Capítulo 16
Do outro lado da porta, Heloisa estava impaciente e com expressão de preocupação pelo silencio de Agamenon. Dando de ombros, resolveu não insistir, desceu lentamente as escadas dando uma olha por cima dos ombros a cada degrau, na esperança de ver a porta se abrindo.
Nervosa e angustiada a moça sentou-se na recepção, pegou uma revista velha sobre uma mesinha ao lado de uma poltrona, folheou sem muito interesse. Durante alguns segundo, passou pelas paginas sem na verdade olhar o que estava nelas. Jogou a revista de volta sobre a mesa e subiu novamente as escadas. Ao chegar diante da porta do quarto de Agamenon não se conteve, girou a maçaneta e viu que não estava trancada, a porta se abriu.
Agamenon estava na mesma posição, inerte diante da maleta e olhar perdido. Cautelosamente, ela se aproximou, ficou algum tempo de pé ao seu lado e ele nem a percebia. Ela acariciou os cabelos dele que se assustou e voltou-se para ela com os olhos cheios de lagrimas e a abraçou pela cintura encostando sua cabeça na barriga da moça.
- Preciso de você, preciso de alguém com quem desabafar!
Carinhosamente ela se desvencilhou dos braços dele, e sentou-se na cama e com um gesto maternal o puxou para que deitasse sobre suas pernas. Ele ainda deixando as lágrimas saírem dos olhos e com a voz rouca, contou o que acontecera com ele no fórum e na biblioteca. Ela ouviu com atenção, e assim que ele fez uma pausa ela o acariciou no rosto e falou com a voz mansa.
- Doutor... acho que não se sente bem! Vou providenciar um chá e volto logo.
A moça pegou a cabeça dele com carinho e depositou sobre a cama, em seguida levantou-se e se apressou saindo do quarto deixando a porta aberta. O médico se deixou conduzir sem qualquer reação, ficando deitado encolhido em seus pensamentos. Poucos minutos depois ele ouviu um estampido e um grito que vinha da portaria.
Sem saber o que pensar, com as idéias confusas, sentou-se na cama olhando em volta, em seguida, deu um pulo lembrando que Heloisa acabara de sair. Desceu as escadas aos pulos gritando pela moça. Ao chegar na entrada do Hotel, viu que varias pessoas estavam reunidas em volta de alguém caído dentro de uma poça de sangue.
Pelo habito, ele abriu caminho por entre a roda de pessoas se aproximando. Olhou o corpo deitado no chão, era Andrade que parecia ter sido atingido por uma bala na altura do peito esquerdo. Se abaixando, pegou na veia do pescoço do policial e observou que pulsava.
- Está vivo! – disse com ar de alivio. Olhou para os lados e viu Heloisa pálida e com expressão de medo. Fausto parecia ter esverdeado e tremia por traz do balcão sem coragem de fazer qualquer movimento. Um homem alto e muito gordo se aproximou dele e perguntou com uma inflexão de censura na voz.
- Vamos ficar olhando? Não vamos fazer alguma coisa?
- Vamos sim! – Disse Agamenon de maneira decidida – Me ajude a carregá-lo para cima do balcão.
O homem se abaixou e ajudou o médico e logo o policial ferido estava sobre o balcão diante dos olhos petrificados de Fausto. Imediatamente, Agamenon rasgou a roupa de Andrade, e ficou examinando e medindo o ferimento.
- A bala é de calibre pequeno, se não for retirada logo, pode complicar. Vou buscar minha mala.
Sem pensar em mais nada, ele correu até o quarto pegou a maleta sobre a cama e desceu rapidamente quase sem fôlego. Deu uma respirada profunda enquanto abria a mala pegando o bisturi.
- Preciso de água fervida e se for possível uma toalha, uma vela e algodão.
Heloisa não perdeu tempo e correu para dentro de casa enquanto o médico foi até o banheiro lavar as mãos. Em poucos minutos ela retornava com o que Agamenon havia pedido. Ele que acabara de aplicar um anestésico no ferido, acendeu a vela, e na chama, passou rapidamente a ponta do bisturi em seguida o mergulhou na água ainda fervente. Fez um corte na ferida e como Andrade estremeceu, com gesto ele indicou para o homem gordo segurar os braços.
