segunda-feira, 21 de julho de 2008

Capítulo 21

Capítulo 21

Pouco depois do meio dia, eles chegam num restaurante que fica no alto de uma colina, um pouco afastado da cidade de onde podem apreciar uma linda paisagem. Um grande mar muito azul em um dia de muito sol.
- Nem parece que choveu tanto, ontem à noite! – diz Heloisa pensativa.
- Depois de tudo que me aconteceu, sinto medo de trovoadas.
- Já notei!
- Esse lugar é muito bonito!
- Estive aqui, quando meu marido ainda era vivo. Estava grávida e me sentia a mulher mais feliz do mundo. Mal sabia que um ano depois iria perder tudo. Agora, estou com você, me sinto novamente a mulher mais feliz do mundo, não vou agüentar perder novamente.
- Olha lá...!- Agamenon aponta para o mar – Ele vai e volta, mas nunca deixa de ser o mar. O amor pode ser eterno, basta que seja forte o suficiente para vencer os limites do tempo.
- Certo! Você volta, sobrevive até os cem anos, me encontra e se despede para morrer. Seria surpreendente! – Heloisa fala com ironia.
Ele percebe que o assunto é delicado e não deve dar corda. Chama o garçom e pedem a comida, logo depois ele começa a falar do filme que assistiram na noite anterior.
- Você gostou do filme de ontem?
- Achei fraco. O cara é de fazer muita careta. – Heloisa responde desanimada.
- A situação realmente é engraçada.
- No entanto, pouco provável.
Heloisa não faz questão de esconder seu mau humor durante o almoço. Quando estão saindo do restaurante e vão atravessar uma rua para pegar o ônibus, um carro passa por eles e Agamenon estanca repentinamente, fica paralisado.
- O que foi? – pergunta Heloisa com espanto.
- Luiz! Tenho certeza que era ele naquele carro. Estava envelhecido, mas era ele. Senti algo estranho quando passou.
- Olhou a placa?
- Não! Nem lembrei.
Assim que retornam para o hotel, Heloisa muito aborrecida, dá um beijo rápido em Agamenon e vai para casa, alegando que tem de substituir o pai na recepção. Durante dois dias a moça parecia querer fugir do médico que já não sabe como acalmar o coração da namorada.
No sábado, Pouco depois de acordar, antes mesmo de escovar os dentes, ouve o telefone do quarto tocar, olha para o relógio, já passavam das oito horas. Da portaria, Fausto avisa que Andrade está esperando para falar com ele.
Depois de se trocar, Agamenon desce para falar com o policial que ao vê-lo, sorri. Ele com o braço na tipóia, faz questão de apontar o peito e fazer sinal de positivo e sem esperar o médico se aproximar muito, foi logo dizendo.
- Vamos! Sei onde achar seu filho.
Os dois saíram entrando no carro que estava sendo dirigido pelo mesmo policial que viera buscar Agamenon para visitar Andrade. O coração do médico parecia querer saltar pela boca de tanta excitação enquanto Andrade explicava como haviam localizado Luiz.
- Ele verificou mais uma vez e não teve duvida, o nome do homem que foi assaltado na porta de casa, era o mesmo que eu procurava, fui lá ontem e ele mesmo me disse que conhecia Dr. Agamenon. Fui bastante discreto e não adiantei nada.
Depois de rodarem por varias ruas de bairros que Agamenon não conhecia, estacionaram em frente de uma casa grande com um muro alto e dois portões largos de madeira. A rua era tranqüila, só havia casas, não se via crianças nem animais, apenas carros parados nas portas das casas. Muito nervoso, o médico saltou do carro meio atrapalhado enquanto Andrade tocava a sirena.
Depois de alguns minutos de espera, uma parte do portão se abriu aparecendo uma mocinha de uns vinte anos, negra com um lenço na cabeça.
- Podem entrar. O doutor Luiz está na varanda.
A mocinha indicou com a mão estendida na direção onde o patrão esperava os policiais ainda sem saber da surpresa que o aguardava. Agamenon olhou na direção da varanda e viu um homem sentado junto de uma mesa de ferro com um jornal na frente do rosto. Andrade se antecipou.
- Bom dia Doutor Luiz!
O homem abaixou o jornal retirando em seguida os óculos meia lua que usava para ler. Para surpresa de Agamenon era um homem de estatura pequena, um pouco calvo, lembrando muito seu irmão Arquimedes. Sem se conter, o médico se adiantou.
- Luiz...?
- Sou...- o homem ficou estático com os olhos grudados em Agamenon.
Durante um bom tempo o silencio era mortal, ninguém ousaria nem respirar profundamente. Ficaram se olhando, Luiz finalmente recuperou um pouco de coragem e perguntou com o olho grudado no médico.
- Quem é você?
- Agamenon Lanufo!
