Capítulo 18
Pouco antes das dez horas, ele chega ao fórum com Heloisa que se adianta ao balcão de informações com ares decididos. Agamenon vê que o porteiro que o atendeu anteriormente não está.
- Bom dia! Quero falar com o Juiz que substitui o Doutor Honorato Chidim.
- Sua identidade!
Heloisa pega a carteira na bolsa e entrega para o porteiro que confere e faz anotações. Assim que termina pega um crachá entregando para ela.
- Sala 603 – Doutor Carmelo Mellin.
- São duas identificações, meu amigo vai comigo.
- A identidade dele.
- Ele esqueceu.
- Então...! Não pode subir.
- Tenho uma provisória! – Fala timidamente o médico apresentado a sua carteira.
O porteiro pega o papel, lê com cuidado e sorri. Anota algumas coisas no formulário que tem sobre o balcão e entrega um crachá para o médico que parece não acreditar. Os dois sobem de elevador até o sexto andar e no fim do corredor muito extenso, encontram a sala do juiz Carmelo.
Assim que entram uma mulher muito bonita de cabelos tingidos de vermelho os recebe e manda que aguardem. Meia hora depois, avisa que podem eles entrar. No gabinete encontram um homem totalmente calvo de gestos nervosos quase encoberto por pilhas de pastas de processos sobre sua mesa. Ele sem levantar os olhos do que está lendo rosna um bom dia. Sentindo-se incomodado, Agamenon fala desanimado olhando em volta.
- O senhor me desculpe, mas estamos interessados em acompanhar um processo do Juiz Honorato...
- Qual ...? – fala arrastando a voz com impaciência - Não vamos perder tempo, como pode notar, aquele velho me deixou muito trabalho.
- Declaração de vida e identificação do doutor Agamenon. – Heloisa se adianta.
O homem olha por cima da pilha de processos para Agamenon e se levanta. Só então percebem que ele e muito pequeno e magro.
- Agamenon Lanufo?
- Isso mesmo!
- O que diz que tem cem anos e é pai do memorável, Doutor Hermes Lanufo?
- Exatamente. Eu sou Agamenon Lanufo, pai de Hermes.
O homem sai de seu lugar e vem caminhando em direção ao doutor com ar de incredulidade. Coloca diante dos olhos uns óculos que tem pendurado no pescoço e solta uma gargalhada que aos poucos vai se esvaindo e torna-se uma tosse.
- Desculpe, mas a coisa toda é inacreditável. Estou com o processo na minha mão, estava lendo agora mesmo. Achei curioso, mas olhando o senhor, fico ainda mais intrigado.
- Com o que?
- Estava pronto para indeferir, daria meu parecer de impossibilidade, não marcaria nem audiência, mas olhando o seu rosto, fico curioso. O professor Hermes era muito parecido com o senhor, parecem até irmãos.
- Sou o pai!
- Sei não...!
- O que será necessário para provar que sou quem estou dizendo ser? – Pergunta Agamenon já irritado.
- Calma! Nunca houve um caso assim. Nem sei por onde começar.
- Vamos localizar meu outro filho, ele vai me reconhecer.
- Não é assim que deve funcionar. Alias, nem sei como deve funcionar um caso deste. Vou pensar no assunto e dentro de uma semana, já posso lhe dizer o que vai acontecer. Foi bom ter me procurado, estivesse ainda com Honorato, ele despacharia sem nem dar uma olhada. Acho bom contratar um advogado para continuar com o acompanhamento do processo, vai precisar.
Despedindo-se como quem tem pressa em se livrar dos dois, o Juiz Carmelo fecha a porta deixando Agamenon e Heloisa diante da Secretária de cabelos vermelhos que indica a porta de saída. Os dois caminharam pelo longo corredor em silencio, desceram pelo elevador, cada um imaginado por sua conta o resultado daquela entrevista.
Já na rua, Heloisa segurou o braço de Agamenon e disse pensativa.
- Acho que sei de um advogado para esse caso.
- Quem?
