terça-feira, 15 de julho de 2008

Capítulo 15

Capítulo 15

Durante vários dias, Agamenon permaneceu apenas aproveitando o sabor da vida. Não se preocupou com mais nada. No meio da semana, o detetive Andrade apareceu no hotel perguntando discretamente para Heloisa que estava na portaria.
- O doutor está no hotel?
- O que você quer com ele? – retornou com expressão de cautela, Heloisa que não simpatizava nem um pouco com o policial depois da prisão de Agamenon.
- Tenho novidades...
- De que tipo?
- Isso, só interessa a ele.
- Saiu cedo, deve voltar depois do almoço.
- Eu espero, vou até o bar na esquina e mais tarde eu volto. Avise a ele onde estou se chegar aqui, antes de mim.
Sem dizer nada, Heloisa faz um gesto afirmativo com a cabeça e finge procurar um papel entre outros na parte baixa do balcão. Pelo canto do olho, ela acompanha o policial saindo do hotel.
A ansiedade tomou conta da moça que ficou impaciente olhando a cada minuto para o relógio grande na parede da portaria, ainda eram dez e quarenta e ela sabia que Agamenon não chegaria antes das duas da tarde. Pouco depois de uma hora, Agamenon chegou inesperadamente e ela sentiu um grande alivio. Ele disse que regressara mais cedo, o tempo estava mudando e não queria ficar na rua debaixo de chuva.
Nervosa, Heloisa, conta pra ele que o detetive Andrade o havia procurado e estava no bar da esquina. Com um sorriso procurando tranqüilizar a moça, Agamenon vai encontrar o policial que ao vê-lo, abre um sorriso e levanta da mesa onde está bebendo uma cerveja.
- Bons olhos o vejam doutor! Sente aqui, vamos beber uma cerveja. - Se voltando para o rapaz junto do balcão ele pede mais um copo.- Vamos depressa, traga também outra cerveja.
- O que é que você tem pra mim?
- Duas noticias, uma boa e outra ruim! Localizamos seu filho Luiz, está morando numa cidade do interior chamada Lago Verde. Fica há uns cento e vinte quilometro daqui, uma hora de viagem mais ou menos se for de carro, de ônibus é um pouco mais.- Remexendo o bolso da calça, o detetive tira um papel e entrega para Agamenon.
Agamenon lê com atenção o endereço do filho e guarda no bolso o papel. Se voltando para o detetive, fica algum tempo em silencio enquanto ele lhe serve a bebida.
- Muito obrigado por tudo!
- Agradeça ao delegado, ele ficou impressionado com sua história.
- Agora, a segunda noticia!
- O juiz, ainda não marcou a data pra sua audiência. Esse Juiz Honorato Chidim é um velho muito...
- Você falou Chidim? – Agamenon interrompeu o policial – O filho de Aurora Chidim?
- Não sei o nome da mãe dele, mas o nome é esse mesmo. Ele é muito velho, quase tanto quanto o senhor – O policial, solta uma gargalhada quase chorando, ao se conter, enxuga os olhos e se volta novamente para o médico – Me desculpe! Não tive intenção de magoar, foi só uma coisa engraçada que veio na cabeça.
- Não precisa se desculpar. – Com a expressa de mau humor, Agamenon se levanta - Sabe onde encontro o Juiz?
- Andrade, ainda sorridente - No fórum, hoje tem audiência, mais tarde. – volta a soltar outra gargalhada.
- Muito obrigado por tudo, Andrade!
O policial bebe um pouco de cerveja, se engasga e tossindo, acena para o médico que sai do bar. Já na rua, Agamenon olha para um ponto fixo a sua frente sem realmente se preocupar com o que vê, apenas pensa.
“Talvez seja melhor, procurar ainda hoje, esse Chidim”.
O médico vai diretamente até o Fórum que para sua sorte, depois de cinqüenta anos ainda funcionava no mesmo local, só que em um prédio muito mais moderno ao lado do antigo. Na portaria ele espera o homem do balcão terminar de atender a um outro homem ouvindo o que eles dizem.
- Sua identidade por favor! – Pede de maneira fria, o porteiro ao homem que está sendo atendido.
O homem atendido, jovem com uns trinta anos no Maximo, pega no bolso uma carteira e apresenta um documento, o porteiro olha os dois lados, confere a fotografia e preenche um formulário, depois pega um crachá entregando.
