sábado, 19 de julho de 2008

Capítulo 19

Capitulo 19

No hospital onde o policial estava internado, o movimento era muito grande na entrada de emergência. Agamenon acostumado, apenas olha para os lados avaliando as mudanças que ocorreram desde a ultima vez que estivera no local. A sua frente, caminhando em passos largo, o outro policial que fora busca-lo, caminha sem dar atenção para nada a sua volta, estancando repentinamente, mostra apontando pra ele uma porta.
- Segundo andar, quase em frente da escada, uma enfermaria.
Antes de Agamenon dizer qualquer coisa, o homem se afasta seguindo em outra direção. Agamenon dá de ombros, abre a porta e vê uma escada larga, sobe lentamente sem pressa até o andar indicado, entra na enfermaria procurando com os olhos o leito de Andrade entre as dez camas ocupadas. Uma enfermeira muito magra, negra com os cabelos trançados aparecendo por baixo da toca, se aproxima com expressão de surpresa.
- O senhor deseja alguma coisa?
- O homem daquele ultimo leito, o policial Andrade me chamou.
A mulher se volta para o paciente que Agamenon aponta e vê que ele acena com impaciência, chamando o amigo. O médico se adianta sem dar mais importância para a enfermeira que o acompanha desconfiada, assim que se aproximam, Andrade faz um gesto com a mão indicando para ela sair.
- Pode ir, esse foi o médico que salvou minha vida!
Assim que a enfermeira se afasta, Agamenon puxa uma cadeira que está aos pés da cama e senta ao lado do policial sorridente. Aproximando-se mais do enfermo, o médico fala lentamente coma voz pausada.
- Parece que em breve, vai levantar da cama!
- Quero lhe agradecer pelo que fez.
- Não fiz nada que um médico qualquer...
- Sei...Sei...! O que importa é a sua situação. Sabia que não deveria se arriscar a praticar medicina sem ter seu problema resolvido e mesmo assim, não pensou duas vezes.
- Se fico sem agir, você morria antes do socorro chegar.
- Não se preocupe. O delegado me prometeu limpar seu rastro. O médico que chegou naquela noite junto com a ambulância, é amigo do homem, não vai colocar nada no relatório e o inquérito na delegacia não vai citar nada além do ocorrido antes e depois. Haverá um espaço em branco.
- Eu agradeço...
- Já disse! Quem tem que agradecer, sou eu! Mas chamei você aqui, para falar outra coisa bem diferente. Ontem, um amigo meu, do quinto distrito, localizou um empresário que tem o mesmo nome de seu filho. Vou ter certeza disso e lhe digo depois, mas posso adiantar que o homem está de viajem com a família, parece que vai embora da cidade, do país..., não sei direito.
- Como o seu amigo...?
- Parece que houve um assalto na casa dele, e esse amigo comentou comigo hoje cedo. Foi ele lhe trouxe até aqui!
- Sei...!
- Estou na cama, mas continuo atento. Vou me empenhar para ajudá-lo.
- O importante é que não faça besteira, não levante antes da hora...
- O médico que me atendeu, disse que seu trabalho foi bem feito e no máximo até o fim de semana vou ter alta.
- Se precisar de alguma coisa...!
- Sei que posso contar com o senhor. Pode me considerar um amigo.
- Obrigado!
- Falou com o juiz?
- Chedim se aposentou e o processo está com um tal de Carmelo!
- Carmelo Mellin?
- Esse mesmo!
- Nada bom! Esse é um dos juizes mais idiotas que já conheci. Se deixar solto ele vai encrencar. Arrume um bom advogado...
- Já fiz isso. O juiz mesmo me aconselhou.
- Não disse! Ele é retrogrado. Podia ler o laudo do processo e dar um parecer favorável, mas tenho certeza que fará tudo para aparecer.
- Não gostei dele!
- Não se assuste, assim que sair daqui, converso com seu advogado. Me diga quem é.
- Joaquim Feitosa!
- Um louco, mas muito competente.
- Vou indo!
- Gostei muito da visita. Não podia mandar um recado dizendo essas coisas que contei.
- Foi bom ter vindo!
Agamenon levanta-se sem pressa, estende a mão para o policial que sorrir aceitando o cumprimento. Naquele momento, entra uma outra enfermeira baixinha e muito dentuça, carregando uma bandeja com medicamentos. O médico se afasta acenando enquanto se caminha para o corredor.
Rapidamente, o médico alcança a rua ficando um pouco aturdido com o movimento a sua volta. Seus pensamentos parecem se chocarem uns contra os outros. Nesses últimos dias, sua cabeça estava acumulando informações que nunca imaginara precisar. Não havia entendido muito bem, a urgência de Andrade em falar com ele já que não possuía uma noticia completa para lhe oferecer. De qualquer maneira, sentiu que poderia contar com a ajuda dele e isso, significava um bom caminho para trilhar.