- Um amigo! Ele é velho, mas muito bom, só precisamos convencê-lo.
- Ele tem alguma coisa contra vocês?
- Não! Ele é muito estranho. Vamos na casa dele.
Decidida ela acena para um táxi que passa e puxa Agamenon pelo braço. Meia hora depois saltam diante de um prédio alto de classe media numa rua sossegada e cheia de arvores. O porteiro ao ouvir de Heloisa o nome do advogado, faz cara de nojo pegando o interfone.
No quarto andar, eles saltam procurando o apartamento 401. Eram quatro por andar, Heloisa logo tocou a sirena e uma senhora de mais ou menos uns sessenta anos, um pouco gorda de cabelos curtos e alvos, arrastando os chinelos, atende com um sorriso.
- Entre minha filha. Joaquim vai chegar logo, foi comprar pão para o almoço. Você lembra? Têm mania de comer tudo com pão. O médico proibiu, mas não tem como fazer mudar esse vício. Sentem-se...
- Tia Clara, esse é doutor Agamenon.
- Médico – disse a velha olhando para ele.
- Isso mesmo!
- Tem cara de médico! Vou pra cozinha, tenho muita coisa pra fazer.
Assim que clara saiu, Agamenon olhou em volta, estava num apartamento mobiliado com engenhos pendurados nas paredes e estantes de livros por todos os lados. Um sofá velho e desbotado forrado de verde, duas poltronas vermelhas que não combinavam. Uma janela grande com vista para uma pracinha. Pouco depois a porta se abriu entrando um homem de pouco mais de sessenta anos, cabelos cortados rentes, sobrancelhas grossas, movimentos agitados, altura mediana, um pouco gordo. Assim que viu Heloisa, abriu um grande sorriso e jogando o pacote de pão sobre uma mesa, junto da porta da cozinha, veio ao encontro da moça de braços abertos.
- Querida! Ingrata!
- Nem tanto, tio.
- Tem mais de um ano que não vem aqui em casa.
- Tem quase um ano que não vai lá em casa.
- Linda como sempre! – ele acaricia os cabelos de Heloisa e se volta com ar intrigado para Agamenon, ela se apressa em apresentá-los.
- Tio, Esse é um... amigo. Agamenon.
- Médico?
- Devo ter um letreiro pendurado no peito.
- Não, apenas tem cara de médico.
- Tia Clara disse a mesma coisa. – Atalhou Heloisa – Preciso de seus préstimos.
- Muito bem menina! O que vai ser agora?
- Acho melhor Agamenon contar tudo desde o inicio.
Um pouco constrangido, esperando que o Advogado não fosse acreditar na sua aventura, ele começa timidamente e quando termina, observa que o olhar do velho a sua frente parece perdido em alguma coisa muito distante. Depois de algum tempo silencioso, Tio Joaquim se volta novamente para o médico.
- Já sei o que fazer! Se esperar um instante, preparo uma procuração, assina e começo ainda hoje alguns contatos e antes de Carmelo se fazer de besta e promover uma nova confusão para se promover, eu consigo provar o que precisa. Quero dizer, que acredito na sua história, e é por isso que vou fazer aceitar seu caso.
Novamente os dois retomam o caminho de volta para o hotel com Heloisa, Agamenon confessa mais relaxado e sorridente, que começa a acreditar numa chance de retomar a vida. Abraça a moça e a convida para irem ao cinema depois do jantar. Ela reclama que está com fome, entram num centro comercial muito agitado, sentam numa lanchonete e fazem uma refeição rápida.
Agamenon parecia ter renascido depois de conversar com Joaquim, ele lhe oferecera um pouco de esperança em uma vida regular, muito embora soubesse que não seria fácil. Estava diante de um problema crucial, a sua profissão. O que fazer para ganhar a vida, não era comerciante, não possuía nenhum outro conhecimento além de ser médico e cuidar da saúde das pessoas, e tudo ligado a isso, precisaria de comprovação de estudos específicos, de diplomas. O dele estava perdido, ele estava num futuro que não lhe pertencia.