- O anestésico ainda não fez todo o trabalho. Segura firme!
- Não... Sei... o senhor é médico? – Perguntou desconfiado o homem que diante do olhar de repreensão de todos a sua volta, fez o que Agamenon pedia.
Poucos minutos depois, o médico segurava um pequeno projétil entre os dedos de encontro à luz.
- Pronto! Já chamaram uma ambulância?
Fausto pegou o telefone, Andrade parecia adormecido e vez por outra se estremecia. Todos que estavam observando a cirurgia, deram palmadinhas nas costas do médico sorrindo aliviados. O médico olhou em volta perguntando curioso para Heloisa que se aproximara segurando seu braço.
- O que aconteceu?
- Uma tentativa de assalto! Um homem, com uma meia na cabeça, entrou com a arma em punho, muito nervoso e assustado dizendo que era um assalto e que ninguém se intrometesse. Andrade estava junto do balcão conversando com meu pai, tentou retirar alguma coisa de dentro da bolsa que traz sempre pendurada no ombro, assustado o ladrão atirou e vendo a arma de Andrade saiu correndo para a rua. Eu havia acabado de descer as escadas, assisti tudo de perto, se o ladrão errasse, o tiro teria me atingido, estava logo as costas dele- Ela apontou com a cabeça para o ferido.
- Andrade escapou por pouco, a bala passou primeiro pelo medalhão que usa no peito e perdeu a força, se alojou muito perto do ventrículo direito. – Dando uma tapinha na cabeça, Agamenon soltou um longo suspiro e se deixou cair numa poltrona.
- O que foi...? – Perguntou com preocupação Heloisa.
- Agora estarei encrencado!
- Por salvar a vida dele?
- Por pratica de medicina ilegal. Esqueceu...? Não tenho mais permissão de praticar minha profissão. Posso até ser preso.
- Não é possível...! – Exclamou Heloisa com ar de duvida.
Agamenon não disse mais nada ficando em silencio com o olhar fixo no ferido sobre o balcão. A moca sentou-se ao lado tentando reconforta-lo.
- Salvou a vida dele!
- Não é assim que funciona. Vão dizer que poderia matá-lo e outras coisas mais, só vai depender do que os policiais estiverem com vontade de colocar na ocorrência.
Não demorou muito, entraram cinco policiais no Hotel, um deles começou por fazer perguntas para Fausto que contou o ocorrido. Nesse momento, chegava uma ambulância com as sirenas ligadas. Dois homens vestidos de branco segurando uma maca entraram correndo e um terceiro que parecia médico se aproximou para examinar a vitima.
- Trabalho perfeito. Salvaram a vida dele! – disse olhando em volta – Quem foi que fez isso?
Agamenon se levantou com preguiça, todos os olhares estavam sobre ele.
- Eu...!
- O senhor é médico?
- Sou...! – Exclamou Agamenon com voz quase sumida e sem segurança.
- Posso ver seus documentos, doutor?
Agamenon puxou a carteira do bolso e retirou a sua identificação do conselho de Medicina entregando com um pouco de relutância. O outro médico, examinou e ficou com um sorriso lacônico nos lábios.
- Identificação antiga. Não lembro de... deixe pra lá. vou anotar o seu nome doutor, para meu relatório.
O corpo inerte de Andrade estava sendo conduzido para o lado de fora enquanto os outros policiais colhiam os depoimentos. O médico entregou a identificação de volta para Agamenon e saiu quase correndo para a rua. Um dos policiais se aproximou colocando a mão sobre o ombro de Agamenon.
- Muito obrigado pelo socorro ao nosso colega! O senhor poderia responder algumas perguntas?
- Claro!
- Me conte os detalhes que conhece, onde estava a bala, os riscos que Andrade corria...
O médico respondeu todas as perguntas e o policial se mostrando satisfeito, deu por encerrado o interrogatório. Sem dizer mais nada se afastou com um sorriso e foi para junto do colega que conversava com Fausto. Agamenon foi arrasto pelo braço por Heloisa para dentro de sua própria casa.
- Venha beber aquele chá aqui na minha casa, depois conversamos.
