ele é um homem prático. Tem quase vinte e quatro horas, trancado, sem comer nem dar sinal de vida. Vou lá...
- Não vai não!
Sem esperar por uma permissão do pai, ela pegou numa gaveta a chave mestra e subiu quase correndo as escadas. Ela estava completamente transtornada, na sua mente só conseguia imaginar que Agamenon havia morrido.
Nervosa e tremendo muito, Heloisa enfiou com dificuldade a chave na fechadura e abriu a porta. O quarto estava no escuro e viu o médico sentado no chão com a cabeça entre os joelhos ao lado da porta do banheiro. O quarto estava com o cheiro desagradável de suor e medo. Ela correu para ele e viu que chorava aos prantos, o abraçou e ele se entregou como se fosse uma criança abandonada.
Com muito carinho, ela sentia culpa por tê-lo abandonado tanto tempo. Sentou-se ao seu lado, o puxou para o colo e deixou suas lagrimas se misturar com as dele. Quase duas horas depois ele balbuciou algo que ela não entendeu e em seguida, foi levantando lentamente do colo de Heloisa. Com o olhar grudado no chão e as mãos se espremendo uma contra a outra, ele contou a conversa que tivera com Luiz.
- Estou em frangalhos! Sinto-me traído, enganado, por Dora, Arquimedes e Luiz. No entanto, acho que não são culpados de qualquer coisa. Fui um idiota, sempre vaidoso e cego, não via um palmo além do nariz. Meus sentimentos se confundem, entre dor, ódio e culpa. O pior é que senti minha alma fugir, mesmo quando ele me disse que estava doente, sem cura, com um vírus novo, não sentia mais nada. Meu coração se recusou a sofrer.
- A vida é assim mesmo! Cada momento que vem pode ser uma surpresa. Você tem a mim e prometo que não vai se arrepender de ficar no meu coração. Chore e sofra sem medo, depois tudo vai clareando e desaparece nas curvas do viver.
- Me beija, me acaricie, estou perdido em mim mesmo, solto no vento que me arrasta para idéias absurdas.
Com carinho ela segura o rosto de Agamenon, beija seus lábios suavemente acariciando os cabelos grudados de suor. Mesmo acariciado e beijado, um sentimento de vingança parece estabelecido na mente do médico.
Heloisa só conseguiu fazer o médico sair do quarto, três dias depois. Enquanto isso levava comida, lia jornais e fazia carinho. Andrade soube do que acontecera e veio visitar o amigo, no entanto voltou sem ser recebido. Havia muita dor, vergonha e raiva em Agamenon. No primeiro dia depois do seu retiro de angustias, foi com a moça até a casa de Joaquim. Embora não estivesse com interesse em mais nada, a possibilidade de voltar no tempo e vingar suas dores lhe parecia algo animador, não havia comentado esse sentimento com Heloisa, mas ela percebeu manteve-se calada por acreditar que poderia se enganar.
Na cabeça do médico, havia surgido repentinamente vontade de esbofetear o irmão que lhe traíra, expulsar a mulher que o enganara e dar um novo rumo a sua vida. Por outro lado, a duvida também o consumia, perguntava a si mesmo se valeria a pena deixar tudo que estava conquistando, com sacrifício, nos últimos dias.
O amor de Heloisa lhe parecia sincero, aos poucos seus problemas começavam a se desmanchar, era só questão de mais algum tempo e talvez, até poderia voltar a ser um médico de verdade.
Assim que chegaram na casa do tio da moça, foram recebidos na porta com muita alegria pelo Advogado que estava vestido como quem pretendia sair.
- Ótimo que chegaram, Vicente está nos esperando, vamos até a casa dele.
Sem ao menos permitir que o casal entrasse, ele saiu batendo a porta. Puxou os dois de volta até o elevador que ainda estava no andar. Entraram e ele apertou o botão com a letra G.
- Vou pegar o carro! A casa de Vicente fica fora da cidade.