- Quinto andar, sala 509...
Voltando-se para Agamenon, o porteiro o chama com um aceno para que se aproxime.
- Em que posso ajudá-lo?
- Quero falar com o Juiz Honorato Chidim!
- O Senhor é advogado?
- Não...! Sou amigo... da família!
- Sua carteira de identidade.
Com um pressentimento ruim e muita angustia, Agamenon pega o papel que havia recebido da policia, entregando para o porteiro que lê rapidamente e devolve.
- O senhor não tem a carteira?
- Perdi!
- Desculpe-me, mas com essa identificação que tem em mãos, não consegue nem pegar um livro na biblioteca. Só serve para identificação policial. Esse é um documento provisório e não tenho autorização para permitir acesso.
Agamenon fica algum tempo em silencio, olhando o papel que tem nas mãos. Tenta voltar a falar com o porteiro, desiste com ar de resignação. Coloca o papel no bolso e sai do fórum de cabeça baixa. Caminha sem pressa pelas ruas, com o pensamento em completa confusão. Passa diante do prédio da biblioteca e sorri com amargura pensando em voz alta.
“Nem um livro posso pegar...”.
Repentinamente lhe ocorre a lembrança do psiquiatra novamente, a teoria das dimensões. Sem ter o que fazer, tenta lembrar o nome do médico.
“Ele publicou o trabalho, talvez encontre, se não me engano o nome dele é... Frederico... Alvim,... isso mesmo... Frederico Alvim!”.
Sentindo uma euforia que logo considera exagerada, se encaminha para biblioteca, um prédio com mais de cem anos, uma grande porta de madeira, muitas janelas e duas colunas na entrada. No salão imenso que produz eco quando se fala, ele vê um balcão com uma tabuleta escrito informações onde tem duas moças jovens e bonitas, vestindo roupas idênticas, com uma gravatinha borboleta. Sem pressa, pergunta a uma das moças que atende.
- Boa tarde! Onde posso encontrar uma obra do Doutor Frederico Alvim?
Sem dizer nada e nem ao menos olhar para quem atende, a moça vai até um computador pergunta com uma voz preguiçosa.
- O autor...?
- Frederico Alvim!
- Sabe o nome do livro?
- Não lembro!
A moça digita por algum tempo num teclado que para Agamenon é uma maquina de escrever estranha. Alguns segundos depois ela se volta para ele com de quem está com pressa em se livrar do trabalho.
- Primeiro andar, setor B, Estante numero trinta e cinco!
Ela fica olhando para ele que parece procurar alguma coisa com os olhos a sua volta – a moça sorri apontando para uma escada a sua frente.
- Senhor...! Por ali vai chegar ao primeiro andar mais rápido.
Sorrindo e agradecendo, Agamenon se afasta rapidamente para onde ela indicou, sobe o lance de escada com o coração batendo muito forte. No primeiro andar, ele se depara com um grande salão repleto de estantes, no final varias mesas pequenas onde as pessoas sentam para fazer suas consultas e um pequeno balcão junto da parede ao lado da escada onde uma mulher muito magra, de óculos com lentes grossas, escreve alguma coisa num computador.
Olhando em voltas vê tem placas penduradas no tento com a letra do setor. Vai até o setor B, procura nas estantes a numeração que fica em uma placa saindo da estante na lateral.
“Ela falou estante trinta e cinco”
Depois de caminhar acompanhando os números, encontra a que procura e depois de algum tempo. Nota que os livros estão agrupados por ordem alfabética do sobrenome e para sua alegria, vê o nome do autor que está procurando, ele tem cinco livros diferentes, Teoria dos Sintomas da Gravidez, Estudos da Anormalidade Hospitalar, Pesquisas de Casos Selecionados, Conflitos Sem Explicações Lógicas e por fim, Grandes Anomalias.
Com ar de indeciso e tenso, Agamenon olha novamente os títulos, resolve pegar o que lhe parece mais próximo do material de sua busca. Retira o volume intitulado, Pesquisas de Casos Selecionados, logo no inicio ele lê que o livro trata apenas das medicações, devolve-o para a estante, pega Conflitos Sem Explicações Lógicas e mais uma vez devolve o livro para a estante com irritação. Começando a ficar angustiado e suando muito, pega Grandes Anomalias, finalmente sorri satisfeito, era exatamente o que procurava.