O policial que o levara até o hospital estava parado quase na saída do portão e vendo o médico, veio até ele se desculpando.
- O senhor me desculpe, sou assim mesmo. Venha vou levá-lo de volta para o hotel.
Assim que entrou no hotel, foi logo abordado por Heloisa que parecia preocupada. A moça saiu de trás do balcão e o abraçou com ansiedade.
- Algum problema?
- Não! Andrade parece que tem noticias mais seguras do paradeiro de Luiz.
- Tio Joaquim telefonou. Disse que gostaria que de nos ver na casa dele amanhã bem cedo!
- Está certo! Vou tomar um banho e me deitar um pouco, estou com muita dor de cabeça.
- Quer uma aspirina?
- Não! Acho que preciso dormir! Minhas idéias parecem pesadas para serem sustentadas, me sinto confuso e... ansioso.
- Vá dormir, mas tarde passo lá e lhe acordo com um chá bem quentinho.
Dando um beijo suave nos lábios da moça, Agamenon sobe as escadas sentindo o corpo dolorido. Entrando no quarto, tira as roupas e vai para o banheiro com o olhar sonolento, perdido no vazio.
Pouco depois das seis e meia da noite, o médico acorda assustado com o pesadelo que acabara de ter. Ainda sentado na cama olhando em volta o quarto escuro, ouve baterem na porta e pouco depois a voz de Heloisa.
- Agamenon, já acordou...? Posso entrar?
- Pode! – fala o médico com a voz rouca, levanta-se lentamente e abre a porta.
- O que foi? Ta com uma cara muito ruim!
- Um sonho...
- Pesadelo?
- Horrível, me deixou muito mal.
A moça oferece a xícara de chá que tem nas mãos para ele que bebe um pouco e se engasga. Ela bate nas suas costas e os dois se olham. Se abraçam com carinho e sentam na cama.
- Quer me contar o pesadelo?
- Deixe terminar o chá.
- Isso! Beba sem pressa.
Assim que acaba de beber o chá, ele coloca a xícara sobre a mesa ao lado da cama e se volta para Heloisa.
- Era muito real, eu via novamente a onda de luz que me transportou ou sei lá o quê... Era como viver novamente aquele instante. Eu caia num lugar estranho, vazio e só ouvia vozes familiares que não podia reconhecer, mas sabia que conhecia, me acusavam de ser cego. Em alguns momentos era Dora que me perguntava se eu já havia esquecido dela, e outras vezes eram meus filhos que gargalhavam e Luiz me apontava com desdém.
- Foi só um sonho! Mas você deve pensar que agora, tem muitos problemas para resolver e não adianta se criticar. Não vai voltar, sua realidade é essa aqui, tente apenas viver o que lhe acontece.
A moça se levanta e puxa o médico pela mão que obediente deixa-se conduzir até o banheiro.
- Vá tomar um banho e vamos ao cinema. Distrair um pouco!
- Está bem! – ele entra no banheiro.
- Vou escolher uma roupa para você. Posso?
- Pode!
Ela ouve o ruído da água do chuveiro, sorri com ar preocupado, se volta para o guarda-roupa abre e fica olhando indecisa para as roupas penduradas. Escolhe uma camisa e uma calça, coloca sobre a cama, pega cuecas e meias nas gavetas. Joga sobre a cama, vai até o banheiro e da porta, dá uma olhada maliciosa para dentro sem entrar.
Os dois saem do hotel e ela segura a mão de Agamenon que parece encabulado olhando para os lados. Heloisa se abraça nele com carinho.
- Ninguém vai contar pra sua mulher?
Os dois se olham, gargalham, ela volta a segurar a mão dele.
- Gosto de andar assim! Sinto-me segura dando a mão ao homem mais maravilhoso que já conheci. Quero que todo mundo veja, as outras, podem perder as esperanças, você não se perde mais de mim.
- Confesso que em alguns momentos, ainda me sinto traindo. Nunca fiz isso, mesmo no momento mais desconfortável de meu casamento.
- Acredito! Mas não vamos pensar nisso e sim, em aproveitar essa noite enquanto não chove.
Agamenon olha para o céu e vê que ele está encoberto por nuvens grossas e cinzentas com tons avermelhados. O movimento na rua lembrava um grande formigueiro, com pessoas passando apressadas a sua volta parecendo ansiosas em alcançar abrigo.
- Parece mesmo que vai chover! Acho que tem razão, vamos apressar.
- Norma me disse que talvez nos encontre lá no cinema.
- Aquela sua amiga é muito simpática.
- Se feche pra ela! O que tem de feia, tem de charmosa, é mais perigosa do que parece.