Do outro lado da porta, Heloisa estava impaciente e com expressão de preocupação pelo silencio de Agamenon. Dando de ombros, resolveu não insistir, desceu lentamente as escadas dando uma olha por cima dos ombros a cada degrau, na esperança de ver a porta se abrindo.
Nervosa e angustiada a moça sentou-se na recepção, pegou uma revista velha sobre uma mesinha ao lado de uma poltrona, folheou sem muito interesse. Durante alguns segundo, passou pelas paginas sem na verdade olhar o que estava nelas. Jogou a revista de volta sobre a mesa e subiu novamente as escadas. Ao chegar diante da porta do quarto de Agamenon não se conteve, girou a maçaneta e viu que não estava trancada, a porta se abriu.
Agamenon estava na mesma posição, inerte diante da maleta e olhar perdido. Cautelosamente, ela se aproximou, ficou algum tempo de pé ao seu lado e ele nem a percebia. Ela acariciou os cabelos dele que se assustou e voltou-se para ela com os olhos cheios de lagrimas e a abraçou pela cintura encostando sua cabeça na barriga da moça.
- Preciso de você, preciso de alguém com quem desabafar!
Carinhosamente ela se desvencilhou dos braços dele, e sentou-se na cama e com um gesto maternal o puxou para que deitasse sobre suas pernas. Ele ainda deixando as lágrimas saírem dos olhos e com a voz rouca, contou o que acontecera com ele no fórum e na biblioteca. Ela ouviu com atenção, e assim que ele fez uma pausa ela o acariciou no rosto e falou com a voz mansa.
- Doutor... acho que não se sente bem! Vou providenciar um chá e volto logo.
A moça pegou a cabeça dele com carinho e depositou sobre a cama, em seguida levantou-se e se apressou saindo do quarto deixando a porta aberta. O médico se deixou conduzir sem qualquer reação, ficando deitado encolhido em seus pensamentos. Poucos minutos depois ele ouviu um estampido e um grito que vinha da portaria.
Sem saber o que pensar, com as idéias confusas, sentou-se na cama olhando em volta, em seguida, deu um pulo lembrando que Heloisa acabara de sair. Desceu as escadas aos pulos gritando pela moça. Ao chegar na entrada do Hotel, viu que varias pessoas estavam reunidas em volta de alguém caído dentro de uma poça de sangue.
Pelo habito, ele abriu caminho por entre a roda de pessoas se aproximando. Olhou o corpo deitado no chão, era Andrade que parecia ter sido atingido por uma bala na altura do peito esquerdo. Se abaixando, pegou na veia do pescoço do policial e observou que pulsava.
- Está vivo! – disse com ar de alivio. Olhou para os lados e viu Heloisa pálida e com expressão de medo. Fausto parecia ter esverdeado e tremia por traz do balcão sem coragem de fazer qualquer movimento. Um homem alto e muito gordo se aproximou dele e perguntou com uma inflexão de censura na voz.
- Vamos ficar olhando? Não vamos fazer alguma coisa?
- Vamos sim! – Disse Agamenon de maneira decidida – Me ajude a carregá-lo para cima do balcão.
O homem se abaixou e ajudou o médico e logo o policial ferido estava sobre o balcão diante dos olhos petrificados de Fausto. Imediatamente, Agamenon rasgou a roupa de Andrade, e ficou examinando e medindo o ferimento.
- A bala é de calibre pequeno, se não for retirada logo, pode complicar. Vou buscar minha mala.
Sem pensar em mais nada, ele correu até o quarto pegou a maleta sobre a cama e desceu rapidamente quase sem fôlego. Deu uma respirada profunda enquanto abria a mala pegando o bisturi.
- Preciso de água fervida e se for possível uma toalha, uma vela e algodão.
Heloisa não perdeu tempo e correu para dentro de casa enquanto o médico foi até o banheiro lavar as mãos. Em poucos minutos ela retornava com o que Agamenon havia pedido. Ele que acabara de aplicar um anestésico no ferido, acendeu a vela, e na chama, passou rapidamente a ponta do bisturi em seguida o mergulhou na água ainda fervente. Fez um corte na ferida e como Andrade estremeceu, com gesto ele indicou para o homem gordo segurar os braços.
