quinta-feira, 17 de julho de 2008

Capítulo 17

Capítulo 17

Sentado numa pequena banqueta, ao lado da mesa da cozinha espaçosa da casa da moça, Agamenon não sentia vontade de falar. Ela notando seu estado depressivo não o incomodou. Depois de ferver a água e despejar nas xícaras, ofereceu uma para o médico que começou a beber com o olhar perdido na toalha muito alva.
- Estou me sentido só! – Ele lamentou.
- Eu compreendo!
- Ando na rua sem destino, me sentindo vazio. Vivo esperando uma noticia que me leve até meu filho e sinto que estou deslocado. Você foi a melhor coisa que me aconteceu. Acho que não poderia resistir, o objetivo que me resta é encontrar Luiz. – Ele sorriu acanhado para Heloisa. - Só você é capaz de me reconduzir ao bom senso, ter um momento sem aflição.
A moça deu um sorriso com expressão de quem está encabulada. Ele continuou falando.
- Tenho pensado em morrer! – vendo o olhar assustado de Heloisa, ele completou imediatamente – Mas, não combina comigo.
- Você precisa respirar. Está se engasgando nas dificuldades como um garoto! Acorde, você é um cientista, um médico, não tem tanto tempo..., real, apenas dias que se afastou de tudo.
- Falar fica fácil! O tempo perdeu o significado. Ao mesmo tempo em que sinto que não faz muito, tudo aconteceu cinqüenta anos antes, parece que estou vivendo aqui a uma eternidade.
Os dois se entreolharam com carinho, ele acariciou os cabelos sedosos de Heloisa e a puxou para si. Ela se aninhou em seu peito por alguns segundos, levantou-se excitada e o puxou para seu quarto que estava na penumbra, os dois se abraçaram.
- Não sinto falta de Dora! Não que a tenha esquecido, mas quando penso nela, parece uma eternidade, a vejo distante, longe, como um passado que já não alcanço nas lembranças. Vejamos o nosso caso, de uma hora para outra, estou a seu lado, intimo, como nunca estive com outra mulher, não sinto facilidade em explicar... – A moça coloca a mão diante dos lábios de Agamenon tentado calar sua voz.
- Não precisa. Viva intensamente!
Os dois se beijam suavemente, ela se afasta dançando uma canção ilusória. Vai se despindo aos poucos com um sorriso malicioso nós lábios, diante do olhar maravilhado do médico.
- Corpo perfeito. Uma espécie de fêmea muito rara. – Ele sussurra ao ouvido da moça.
Os dois gargalham, ela termina de retirar a roupa atirando as peças para os lados enquanto ele se deixa cair na cama para ser despido com muita malicia. Experiência que só lhe foi possível viver ao lado de Heloisa, mais de cinqüenta anos depois de ter nascido e cem anos de relógios contando o tempo real para renascer.
Logo cedo, Heloisa acorda, levanta-se com cuidado, veste um roupão sobre o corpo despido, tudo com muito cuidado para não incomodar Agamenon que parece desmaiado depois de uma noite de amor. Quando adormecera, inquieto, revelara sonhos que o faziam chorar, falar e se virar de um lado para o outro. Depois de escovar os dentes e fazer xixi, correu até a sala pegando a lista telefônica e volta apressada, senta no vaso sanitário do seu banheiro.
Algum tempo depois, Agamenon ainda adormecido, joga o braço para o lado da cama onde encontraria Heloisa. Sentindo sua falta, desperta assustado como se tudo que vivera nos últimos dias fosse um sonho. Esfregando os olhos olha em volta aquele quarto sem muita coisa, atordoado ainda, tenta lembrar onde está, sorri para si mesmo, pensa a principio que está no seu quarto, tudo igual, mas no canto junto da janela, vê um grande cabide com roupas femininas.