Antes de entrarem no hotel, são detidos por um homem alto, magro com um colete preto um boné na cabeça e uma bolsa pequena pendurada no ombro.
- Agamenon?
- Sou...!
- Andrade quer vê-lo no hospital. Está no pronto socorro.
- Mas lá não se pode...- Heloisa começa a falar contrariada e é interrompida.
- Eu levo! Comigo entra! – disse de maneira seca o homem.
- Pode ser agora? – pergunta o médico desconfiado.
- Pode. Tenho meu carro logo ali.
- Vou com você! Diz Heloisa de maneira segura.
- Não vai precisar, a senhora não pode entrar, só o doutor. Não vai demorar nem uma hora. – O homem nem espera por uma reação da moça, segura o médico pelo braço e entra no carro que está parado junto da calçada.
Heloisa fica olhando o carro partir. Quando o perde de vista, respira profundamente e dando de ombros, entra no hotel. Seu pai encolhido na recepção tem na face a expressão de aborrecimento, olha para o relógio na parede.
- Pensei que havia esquecido de trabalhar. Só pensa em homem, nesse tal de Agamenon.
- Deixe disso, pai! Fui na casa de Tio Joaquim.
- Fazer o que?
- Já comeu alguma coisa?
- Mandei comprar um sanduíche, mas tarde como de verdade. Sabe por anda seu amigo?
- Agamenon?
- Quem poderia ser?
- Foi visitar Andrade.
- Um policial esteve aqui.
- Já sei. Aquele que você acha insuportável.
- Ele mesmo! Você fica no balcão?
- Deixe-me tomar um banho e volto. Pode ser?
- Vá, mas não demore, tenho um compromisso logo mais.
A moça entra em casa, e vai direto para o chuveiro, Tira a roupa, entra embaixo da água, e se deixa molhar com satisfação enquanto pensa no rosto suave e meigo de Agamenon lhe possuindo naquela noite e nas palavras que voltam a sua cabeça.
“Ando na rua sem destino, me sentindo vazio. Vivo esperando uma noticia que me leve até meu filho e sinto que estou deslocado. Você foi a melhor coisa que me aconteceu. Acho que não poderia resistir, o objetivo que me resta é encontrar Luiz, só você para me reconduzir ao bom senso, ter um momento sem aflição”.
Sentindo o corpo ficar todo arrepiado, ela se encolhe com o prazer da lembrança. Assim que sai do chuveiro, troca de roupa rapidamente e volta para a recepção liberando o pai que entra em casa com ar desconfiado. Pega umas fichas de recados para hospedes num pequeno compartimento divido, com os números dos apartamentos ao lado tentando se concentrar no trabalho, mas os sonhos continuam a invadir sua cabeça, se debruça no balcão suspirando. “Agamenon...”
Ela se assusta ao ouvir uma voz grossa com um sotaque estrangeiro ao seu lado.
- Non...! Sou Flinch.
Volta-se num sobressalto, vê um homem gordo muito grande, vestindo uma capa de gabardine muito surrada, segurando uma mala de couro numa das mãos e um sorriso pálido nos lábios. Ele reconhece um velho hospede, pega a chave entregando com um sorriso desconcertado.
Poucos minutos depois, Fausto volta ainda com ar malicioso na face, olha a filha bem de perto faz uma expressão de duvida e pergunta lentamente como quem procura as palavras.
- Minha filha! Você me preocupa! Tem andado muito com o doutor.
- Não tem com que se preocupar! Hoje estive na casa de Tio Joaquim...
- O que você quer com aquele maluco?
- Não é maluco! É advogado e Agamenon vai precisar.
- Ele só sabe inventar coisas malucas. Devia ter estudado outra coisa. Não sei se foi boa idéia fazer dele o advogado do nosso hospede.
Heloisa sorri dando de ombros, Fausto balança a cabeça de um lado para o outro, abre a boca para falar, desiste, dá de ombros e sai com ar de preocupação. Já na porta se volta, sorri para a filha e acena com ar de resignação.
Pouco antes das dez horas, ele chega ao fórum com Heloisa que se adianta ao balcão de informações com ares decididos. Agamenon vê que o porteiro que o atendeu anteriormente não está.
- Bom dia! Quero falar com o Juiz que substitui o Doutor Honorato Chidim.
- Sua identidade!
Heloisa pega a carteira na bolsa e entrega para o porteiro que confere e faz anotações. Assim que termina pega um crachá entregando para ela.
- Sala 603 – Doutor Carmelo Mellin.
- São duas identificações, meu amigo vai comigo.
- A identidade dele.
- Ele esqueceu.
- Então...! Não pode subir.
- Tenho uma provisória! – Fala timidamente o médico apresentado a sua carteira.
O porteiro pega o papel, lê com cuidado e sorri. Anota algumas coisas no formulário que tem sobre o balcão e entrega um crachá para o médico que parece não acreditar. Os dois sobem de elevador até o sexto andar e no fim do corredor muito extenso, encontram a sala do juiz Carmelo.
Assim que entram uma mulher muito bonita de cabelos tingidos de vermelho os recebe e manda que aguardem. Meia hora depois, avisa que podem eles entrar. No gabinete encontram um homem totalmente calvo de gestos nervosos quase encoberto por pilhas de pastas de processos sobre sua mesa. Ele sem levantar os olhos do que está lendo rosna um bom dia. Sentindo-se incomodado, Agamenon fala desanimado olhando em volta.
- O senhor me desculpe, mas estamos interessados em acompanhar um processo do Juiz Honorato...
- Qual ...? – fala arrastando a voz com impaciência - Não vamos perder tempo, como pode notar, aquele velho me deixou muito trabalho.
- Declaração de vida e identificação do doutor Agamenon. – Heloisa se adianta.
O homem olha por cima da pilha de processos para Agamenon e se levanta. Só então percebem que ele e muito pequeno e magro.
- Agamenon Lanufo?
- Isso mesmo!
- O que diz que tem cem anos e é pai do memorável, Doutor Hermes Lanufo?
- Exatamente. Eu sou Agamenon Lanufo, pai de Hermes.
O homem sai de seu lugar e vem caminhando em direção ao doutor com ar de incredulidade. Coloca diante dos olhos uns óculos que tem pendurado no pescoço e solta uma gargalhada que aos poucos vai se esvaindo e torna-se uma tosse.
- Desculpe, mas a coisa toda é inacreditável. Estou com o processo na minha mão, estava lendo agora mesmo. Achei curioso, mas olhando o senhor, fico ainda mais intrigado.
- Com o que?
- Estava pronto para indeferir, daria meu parecer de impossibilidade, não marcaria nem audiência, mas olhando o seu rosto, fico curioso. O professor Hermes era muito parecido com o senhor, parecem até irmãos.
- Sou o pai!
- Sei não...!
- O que será necessário para provar que sou quem estou dizendo ser? – Pergunta Agamenon já irritado.
- Calma! Nunca houve um caso assim. Nem sei por onde começar.
- Vamos localizar meu outro filho, ele vai me reconhecer.
- Não é assim que deve funcionar. Alias, nem sei como deve funcionar um caso deste. Vou pensar no assunto e dentro de uma semana, já posso lhe dizer o que vai acontecer. Foi bom ter me procurado, estivesse ainda com Honorato, ele despacharia sem nem dar uma olhada. Acho bom contratar um advogado para continuar com o acompanhamento do processo, vai precisar.
Despedindo-se como quem tem pressa em se livrar dos dois, o Juiz Carmelo fecha a porta deixando Agamenon e Heloisa diante da Secretária de cabelos vermelhos que indica a porta de saída. Os dois caminharam pelo longo corredor em silencio, desceram pelo elevador, cada um imaginado por sua conta o resultado daquela entrevista.
Já na rua, Heloisa segurou o braço de Agamenon e disse pensativa.
- Acho que sei de um advogado para esse caso.
- Quem?