Assim que saíram das ruas movimentadas, pegaram uma estrada estreita e em poucos minutos Joaquim estacionava ao lado de uma casa dentro de um sitio. Agamenon observou que mais distante da casa havia um pequeno galpão feito com paredes de madeira e telhado de um material que não conhecia. Uma mulher apareceu com uma vassoura na mão.
- Doutor Joaquim!
- Como vai Lucia?
- Vou bem!
- Onde está Vicente?
- No galpão! – a mulher apontou com a cabeça.
- Obrigado Lúcia! No dia que Vicente morrer, quero que vá trabalhar lá em casa.
- Sem se tratar, acho que não vai demorar muito! Tem fumado mais do que nunca e agora, vive enfurnado no laboratório.
Joaquim acenou sorrindo para a mulher, puxou o casal, segurando um em cada braço, em direção ao galpão. Assim que entraram, o médico viu Vicente sentado diante de uma mesa com um computador, junto de umas caixas mais à frente. A sua volta, havia pedaços de invenções por todo lado, maquinas que pareciam danificadas, amontoadas umas sobre as outras.
O homem estava entretido e nem percebeu a chegada dos visitantes até que Joaquim o tocou no ombro, ele deu um pulo da cadeira com expressão de susto no rosto, que aos poucos se desfez para um grande sorriso. Depois de se cumprimentarem, ele puxou Agamenon pelo braço e falou com ansiedade.
- Olha! Os cálculos me comprovaram teoricamente que estou certo. Já tenho até o material necessário para substituir o carro. – Ele apontou para o fundo do galpão onde havia uma grande bola pintada de cor laranja. – Um sinalizador de linha de transmissão de energia. – Vendo que todos se entreolhavam com desconfiança ele continua explicando. – Sei que é pequeno, mas O doutor não é muito grande, faço uma janela para ventilar.
- Já sabe quanto tempo vai demorar para a transposição? – Perguntou Joaquim como se estivesse bem inteirado da experiência.
- Não mandei o sinalizador, o equipamento antigo, não suportaria. Mandei uma caneta e demorou cerca de dois minutos para ela voltar. Isso quer dizer, que ele vai ter de sair nesse tempo do sinalizador, caso contrário, volta pra onde partiu.
Vicente acende um cigarro, dá uma grande baforada e se desequilibra levando a mão ao peito. Vendo que ele não está bem, Agamenon se precipita em sua direção a tempo de sustentar o corpo frágil do físico que começa a tombar para o lado. Com muito cuidado, ele deita Vicente no chão examinando suas pupilas e em seguida, tomando seu pulso.
- Ele está enfartado!
- Foi agora? – perguntou Joaquim assustado.
- Já devia estar antes e não se cuidou. – disse Agamenon olhando em volta. – Vamos levá-lo para casa, precisa repousar e de medicação certa.
- Tenho... remédios... no meu quarto. – fala Vicente com dificuldade como quem tem a língua grossa na boca.
Ainda no carro, Joaquim ao volante olha para Agamenon ao seu lado e depois para Heloisa no banco de traz, Começa a falar se cala e logo ultrapassaram o portão da casa de Vicente, pergunta de maneira insegura.
- Ele vai ficar bem?
- Vai! Pelo menos por enquanto, mas da maneira como se cuida, não demora muito pra morrer.- responde Agamenon com ar pensativo.
- Lucia tem razão, ele não demora pra morrer! – suspira Joaquim.- Ele é meu melhor amigo!
O restante do trajeto até a cidade, eles permaneceram calados. Quando chegaram na frente ao hotel, Joaquim estacionou o carro e saltou junto com o casal.
- Onde podemos beber uma cerveja aqui por perto?
- Vai beber, Tio...? – Perguntou Heloisa com preocupado.
- Já sou velho! Como diz Vicente, tanto faz mais um ano, um mês ou um dia. O importante agora é ter o que resta de prazer. Vou me deliciar com uma cerveja... sim!
Heloisa dá de ombros e se encaminha para entrar no hotel com uma expressão aborrecida. Agamenon segura sua mão.
- Não vai junto?
- Querem se embriagar, tudo bem! Tenho mais o que fazer.