Os dois se olham e gargalham alegres. Agamenon suspira e abraça Heloisa sentindo-se muito intimo, como se a conhecesse sua vida inteira. Era uma sensação diferente, com Dora, apenas vivera, mas não a conhecia, ela se mantinha distante, ele não conseguia ficar intimo, conhecer seus segredos, partilhar suas emoções.
Andar na rua de mãos dadas com Dora, impossível, ela no máximo andava de braços dados. Confessar para ela seus medos, não seria possível e muito menos se deixar levar pelas emoções dos prazeres.
Na cama, fazia apenas o que existia de mais convencional, se deixava inerte ser possuída, não possuía, ele não conseguia explicar, mas era como se o ato do sexo, fosse obrigação. Já com Heloisa, tudo corria de maneira mais arrojada, arriscavam caricias e não havia nenhuma barreira, tudo era possível de acontecer.
Os dois encontraram Norma na porta do cinema que ao vê-los, sorriu e veio logo ao encontro com os ingressos sacudindo na mão para o alto. Depois de abraçar Heloisa e beijar o rosto de Agamenon, os puxou com pressa para dentro.
- Vamos depressa, o filme já vai começar!
Na saída do cinema, Agamenon notou que embora o filme fosse uma comédia, Norma estava triste e que havia dado uma olhada para fachada do cinema suspirando demoradamente. Caminharam em silencio até um bar próximo com cadeiras espalhadas na calçada e um pequeno palco onde uma mulher bonita, cantava acompanhada por um rapaz franzino ao violão. Depois que sentaram e Agamenon pediu ao garçom as bebidas, se voltando para a moça a sua frente.
- Norma! O que você tem?
- Ia perguntar a mesma coisa – Disse Heloisa, segurando a mão do médico sobre a mesa.
Durante alguns segundos, Norma mordeu os lábios e ficou olhando para o meio da mesa com o olhar perdido.
- Papai vai vender mesmo o cinema. Fechou negocio com a construtora para fazer um grande centro comercial. De acordo com o projeto não tem cinema, mas em outro centro comercial que estão construindo tem dois, um deles vai ser nosso. Papai não queria mais saber de cinema, mas eu entrei na briga e resolvi assumir, vou tomar conta de cinema, e quem sabe, escrever roteiros. Matriculei-me num curso de roteiristas.
- Que ótimo! – disse Heloisa de maneira casual.
- Ótimo papai ter vendido o cinema?
- Deixe de ser boba! Achei ótimo o seu curso.
- Acho que a cidade inteira resolveu matar o centro, não é mais o mesmo, parece um cemitério de recordações. – Disse de maneira triste o médico olhando a sua volta.
- Não exagera, doutor! Estou triste com a venda do cinema, mas por outro lado, esse centro comercial talvez traga uma nova vida para o lugar.
O garçom chega com as bebidas, uma cerveja para Agamenon e Heloisa e uma dose de Martine para Norma. Depois de brindarem, Norma se volta para a amiga segurando seu braço e fala com excitação.
- Fui lá... naquela vidente!
- Então?
- Ela me falou coisas estranhas. Ainda não sabia que papai havia feito negocio com o cinema, a mulher me disse o que ia acontecer.
- Não acredito nessas coisas! – disse Heloisa olhando para Agamenon com ar de duvida.
- Levei seu retrato.
Heloisa se voltou curiosa para a amiga que sorria maliciosa. Agamenon deu de ombros sacudindo a cabeça com expressão de descrente.
- Ela me disse que você vai sofrer com a decisão de alguém de quem gosta muito.
- Agamenon vai embora!
- Não sei! Mas nem tudo é ruim, disse também que no fim, você pode ser agraciada com uma surpresa muito boa. Você devia ir lá!
- Você acredita mesmo nessas coisas? - Perguntou Agamenon com desdém.
- Quem sabe, tudo é possível. Veja seu caso. Quem poderia imaginar!
- Nisso, tem razão! – Agamenon falou olhando distraído para os carros que passavam.
Durante o restante da noite a conversa mudou de assunto inúmeras vezes e quando se despediram de Norma, Heloisa estava com uma expressão de preocupação que logo foi notada pelo médico.
- Preocupada? – Indagou Agamenon.
- Mesmo não acreditando em videntes. Esse negocio de sofrer com uma decisão de quem gosto muito, me deixou pensativa.
- O que ela queria dizer com isso?
- Sei lá! – disse a moça já impaciente, abraçou Agamenon com muita força se encolhendo em busca do corpo do companheiro.
Antes de chegarem ao hotel, começou a chover muito grosso, um relâmpago cruza o céu iluminando tudo em volta, seguido de um barulho forte. Eles correm para chegarem logo em casa, mas não podem evitar que a chuva os deixe encharcados. Heloisa nota que Agamenon parecia nervoso com a trovoada e sua expressão denotava medo.

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