- Um amigo! Ele é velho, mas muito bom, só precisamos convencê-lo.
- Ele tem alguma coisa contra vocês?
- Não! Ele é muito estranho. Vamos na casa dele.
Decidida ela acena para um táxi que passa e puxa Agamenon pelo braço. Meia hora depois saltam diante de um prédio alto de classe media numa rua sossegada e cheia de arvores. O porteiro ao ouvir de Heloisa o nome do advogado, faz cara de nojo pegando o interfone.
No quarto andar, eles saltam procurando o apartamento 401. Eram quatro por andar, Heloisa logo tocou a sirena e uma senhora de mais ou menos uns sessenta anos, um pouco gorda de cabelos curtos e alvos, arrastando os chinelos, atende com um sorriso.
- Entre minha filha. Joaquim vai chegar logo, foi comprar pão para o almoço. Você lembra? Têm mania de comer tudo com pão. O médico proibiu, mas não tem como fazer mudar esse vício. Sentem-se...
- Tia Clara, esse é doutor Agamenon.
- Médico – disse a velha olhando para ele.
- Isso mesmo!
- Tem cara de médico! Vou pra cozinha, tenho muita coisa pra fazer.
Assim que clara saiu, Agamenon olhou em volta, estava num apartamento mobiliado com engenhos pendurados nas paredes e estantes de livros por todos os lados. Um sofá velho e desbotado forrado de verde, duas poltronas vermelhas que não combinavam. Uma janela grande com vista para uma pracinha. Pouco depois a porta se abriu entrando um homem de pouco mais de sessenta anos, cabelos cortados rentes, sobrancelhas grossas, movimentos agitados, altura mediana, um pouco gordo. Assim que viu Heloisa, abriu um grande sorriso e jogando o pacote de pão sobre uma mesa, junto da porta da cozinha, veio ao encontro da moça de braços abertos.
- Querida! Ingrata!
- Nem tanto, tio.
- Tem mais de um ano que não vem aqui em casa.
- Tem quase um ano que não vai lá em casa.
- Linda como sempre! – ele acaricia os cabelos de Heloisa e se volta com ar intrigado para Agamenon, ela se apressa em apresentá-los.
- Tio, Esse é um... amigo. Agamenon.
- Médico?
- Devo ter um letreiro pendurado no peito.
- Não, apenas tem cara de médico.
- Tia Clara disse a mesma coisa. – Atalhou Heloisa – Preciso de seus préstimos.
- Muito bem menina! O que vai ser agora?
- Acho melhor Agamenon contar tudo desde o inicio.
Um pouco constrangido, esperando que o Advogado não fosse acreditar na sua aventura, ele começa timidamente e quando termina, observa que o olhar do velho a sua frente parece perdido em alguma coisa muito distante. Depois de algum tempo silencioso, Tio Joaquim se volta novamente para o médico.
- Já sei o que fazer! Se esperar um instante, preparo uma procuração, assina e começo ainda hoje alguns contatos e antes de Carmelo se fazer de besta e promover uma nova confusão para se promover, eu consigo provar o que precisa. Quero dizer, que acredito na sua história, e é por isso que vou fazer aceitar seu caso.
Novamente os dois retomam o caminho de volta para o hotel com Heloisa, Agamenon confessa mais relaxado e sorridente, que começa a acreditar numa chance de retomar a vida. Abraça a moça e a convida para irem ao cinema depois do jantar. Ela reclama que está com fome, entram num centro comercial muito agitado, sentam numa lanchonete e fazem uma refeição rápida.
Agamenon parecia ter renascido depois de conversar com Joaquim, ele lhe oferecera um pouco de esperança em uma vida regular, muito embora soubesse que não seria fácil. Estava diante de um problema crucial, a sua profissão. O que fazer para ganhar a vida, não era comerciante, não possuía nenhum outro conhecimento além de ser médico e cuidar da saúde das pessoas, e tudo ligado a isso, precisaria de comprovação de estudos específicos, de diplomas. O dele estava perdido, ele estava num futuro que não lhe pertencia.