A moça se solta do médico que fica olhando ela entrar e depois sai com Joaquim que parece preocupado. A moça passa pelo pai e entra em casa chutando a poltrona ao lado da porta.
- Merda! Ele quer voltar pra mulher, e me largar aqui. Não tenho sorte na vida! Mas se pensa que vou desistir se engana. Ainda vou mostrar que sou melhor..., Será que sou mesmo? Será que tenho esse direito?
A moça se atira no sofá de bruços deixando um soluço a dominar. Poucos minutos depois, Fausto entra preocupado com a filha que passou por ele feito um relâmpago quando entrou. Vendo a filha chorando, ele senta ao seu lado acariciando seus cabelos.
- O que foi que aconteceu, minha filha?
- Nada, nada...
- Sei que não tenho nada com sua vida, no entanto, sou pai...
- Desculpe, pai, estou angustiada.
- Com o quê?
- Agamenon quer voltar para sua vidinha anterior.
- Não se desespere com isso! Vocês se conhecem bem pouco e...
- Pai! Vou morrer de tanta tristeza! Mereço ser feliz, tudo dá errado, sempre dá errado.
A moça se abraça ao pai e chora aos prantos sendo acariciada com ternura por um bom tempo, depois ele se solta alegando que a portaria está vazia e sai do apartamento, mas antes de fechar a porta dá uma ultima olhada em Heloisa que voltou a se deitar no sofá aos prantos.
Heloisa havia adormecido no sofá depois de chorar muito. Acorda no meio da tarde com uma mão acariciando seu rosto, se volta lentamente e vê diante dela Agamenon com uma expressão angustiada. Uma raiva interior se apodera dela que levanta de um pulo e começa a bater no peito dele com as duas mãos fechadas, voltando a chorar.
- Volta pra junto de seu passado! Me deixe em paz....
- Calma, estou aqui e...
- Você não está aqui. Seu pensamento é tão claro que parece um filme. Só pensa em voltar, em satisfazer sua vaidade, se vingar de quem lhe traiu.
- Não é o sentimento de vingança que me move para o possível retorno ao meu tempo. Aqui, me sinto deslocado, tenho lido os avanços da medicina, substituição de órgãos, corações de quem morreu dando vida a quem já não tem esperanças...
- -Se acredita que vai conseguir viver novamente como antes, é um completo idiota.
- Olhe pra mim e me diga o que sou hoje? Eu lhe respondo! Hoje, não passo de um simples curioso na medicina, Teria que me recompor totalmente, estudar muito, começar quase do nada. Os tempos mudaram. A evolução foi rápida demais, não andei ao lado dela, saltei por cima. Sobrevivo na incerteza, sou infeliz sem rumo, antes, era um médico respeitado e poderia avançar com os conhecimentos de maneira significativa, agora, voltaria a ser apenas um estudante.
- Vai continuar sem ser feliz. Não terá mais a família que imagina ter, não terá a profissão que tanto gosta... Os equipamentos estarão como sempre estiveram, se tentar fazer o que pensa, passará por louco, ninguém vai acreditar que esteve no futuro.
- Não será bem assim!
- Vai ser pior! Se ao voltar no tempo, sua mente esquecesse o que viu, o que viveu nesses últimos dias, seria feliz. Mas ao que parece, não esquecerá nada e não poderá compartilhar suas experiências. Logo, vai sentir saudade de muita coisa, vai se arrepender e não terá como corrigir.
- Se ficasse, a única coisa boa que teria, seria você!
- Saia da minha frente, agora...- A moça o empurra até a porta – Não me faça sofrer mais, seja gentil e não me procure mais.
No lado de fora, Agamenon encostou a cabeça na porta que Heloisa bateu com força. Fausto do balcão olhava para ele de maneira critica, como quem está prestes a tomar o partido da filha. Abre a boca pra falar, resolve não se meter e se volta para o escaninho de correspondência. O telefone toca, ele atende, o médico sobe as escadas sentindo cansaço a cada degrau.
Heloisa dentro de casa fica andando de um lado para o outro, como fera dentro de jaula. Depois de alguns minutos, pega o telefone e faz uma ligação.
- Alô...! Norma?
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