Levando o livro nas mãos como se fosse um troféu, senta-se numa das mesas no fim do salão onde outras pessoas fazem consultas. Começa a ler o trabalho de Alvim, ele descreve com minúcias os pacientes fisicamente e os locais onde se encontravam e no oitavo caso, ele cita um motorista de caminhão que desapareceu diante dos olhos do motorista que vinha logo depois. Esse motorista conta, que o seu amigo e colega desapareceu atingido por um clarão, logo depois de uma trovoada.
A policia investigou e não conseguia provar nada, como o motorista insistia no assunto, foi internado num manicômio, ficou dois anos repetindo a mesma história até que foi transferido para a ala onde Alvim trabalhava. O médico ficou impressionado com a riqueza de detalhes, nenhum outro caso fora tão bem descrito, até então e isso o levou a ficar encorajado a fazer outras pesquisas e publicar.
A semelhança do caso descrito com o que acontecera para Agamenon na estrada de volta para casa, o deixou perplexo e curioso. Levando o livro até o balcão onde a mulher ainda escrevia freneticamente no computador, ele perguntou quando ela parou o olhando enquanto arrumava os óculos.
- Como posso levar esse livro?
- Sem não tem ficha... – A mulher fez uma pausa e continuou. - Faça uma ficha! – ela levantou pegando uma folha de papel ao lado, se dirigindo para Agamenon – Tem a carteira de identidade?
- Esqueci... Pode deixar, volto amanhã e pego. Muito obrigado!
A mulher voltou a sentar e Agamenon voltou para devolver o livro de onde apanhara. Assim que colou na prateleira, pensou.
“Nem um livro eu pego... Vou ter de arrumar uma maneira de ler com mais calma, talvez... possa pedir para Heloisa, ela deve ter carteira de identidade!”.
Com um sorriso amargo, ele foi embora sentindo mal estar. A cabeça parecia explodir e seu corpo doía como se houvesse apanhado muito. Na rua, ficou algum tempo parado olhando as pessoas entrarem e saírem da biblioteca, sua mente se recusava a pensar em algo que não fosse o caso do caminhoneiro. Era muita semelhança.
Depois de algum tempo tentando encontrar uma explicação lógica em sua mente, sem conseguir, deixou seu olhar se perder observando as moças e rapazes que passavam. As roupas delas curtas e com quase todo o corpo despido, os moços com calças sujas e descuidadas, cabelos longos ou cortados de maneira muito estranha. Dando um suspiro pensou:
“O que estou fazendo aqui? Me sinto um peixe fora d’água”.
Um sentimento de apatia tomou conta dele, não havia o que fazer. Sem qualquer sombra de duvida, estava perdido em uma situação que jamais poderia ter lhe ocorrido e não andava para canto algum. Estava empacado nas suas duvidas e medos, sentia que já não valia a penas continuar vivo sem qualquer elo com sua vida. Um desejo suicida lhe veio rapidamente entre suas idéias e logo tomou cuidado de afastar, não era de se entregar, precisava continuar, mesmo não sabendo para onde.
Sentindo a sua insignificância, deu um soco no banco de jardim onde estava sentado e levantou-se com preguiça, saiu caminhando de cabeça em direção ao seu hotel. A noite começava a chegar e um vento frio fez com que o médico sentisse um arrepio por todo o corpo. Ao chegar na portaria do hotel, não sentia vontade de mais nada só deitar e deixar sua cabeça descansar, o corpo inteiro parecia moído. Pegou suas chaves na mão do pai de Heloisa tentando um sorriso subindo as escadas, indo diretamente para seu quarto.
Assim que entrou no quarto, se jogou na cama e ficou olhando teto com a cabeça vazia. Repentinamente a idéia de acabar com o seu sofrimento interior acabando com sua vida, lhe veio a mente novamente. Levantou-se de um só pulo pegou a sua maleta de mão que estava ao lado da cama sobre uma pequena mesa e a jogou na cama. Sentou-se em silencio olhando para ela, lentamente levou a mão para as correias e abriu, enfiou as mãos olhando para dentro, pegou um bisturi que sempre levava, levantou em direção da lâmpada e ficou algum tempo admirando o brilho. Com um gesto brusco, jogou de volta o instrumento na maleta, fechou a tampa com pressa.
Nesse momento, ouviu alguém bater na porta duas vezes. Seu olhar continuava fixo, vidrado na maleta, mais uma vez ouvia alguém batendo e logo em seguida chamando seu nome.

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