Antes de entrarem no hotel, são detidos por um homem alto, magro com um colete preto um boné na cabeça e uma bolsa pequena pendurada no ombro.
- Agamenon?
- Sou...!
- Andrade quer vê-lo no hospital. Está no pronto socorro.
- Mas lá não se pode...- Heloisa começa a falar contrariada e é interrompida.
- Eu levo! Comigo entra! – disse de maneira seca o homem.
- Pode ser agora? – pergunta o médico desconfiado.
- Pode. Tenho meu carro logo ali.
- Vou com você! Diz Heloisa de maneira segura.
- Não vai precisar, a senhora não pode entrar, só o doutor. Não vai demorar nem uma hora. – O homem nem espera por uma reação da moça, segura o médico pelo braço e entra no carro que está parado junto da calçada.
Heloisa fica olhando o carro partir. Quando o perde de vista, respira profundamente e dando de ombros, entra no hotel. Seu pai encolhido na recepção tem na face a expressão de aborrecimento, olha para o relógio na parede.
- Pensei que havia esquecido de trabalhar. Só pensa em homem, nesse tal de Agamenon.
- Deixe disso, pai! Fui na casa de Tio Joaquim.
- Fazer o que?
- Já comeu alguma coisa?
- Mandei comprar um sanduíche, mas tarde como de verdade. Sabe por anda seu amigo?
- Agamenon?
- Quem poderia ser?
- Foi visitar Andrade.
- Um policial esteve aqui.
- Já sei. Aquele que você acha insuportável.
- Ele mesmo! Você fica no balcão?
- Deixe-me tomar um banho e volto. Pode ser?
- Vá, mas não demore, tenho um compromisso logo mais.
A moça entra em casa, e vai direto para o chuveiro, Tira a roupa, entra embaixo da água, e se deixa molhar com satisfação enquanto pensa no rosto suave e meigo de Agamenon lhe possuindo naquela noite e nas palavras que voltam a sua cabeça.
“Ando na rua sem destino, me sentindo vazio. Vivo esperando uma noticia que me leve até meu filho e sinto que estou deslocado. Você foi a melhor coisa que me aconteceu. Acho que não poderia resistir, o objetivo que me resta é encontrar Luiz, só você para me reconduzir ao bom senso, ter um momento sem aflição”.
Sentindo o corpo ficar todo arrepiado, ela se encolhe com o prazer da lembrança. Assim que sai do chuveiro, troca de roupa rapidamente e volta para a recepção liberando o pai que entra em casa com ar desconfiado. Pega umas fichas de recados para hospedes num pequeno compartimento divido, com os números dos apartamentos ao lado tentando se concentrar no trabalho, mas os sonhos continuam a invadir sua cabeça, se debruça no balcão suspirando. “Agamenon...”
Ela se assusta ao ouvir uma voz grossa com um sotaque estrangeiro ao seu lado.
- Non...! Sou Flinch.
Volta-se num sobressalto, vê um homem gordo muito grande, vestindo uma capa de gabardine muito surrada, segurando uma mala de couro numa das mãos e um sorriso pálido nos lábios. Ele reconhece um velho hospede, pega a chave entregando com um sorriso desconcertado.
Poucos minutos depois, Fausto volta ainda com ar malicioso na face, olha a filha bem de perto faz uma expressão de duvida e pergunta lentamente como quem procura as palavras.
- Minha filha! Você me preocupa! Tem andado muito com o doutor.
- Não tem com que se preocupar! Hoje estive na casa de Tio Joaquim...
- O que você quer com aquele maluco?
- Não é maluco! É advogado e Agamenon vai precisar.
- Ele só sabe inventar coisas malucas. Devia ter estudado outra coisa. Não sei se foi boa idéia fazer dele o advogado do nosso hospede.
Heloisa sorri dando de ombros, Fausto balança a cabeça de um lado para o outro, abre a boca para falar, desiste, dá de ombros e sai com ar de preocupação. Já na porta se volta, sorri para a filha e acena com ar de resignação.
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