Volta a passar os olhos pelo cômodo, nota que a luz do banheiro está acesa com a porta quase totalmente fechada. Pouco depois do ruído da descarga a luz se apaga, a porta se abre e Heloisa sai com os olhos grudados na leitura de um livro grosso que tem nas mãos.
- Oi! Já acordou...? Não foi minha ...
- Não Heloisa, eu acordei, o sono acabou, sem que me incomodasse.
A moça demonstrando muita excitação, foi até a janela puxando acortina para deixar a luz da manhã entrar no quarto, em seguida veio saltitante até a cama, deu um beijo suave nos lábios de Agamenon e mostrou a lista telefônica.
- Acho que parte dos seus problemas pode ser solucionada aqui!
- O que é isso?
- Uma lista telefônica!
- Dessa grossura?
- Encontrei o telefone do Juiz, da casa dele!
- Boa idéia!
- Eu sou assim, cheia de idéias, mas nem sempre funcionam, ainda não encontrei o nome de seu filho.
- Talvez o telefone não esteja no nome dele! Isso é possível?
- Claro! O telefone pode está no nome da mulher dele, de um filho ou de um antigo proprietário. Como é nome da fabrica?
- Mirgore, isso...! Industria de Calçados Mirgore
Ela volta a procurar com mais cuidado passando as folhas com muita lentidão. Depois de algum tempo, fecha a lista com ar de cansaço.
- Não achei! Devem ter trocado o nome ou ela não existe mais.
Pegando um telefone sobre a mesinha ao lado da cama, ela deita e entrega para ele que fica meio embaraçado com os fios.
- Ligue para o juiz! – ela entrega um pedaço de papel higiênico com um numero anotado - O numero e esse.
Ele fica olhando o numero, pega o gancho do telefone e leva ao ouvido e fica calado em silencio esperando alguma coisa. Impaciente Heloisa pergunta se levantando.
- O que foi...?
- Fica fazendo barulho e ninguém fala, a telefonista...
- Não precisa, basta ouvir o sinal continuo e ligar o numero, é automático.
- No meu tempo, eu ficava irritado, demorava muito até a telefonista atender e fazer a ligação.
- - Me dê aqui! Eu ligo!
Ela de maneira gentil retira o telefone das mãos de Agamenon, disca os números. Fica algum tempo em silencio com o olhar perdido no teto, depois diz:
- Bom dia! O juiz Honorato está?
Ela fica ouvindo em silencio um tempo e em seguida pergunta novamente.
- De férias?....Não! .... Entregou pra quem os processos?
Novamente fica um tempo ouvindo e em seguida desliga agradecendo. Se volta para o médico com ar de irritação. Ao ver o seu olhar de curiosidade ela explica a sua conversa.
- Falei com a empregada. O homem se aposentou na quarta feira e viajou hoje cedo. Entregou os processos pendentes para outro Juiz que ela não sabe quem.
- Ainda ontem o porteiro...
- Devia ser um incompetente. Não sabia que o velho havia se aposentado.
Agamenon suspira desanimado. Se revira de um lado para o outro da cama, volta a suspirar, levanta-se ainda despido procurando sua roupa que está jogada no chão. Começa a se vestir quando a moça diz para ele com ar de quem teve uma idéia.
- Vou com você ao fórum e saberemos quem é o Juiz que está com seu processo.
- Preciso me tornar vivo de fato. Talvez isso me facilite no processo que vou responder por pratica ilegal de medicina.
- Acho que Andrade não vai deixar...
- Pode ser! Mas não depende só dele.
- Isso se vê depois! Vá trocar de roupa e volte para o café, eu preparo uma coisa gostosa.
Dando um beijo no rosto da moça, Agamenon sai do apartamento encontrando-se com Fausto na recepção que olha para ele de maneira curiosa, como quem fica sem entender, com malicia. Ele sentindo uma ponta de constrangimento, rosna um bom dia, sobe até o quarto, que ainda está aberto e vai direto para o chuveiro.

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