- Não é possível!
Andrade segurou o braço do colega e o puxou para ir embora acenando para o médico que sorriu constrangido. Assim que eles passaram do portão, Luiz desceu da varanda se aproximando de Agamenon o examinando em todos os detalhes.
- Como isso é possível?
- Uma história bem complicada e quase impossível de acreditar.
- Venha, sente aqui e me permita recuperar o fôlego enquanto me conta.
Os dois sentaram junto da mesa onde Luiz estava quando o médico chegou. Agamenon, havia percebido que o filho estava sem acreditar no que via e parecia cheio de desconfiança. Depois de contar tudo, viu o outro abaixar os olhos como quem receia alguma coisa.
- Não vai dar um abraço em seu pai?
Luiz levantou-se, abraçou Agamenon rapidamente como quem sente vergonha e logo se afastou constrangido deixando as lágrimas correrem pela face. Ambos choravam.
- Nem sei como começar! – disse Luiz muito emocionado – mas tenho que contar logo, posso não viver o suficiente para ter oportunidade no futuro de desabafar o que corroeu minha alma durante toda a vida. Não pense que eu seja um homem sem sentimentos, mas gosto muito de você para permitir enganos.
- Então conta!
- Não sei se vai aceitar ou entender, mas tenho vontade de lhe contar isso desde os seis anos de idade.
- Vamos deixar de mistério e conta logo.
- Antes vou pedir para minha empregada trazer uma bebida. Gosta de conhaque?
- Ainda é cedo...
- Garanto, vai precisar, eu... preciso agora.
Luiz gritou chamando a empregada e mandou trazer uma garrafa de conhaque e dois cálices. Depois que a garrafa estava sobre a mesa, ele bebeu um pouco, respirou profundamente.
- Aos seis anos, eu estava no meu primeiro dia de aula, você havia me levado e foi para o hospital. Minha mãe ficou de me pegar e você não estaria em casa na hora do almoço. Quando chegamos em casa, Meu tio Arquimedes estava lá, ele e minha mãe pareciam preocupados ou aborrecidos, fui tomar banho para almoçar, Hermes estava na casa de um colega, haviam combinado alguma coisa que não lembro, era coisa combinada com antecedência. Esqueci de pegar a toalha, voltei para a cozinha para pedir uma a minha mãe e foi nesse momento que minha vida se tornou um inferno.
Luiz para de falar olhando com ternura para Agamenon, enche o cálice mais uma vez e bebe de um só gole. Agamenon sentindo a cabeça estourar de ansiedade, bebe um pouco do conhaque.
- Pois bem! Assim que cheguei na porta da cozinha, ouvi meu tio e minha mãe brigando. Ele queria que ela fosse com ele para a casa dele na capital, garantia que resolvia tudo com você. Minha mãe se negava dizendo que não queria ser apontada na rua como uma vagabunda. Ele insistia e finalmente disse o que eu não gostaria de ter ouvido. “Não vamos esconder nosso amor! Quero criar meu filho, Luiz já está grande e Agamenon, tem Hermes”. Corri chorando de volta para o banheiro me sentindo um nada. Só peço perdão a você por não ter contado antes, talvez eu estivesse protegendo minha mãe.
Não foi necessário mais nada, Agamenon encheu três vezes o cálice de conhaque sem dizer uma só palavra, o peito ardia, um fogo tomava sua face e um arrepio percorria seu corpo. Luiz apenas abaixou os olhos e chorou.
Agamenon ainda confuso, levantou-se lentamente, estendeu a mão para Luiz que apertou e o puxou num longo abraço. Assim que Luiz o soltou Agamenon sem saber o que fazer, olhou para os lados sentindo o peito vazio.
- Estou viajando para o exterior na semana que vem. Vou fazer um tratamento, estou com pouco tempo de vida. Sou homossexual e contrai uma doença que na sua época não existia.
- Muito obrigado! Boa sorte, filho!
Apressado e envergonhado com tudo que ouvira, Agamenon sai da casa de Luiz vendo o mundo inteiro desabar na sua cabeça. Apóia-se num poste de iluminação, sente ânsia de vomito, respira fundo e se controla. Sem saber ao certo qual o caminho de volta para o hotel, vagou com o olhar perdido um bom tempo por aquelas ruas estranhas até que viu um táxi, fez sinal.
Agamenon entrou no hotel com o olhar vidrado, corpo duro e sem expressão na face. As pernas se moviam o levanto, pegou a chave do quarto, subiu a escada lentamente, se trancou no quarto. Como se estivesse em câmera lenta, pegou sua maleta de mão, abriu e ficou olhando para dentro um bom tempo. Finalmente retirou um frasco, abriu, separou dois comprimidos, engoliu seco deitando atravessado na cama.

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