- O anestésico ainda não fez todo o trabalho. Segura firme!
- Não... Sei... o senhor é médico? – Perguntou desconfiado o homem que diante do olhar de repreensão de todos a sua volta, fez o que Agamenon pedia.
Poucos minutos depois, o médico segurava um pequeno projétil entre os dedos de encontro à luz.
- Pronto! Já chamaram uma ambulância?
Fausto pegou o telefone, Andrade parecia adormecido e vez por outra se estremecia. Todos que estavam observando a cirurgia, deram palmadinhas nas costas do médico sorrindo aliviados. O médico olhou em volta perguntando curioso para Heloisa que se aproximara segurando seu braço.
- O que aconteceu?
- Uma tentativa de assalto! Um homem, com uma meia na cabeça, entrou com a arma em punho, muito nervoso e assustado dizendo que era um assalto e que ninguém se intrometesse. Andrade estava junto do balcão conversando com meu pai, tentou retirar alguma coisa de dentro da bolsa que traz sempre pendurada no ombro, assustado o ladrão atirou e vendo a arma de Andrade saiu correndo para a rua. Eu havia acabado de descer as escadas, assisti tudo de perto, se o ladrão errasse, o tiro teria me atingido, estava logo as costas dele- Ela apontou com a cabeça para o ferido.
- Andrade escapou por pouco, a bala passou primeiro pelo medalhão que usa no peito e perdeu a força, se alojou muito perto do ventrículo direito. – Dando uma tapinha na cabeça, Agamenon soltou um longo suspiro e se deixou cair numa poltrona.
- O que foi...? – Perguntou com preocupação Heloisa.
- Agora estarei encrencado!
- Por salvar a vida dele?
- Por pratica de medicina ilegal. Esqueceu...? Não tenho mais permissão de praticar minha profissão. Posso até ser preso.
- Não é possível...! – Exclamou Heloisa com ar de duvida.
Agamenon não disse mais nada ficando em silencio com o olhar fixo no ferido sobre o balcão. A moca sentou-se ao lado tentando reconforta-lo.
- Salvou a vida dele!
- Não é assim que funciona. Vão dizer que poderia matá-lo e outras coisas mais, só vai depender do que os policiais estiverem com vontade de colocar na ocorrência.
Não demorou muito, entraram cinco policiais no Hotel, um deles começou por fazer perguntas para Fausto que contou o ocorrido. Nesse momento, chegava uma ambulância com as sirenas ligadas. Dois homens vestidos de branco segurando uma maca entraram correndo e um terceiro que parecia médico se aproximou para examinar a vitima.
- Trabalho perfeito. Salvaram a vida dele! – disse olhando em volta – Quem foi que fez isso?
Agamenon se levantou com preguiça, todos os olhares estavam sobre ele.
- Eu...!
- O senhor é médico?
- Sou...! – Exclamou Agamenon com voz quase sumida e sem segurança.
- Posso ver seus documentos, doutor?
Agamenon puxou a carteira do bolso e retirou a sua identificação do conselho de Medicina entregando com um pouco de relutância. O outro médico, examinou e ficou com um sorriso lacônico nos lábios.
- Identificação antiga. Não lembro de... deixe pra lá. vou anotar o seu nome doutor, para meu relatório.
O corpo inerte de Andrade estava sendo conduzido para o lado de fora enquanto os outros policiais colhiam os depoimentos. O médico entregou a identificação de volta para Agamenon e saiu quase correndo para a rua. Um dos policiais se aproximou colocando a mão sobre o ombro de Agamenon.
- Muito obrigado pelo socorro ao nosso colega! O senhor poderia responder algumas perguntas?
- Claro!
- Me conte os detalhes que conhece, onde estava a bala, os riscos que Andrade corria...
O médico respondeu todas as perguntas e o policial se mostrando satisfeito, deu por encerrado o interrogatório. Sem dizer mais nada se afastou com um sorriso e foi para junto do colega que conversava com Fausto. Agamenon foi arrasto pelo braço por Heloisa para dentro de sua própria casa.
- Venha beber aquele chá aqui na minha casa, depois conversamos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário