Capítulo 14
Na manhã seguinte, Agamenon acorda sentindo-se feliz. Olha para o relógio que marca sete e cinco, vem na sua lembrança o momento em que olhou o relógio da cozinha de sua casa pela ultima vez e relembra como se fosse um filme passando diante dos seus olhos. Olha para o lado e vê Heloisa deitada de bruços com um braço passando por cima da cabeça e outro estendido ao longo do corpo, despida, cabelos espalhados no travesseiro, coberta apenas com o lençol sobre as nádegas e metade de uma das coxas. Suspirando, ele recorda como sua mulher dormia, sempre vestida, e nunca haviam feito sexo oral, ela não permitia.
Ele levanta e vai para o banheiro coçando a barba por fazer. No meio do caminho se volta, dá uma ultima olhada para a cama onde Heloisa ainda dorme, sorri com ar preocupado.
“Tudo está acontecendo muito rápido! Tenho medo de me magoar e magoar essa bela mulher, me sinto muito inseguro”.
Pouco antes das dez e meia, ele entra na loja do antiquário apalpando o bolso. Rapidamente havia feito a venda das jóias e das moedas antigas Sai da loja meia hora depois, com ar de alivio, o dinheiro daria pra ele ficar sem se preocupar por mais algum tempo, mas depois disso, teria de encontrar uma solução pra sua vida. Não poderia clinicar, mas, precisava fazer alguma coisa. Estava diante de sua nova realidade.
Sem saber o que deveria fazer, senta pensativo num banco da praça. Olha a sua volta buscando uma idéia, uma nova profissão. Estava tão concentrado em seus pensamentos que se assusta quando um homem senta ao seu lado falando num telefone celular. Constrangido por ouvir a conversa do outro, desvia o olhar para os pombos que passeia e voam na praça em busca de migalhas de comida.
Lembranças se confundem na sua cabeça, na ultima vez que viera com os filho e a mulher até a capital. Eles haviam sentado naquela mesma praça, os meninos tomando sorvete e Dora apressada puxando seu braço olhando as horas a todo instante. Mesmo que os prédios em volta continuassem os mesmo, a praça não parecia a mesma. Ele lembrava exatamente da cena, até do haviam conversado.
- Por que olha tanto o meu relógio? Tem algum compromisso? – Ele indagou cismado.
- Tenho! Como só vamos voltar amanhã, marquei hora no cabeleleiro.
- Se quiser..., fico com os meninos!
- Acho que será melhor. Nos encontramos no hotel.
Ela lhe deu um beijo rápido e acenou para os meninos que corriam de um lado para o outro espantando os pombos. Ele suspirou com uma certa satisfação. Pouco antes de ficar grávida de Luiz, ela vinha quase toda semana para a capital, as desculpas eram inúmeras, no entanto, a preferida era que ia se encontrar com as amigas. Saia cedo pela manhã e só retornava no ultimo ônibus que chegava quase as onze e meia da noite. Nunca comprava nada, não gostava de falar muito sobre o que vira, quem havia encontrado.
Ele até já havia desconfiado uma vez que a mulher o traia, mas não aceitou nem continuar pensando naquela bobagem, não era um homem ciumento e atrasado como a maioria de seus amigos que proibiam quase tudo a suas mulheres. Precisava ter confiança em sua companheira.
Se arrepiava sem querer admitir, mas agora reconhecia que tentava se enganar e no intimo, ele até que gostaria que ela encontrasse outra pessoa e um dia resolvesse se separar. Seria muito conveniente.
Uma voz familiar lhe chegou aos ouvidos libertando sua mente das lembranças.
- Desculpe se pareço indelicada, mas acho que conheço o senhor!
Agamenon se voltou sem pressa e encontrou diante dele, uma senhora de mais ou menos uns sessenta anos, um pouco gorda, cabelos tingidos de preto segurando uma sacola de papel com o nome de uma loja escrito. O rosto dela lembrava vagamente o de alguém que não lhe era estranho, ficou em silencio observando tentando encontrar na mente. Ela voltou a falar.
- O senhor é parente do médico Agamenon Lanufo?
- Sou, sou eu mesmo, Agamenon Lanufo!
A mulher ficou pálida parecia que ia desmaiar, ele apressadamente se levantou ajudando-a a sentar. Parecia que o ar faltara para ela que se abanou com as mãos e voltou a encarar o médico.
- O senhor ... está brincando comigo?
- Não senhora!
- É impossível, se o doutor estivesse vivo, já teria mais de...
- Cem anos?
- Isso! Isso mesmo.
- Não sei como explicar, mas eu tenho essa idade.
- Não pode ser...
- Quem é a senhora?
- Sou..., Maria Aparecida! Sua... – Ela faz uma pausa com expressão desconfiada - ou melhor, afilhada do doutor!
- Filha de Doutor Cosme?
- Isso mesmo!
- Lembro de você, quando seu pai foi trabalhar no hospital, havia se formado um ano antes e você bem pequena. Ele foi um grande amigo. Como vai ele?
- Morreu há quinze anos!
Ela abaixa os olhos e Agamenon sente-se constrangido por ter feito a pergunta. Por um momento havia esquecido que o tempo não havia passado para ele de maneira natural. Repentinamente a mulher suspirou levantando-se rapidamente. Acena para ele e vai embora com passos rápidos, quase correndo, como se estivesse fugindo de uma assombração.
Agamenon ficou sem entender a agitação da mulher, ele estava vivo e não era nenhum fantasma. Olhou seu relógio com um ar de tristeza na face. Havia combinado se encontrar com Heloisa para um almoço rápido, ela queria mostrar para ele a cidade e o que havia mudado com o passar do tempo. Não era bem o programa que estivesse de acordo com o estado de espírito de Agamenon, mas não seria ruim ficar a tarde toda ao lado dela que parecia encantada com o homem, não com o que ele representava.
Como ainda faltava quase uma hora, resolveu caminhar um pouco pelas ruas olhando o movimento intenso dos carros e das pessoas atravessando nas faixas de pedestres, coisa que na sua época não existia e os carros eram poucos. Os modelos dos veículos pareciam saídos de uma revista de ficção cientifica ou de algum filme futurista. Havia se espantado quando Norma comentara sobre a viajem do homem ao espaço, ter ido até a lua e agora pensavam em conquistar marte, mas essa era uma nova realidade. Parando numa banca de revista ficou contemplando a capa de uma publicação onde estava estampada uma grande foto da terra vista do espaço.
Pouco depois do meio dia, estava chegando no local onde marcara encontro com Heloisa, um cruzamento da rua do hotel com a Avenida principal. Alguns minutos depois ela chegou alegre, vestindo uma calça bem justa e uma blusa de decote cigano, cabelos soltos e óculos escuros escondendo seus olhos grandes.
Agamenon sentia que ele não estava de acordo com a paisagem. Olhando os outros homens passando, se achou vestido demasiadamente sóbrio embora a roupa fosse esportiva. Assim que a moça se aproximou lhe dando um beijo nos lábios em plena rua, ele recuou assustado olhando para os lados, vendo que não era notado nem havia causado nenhum fato digno de censura, se acalmou oferecendo o braço para ela e juntos seguiram caminhando em direção ao restaurante.
Enquanto caminhavam, ele sentia vontade de comentar com ela as suas inseguranças, mas o medo o segurava calado. Ela notou e comentou de maneira casual.
- Você tem andado preocupado demais.
- Me sinto vivendo um mundo que não é meu. Imagine alguém chegando aqui, de um outro planeta, por exemplo.
- Deixe de bobagem. Depois vou sair com você, comprar umas roupas mais modernas e aproveitar as suas combinando de maneira diferente. Aproveitando a ocasião...
A moça para e ali mesmo, desabotoa o colarinho da camisa de Agamenon, fica olhando um tempo para ele, desabotoa os punhos e dobra as mangas da camisa até o cotovelo, continua olhando como quem admira e sorrindo fala quase ao ouvido dele como um sussurro.
- Prontinho...! Se tem um homem bonito aqui, só pode ser você. Ficou lindo. – voltando a andar de braços dados com Agamenon ela prossegue – Está vendo! Bastou uma arrumadela e ficou bem jovial.
Agamenon sentia que ao lado de Heloisa, os seus problemas se dissolviam em sorrisos e ternura. Nunca havia sentido uma atração tão forte por uma mulher em toda a sua vida. Dora fora uma conseqüência da sua juventude sempre voltada para os estudos e pouco tempo para diversão. Ela era sua vizinha e sempre solicitava uma ajuda para seus estudos, aos poucos estavam envolvidos e assim que se formou, casaram. Ela parou de estudar e ele, foi contratado para o hospital no interior. Não houve muita coisa que pudessem contar depois, namoro na porta de casa ou na sala. Sexo só depois que casaram.
Com Heloisa, todo dia parecia uma aventura e ela conseguia de uma maneira muito pessoal, consertar os pensamentos dele. Quando chegaram no restaurante escolheram uma mesa bem ao fundo onde poderiam conversar sem qualquer incomodo. Pediram a comida, o garçom muito atencioso parecia se derramar em gentilezas. Era um restaurante de aparência requintada com muitos espelhos espalhados em quase todas as paredes, ar condicionado e musica.
Enquanto esperavam a comida e bebiam vinho tinto seco, Agamenon não suportando a angustia dentro de si sem compartilhar, olhou profundamente para a sua companheira, segurou suas mãos com um pouco de força.
- Preciso de sua ajuda!
- Basta dizer o que precisa.
- Preciso conversar, falar dos meus sentimentos, da minha insegurança.
- Ouvir você, será como ouvir musica. Gosto dessa sua nobreza, mas não precisa ter medo de falar, diga o que lhe vem a cabeça.
- Ando completamente perdido. O mundo a minha volta parece estranho, como se estivesse habitando um corpo que não me pertence. Hoje uma mulher me descobriu, sou o padrinho dela, só que isso aconteceu quando eu estava com quarenta anos, ou seja, já se passaram mais de sessenta. Ela me olhou como quem vê um fantasma, quase saiu correndo com medo de mim.
- Mas do que natural. Pense com a visão dela, já imaginou a situação?
- Você tem razão, mas também tem a questão que me incomoda mais, como vou me sustentar?
- Você é médico!
- Fui...! Agora já não sou, o tempo passou, a medicina evoluiu rapidamente e não acompanhei. Imagine se o conselho de medicina vai permitir que volte a clinicar.
- Você já perguntou isso pra eles?
- Não...!
- Então vá! Pergunte e veja como pode voltar a ser um médico, cinqüenta anos depois.
- Interessante, o tempo que perdi foi imenso, só que tudo aconteceu e não tem nem uma semana entre o dia em que sai de casa e fui tragado por uma coisa que não sei explicar, jogado cinqüenta anos, mais adiante. Mesmo sem entender, algumas coisas me parecem distantes.
- Como assim? – Heloisa faz cara de duvida.
- Meus filhos, eu não consigo imaginar eles velhos, já minha mulher, meus irmãos e amigos, parece que aceito o fato com muita naturalidade, não os procuro vivos, sei que devem ter morrido, o tempo se passou na minha cabeça pra eles.
- Você gostava de sua mulher? – Pergunta Heloisa com um sorriso malicioso nos lábios.
- Não sei...! Talvez tenha me entusiasmado com ela quando namoramos. Eu era pouco experiente, ela foi praticamente minha primeira namorada. Com o tempo, nos tornamos apenas bons amigos, eu vivia para meu trabalho e ela...
Ele dá de ombros abaixando os olhos como quem lembra de algo vergonhoso. O garçom chega trazendo a comida, Agamenon sorri triste para Heloisa que devolve o sorriso mostrando compreensão.
Quando os dois saem do restaurante, está chovendo muito e Heloisa olha irritada para o céu coberto de nuvens grossas.
- Pronto...! Lá se foi nosso passeio, o tempo não vai mudar tão cedo!
- Não tem problema! Vamos fazer outra coisa?
- Claro que vamos. Sei de uma c ama quentinha e macia e de uma vontade enorme de caricias que vai por dentro de mim. Estou com as calcinhas molhadas só de pensar.
- Você...!
Agamenon não havia se acostumado com o linguajar mais descontraído de Heloisa que de uma certa forma, o deixava encantado e ao mesmo tempo, desconcertado. Sorrindo, ela segura a mão do médico e o puxa para a chuva, em poucos minutos chegam ao hotel completamente molhados como dois meninos, felizes e excitados.
A chuva caiu durante toda a tarde e durante o inicio da noite, continuava embora bem mais fraca. Heloisa se vestiu e olhou para o amante com um sorriso malicioso. Já passavam das seis horas e os dois estavam com fome.
- Você vai jantar lá em casa!
- Não fica bem. Por falar nisso, preciso conversar com seu pai!
- Não tem nada pra conversar com ele. Sou uma mulher, vinte e oito anos, dona do meu nariz. Deixe de se portar como um garoto, somos adultos e nossa relação, não é da conta de mais ninguém.
- Mesmo assim...! – Heloisa o interrompe colocando a mão nos lábios do médico.
- Não tem mais nada pra dizer sobre o assunto. Tome banho e se vista, nos encontramos lá em casa dentro de... uma hora. Vou cozinhar uma macarronada, é minha especialidade.
Os dois se beijam, ela sai do quarto deixando Agamenon despido de pé no meio do quarto. Durante algum tempo ele nem se mexeu sentindo ainda o perfume dela a sua volta.
Assim que se apronta, o médico olha o relógio e sai do quarto em direção ao apartamento da sua namorada. Na portaria, o pai dela, o cumprimenta e mostra a porta que dá acesso até sua casa.
- Vá logo, Heloisa já me perguntou duas vezes se você havia descido. – disse Fausto piscando com ar malicioso.
Agamenon, cautelosamente, pega a maçaneta da porta e gira como quem tem medo do que faz.
Na manhã seguinte, Agamenon acorda sentindo-se feliz. Olha para o relógio que marca sete e cinco, vem na sua lembrança o momento em que olhou o relógio da cozinha de sua casa pela ultima vez e relembra como se fosse um filme passando diante dos seus olhos. Olha para o lado e vê Heloisa deitada de bruços com um braço passando por cima da cabeça e outro estendido ao longo do corpo, despida, cabelos espalhados no travesseiro, coberta apenas com o lençol sobre as nádegas e metade de uma das coxas. Suspirando, ele recorda como sua mulher dormia, sempre vestida, e nunca haviam feito sexo oral, ela não permitia.
Ele levanta e vai para o banheiro coçando a barba por fazer. No meio do caminho se volta, dá uma ultima olhada para a cama onde Heloisa ainda dorme, sorri com ar preocupado.
“Tudo está acontecendo muito rápido! Tenho medo de me magoar e magoar essa bela mulher, me sinto muito inseguro”.
Pouco antes das dez e meia, ele entra na loja do antiquário apalpando o bolso. Rapidamente havia feito a venda das jóias e das moedas antigas Sai da loja meia hora depois, com ar de alivio, o dinheiro daria pra ele ficar sem se preocupar por mais algum tempo, mas depois disso, teria de encontrar uma solução pra sua vida. Não poderia clinicar, mas, precisava fazer alguma coisa. Estava diante de sua nova realidade.
Sem saber o que deveria fazer, senta pensativo num banco da praça. Olha a sua volta buscando uma idéia, uma nova profissão. Estava tão concentrado em seus pensamentos que se assusta quando um homem senta ao seu lado falando num telefone celular. Constrangido por ouvir a conversa do outro, desvia o olhar para os pombos que passeia e voam na praça em busca de migalhas de comida.
Lembranças se confundem na sua cabeça, na ultima vez que viera com os filho e a mulher até a capital. Eles haviam sentado naquela mesma praça, os meninos tomando sorvete e Dora apressada puxando seu braço olhando as horas a todo instante. Mesmo que os prédios em volta continuassem os mesmo, a praça não parecia a mesma. Ele lembrava exatamente da cena, até do haviam conversado.
- Por que olha tanto o meu relógio? Tem algum compromisso? – Ele indagou cismado.
- Tenho! Como só vamos voltar amanhã, marquei hora no cabeleleiro.
- Se quiser..., fico com os meninos!
- Acho que será melhor. Nos encontramos no hotel.
Ela lhe deu um beijo rápido e acenou para os meninos que corriam de um lado para o outro espantando os pombos. Ele suspirou com uma certa satisfação. Pouco antes de ficar grávida de Luiz, ela vinha quase toda semana para a capital, as desculpas eram inúmeras, no entanto, a preferida era que ia se encontrar com as amigas. Saia cedo pela manhã e só retornava no ultimo ônibus que chegava quase as onze e meia da noite. Nunca comprava nada, não gostava de falar muito sobre o que vira, quem havia encontrado.
Ele até já havia desconfiado uma vez que a mulher o traia, mas não aceitou nem continuar pensando naquela bobagem, não era um homem ciumento e atrasado como a maioria de seus amigos que proibiam quase tudo a suas mulheres. Precisava ter confiança em sua companheira.
Se arrepiava sem querer admitir, mas agora reconhecia que tentava se enganar e no intimo, ele até que gostaria que ela encontrasse outra pessoa e um dia resolvesse se separar. Seria muito conveniente.
Uma voz familiar lhe chegou aos ouvidos libertando sua mente das lembranças.
- Desculpe se pareço indelicada, mas acho que conheço o senhor!
Agamenon se voltou sem pressa e encontrou diante dele, uma senhora de mais ou menos uns sessenta anos, um pouco gorda, cabelos tingidos de preto segurando uma sacola de papel com o nome de uma loja escrito. O rosto dela lembrava vagamente o de alguém que não lhe era estranho, ficou em silencio observando tentando encontrar na mente. Ela voltou a falar.
- O senhor é parente do médico Agamenon Lanufo?
- Sou, sou eu mesmo, Agamenon Lanufo!
A mulher ficou pálida parecia que ia desmaiar, ele apressadamente se levantou ajudando-a a sentar. Parecia que o ar faltara para ela que se abanou com as mãos e voltou a encarar o médico.
- O senhor ... está brincando comigo?
- Não senhora!
- É impossível, se o doutor estivesse vivo, já teria mais de...
- Cem anos?
- Isso! Isso mesmo.
- Não sei como explicar, mas eu tenho essa idade.
- Não pode ser...
- Quem é a senhora?
- Sou..., Maria Aparecida! Sua... – Ela faz uma pausa com expressão desconfiada - ou melhor, afilhada do doutor!
- Filha de Doutor Cosme?
- Isso mesmo!
- Lembro de você, quando seu pai foi trabalhar no hospital, havia se formado um ano antes e você bem pequena. Ele foi um grande amigo. Como vai ele?
- Morreu há quinze anos!
Ela abaixa os olhos e Agamenon sente-se constrangido por ter feito a pergunta. Por um momento havia esquecido que o tempo não havia passado para ele de maneira natural. Repentinamente a mulher suspirou levantando-se rapidamente. Acena para ele e vai embora com passos rápidos, quase correndo, como se estivesse fugindo de uma assombração.
Agamenon ficou sem entender a agitação da mulher, ele estava vivo e não era nenhum fantasma. Olhou seu relógio com um ar de tristeza na face. Havia combinado se encontrar com Heloisa para um almoço rápido, ela queria mostrar para ele a cidade e o que havia mudado com o passar do tempo. Não era bem o programa que estivesse de acordo com o estado de espírito de Agamenon, mas não seria ruim ficar a tarde toda ao lado dela que parecia encantada com o homem, não com o que ele representava.
Como ainda faltava quase uma hora, resolveu caminhar um pouco pelas ruas olhando o movimento intenso dos carros e das pessoas atravessando nas faixas de pedestres, coisa que na sua época não existia e os carros eram poucos. Os modelos dos veículos pareciam saídos de uma revista de ficção cientifica ou de algum filme futurista. Havia se espantado quando Norma comentara sobre a viajem do homem ao espaço, ter ido até a lua e agora pensavam em conquistar marte, mas essa era uma nova realidade. Parando numa banca de revista ficou contemplando a capa de uma publicação onde estava estampada uma grande foto da terra vista do espaço.
Pouco depois do meio dia, estava chegando no local onde marcara encontro com Heloisa, um cruzamento da rua do hotel com a Avenida principal. Alguns minutos depois ela chegou alegre, vestindo uma calça bem justa e uma blusa de decote cigano, cabelos soltos e óculos escuros escondendo seus olhos grandes.
Agamenon sentia que ele não estava de acordo com a paisagem. Olhando os outros homens passando, se achou vestido demasiadamente sóbrio embora a roupa fosse esportiva. Assim que a moça se aproximou lhe dando um beijo nos lábios em plena rua, ele recuou assustado olhando para os lados, vendo que não era notado nem havia causado nenhum fato digno de censura, se acalmou oferecendo o braço para ela e juntos seguiram caminhando em direção ao restaurante.
Enquanto caminhavam, ele sentia vontade de comentar com ela as suas inseguranças, mas o medo o segurava calado. Ela notou e comentou de maneira casual.
- Você tem andado preocupado demais.
- Me sinto vivendo um mundo que não é meu. Imagine alguém chegando aqui, de um outro planeta, por exemplo.
- Deixe de bobagem. Depois vou sair com você, comprar umas roupas mais modernas e aproveitar as suas combinando de maneira diferente. Aproveitando a ocasião...
A moça para e ali mesmo, desabotoa o colarinho da camisa de Agamenon, fica olhando um tempo para ele, desabotoa os punhos e dobra as mangas da camisa até o cotovelo, continua olhando como quem admira e sorrindo fala quase ao ouvido dele como um sussurro.
- Prontinho...! Se tem um homem bonito aqui, só pode ser você. Ficou lindo. – voltando a andar de braços dados com Agamenon ela prossegue – Está vendo! Bastou uma arrumadela e ficou bem jovial.
Agamenon sentia que ao lado de Heloisa, os seus problemas se dissolviam em sorrisos e ternura. Nunca havia sentido uma atração tão forte por uma mulher em toda a sua vida. Dora fora uma conseqüência da sua juventude sempre voltada para os estudos e pouco tempo para diversão. Ela era sua vizinha e sempre solicitava uma ajuda para seus estudos, aos poucos estavam envolvidos e assim que se formou, casaram. Ela parou de estudar e ele, foi contratado para o hospital no interior. Não houve muita coisa que pudessem contar depois, namoro na porta de casa ou na sala. Sexo só depois que casaram.
Com Heloisa, todo dia parecia uma aventura e ela conseguia de uma maneira muito pessoal, consertar os pensamentos dele. Quando chegaram no restaurante escolheram uma mesa bem ao fundo onde poderiam conversar sem qualquer incomodo. Pediram a comida, o garçom muito atencioso parecia se derramar em gentilezas. Era um restaurante de aparência requintada com muitos espelhos espalhados em quase todas as paredes, ar condicionado e musica.
Enquanto esperavam a comida e bebiam vinho tinto seco, Agamenon não suportando a angustia dentro de si sem compartilhar, olhou profundamente para a sua companheira, segurou suas mãos com um pouco de força.
- Preciso de sua ajuda!
- Basta dizer o que precisa.
- Preciso conversar, falar dos meus sentimentos, da minha insegurança.
- Ouvir você, será como ouvir musica. Gosto dessa sua nobreza, mas não precisa ter medo de falar, diga o que lhe vem a cabeça.
- Ando completamente perdido. O mundo a minha volta parece estranho, como se estivesse habitando um corpo que não me pertence. Hoje uma mulher me descobriu, sou o padrinho dela, só que isso aconteceu quando eu estava com quarenta anos, ou seja, já se passaram mais de sessenta. Ela me olhou como quem vê um fantasma, quase saiu correndo com medo de mim.
- Mas do que natural. Pense com a visão dela, já imaginou a situação?
- Você tem razão, mas também tem a questão que me incomoda mais, como vou me sustentar?
- Você é médico!
- Fui...! Agora já não sou, o tempo passou, a medicina evoluiu rapidamente e não acompanhei. Imagine se o conselho de medicina vai permitir que volte a clinicar.
- Você já perguntou isso pra eles?
- Não...!
- Então vá! Pergunte e veja como pode voltar a ser um médico, cinqüenta anos depois.
- Interessante, o tempo que perdi foi imenso, só que tudo aconteceu e não tem nem uma semana entre o dia em que sai de casa e fui tragado por uma coisa que não sei explicar, jogado cinqüenta anos, mais adiante. Mesmo sem entender, algumas coisas me parecem distantes.
- Como assim? – Heloisa faz cara de duvida.
- Meus filhos, eu não consigo imaginar eles velhos, já minha mulher, meus irmãos e amigos, parece que aceito o fato com muita naturalidade, não os procuro vivos, sei que devem ter morrido, o tempo se passou na minha cabeça pra eles.
- Você gostava de sua mulher? – Pergunta Heloisa com um sorriso malicioso nos lábios.
- Não sei...! Talvez tenha me entusiasmado com ela quando namoramos. Eu era pouco experiente, ela foi praticamente minha primeira namorada. Com o tempo, nos tornamos apenas bons amigos, eu vivia para meu trabalho e ela...
Ele dá de ombros abaixando os olhos como quem lembra de algo vergonhoso. O garçom chega trazendo a comida, Agamenon sorri triste para Heloisa que devolve o sorriso mostrando compreensão.
Quando os dois saem do restaurante, está chovendo muito e Heloisa olha irritada para o céu coberto de nuvens grossas.
- Pronto...! Lá se foi nosso passeio, o tempo não vai mudar tão cedo!
- Não tem problema! Vamos fazer outra coisa?
- Claro que vamos. Sei de uma c ama quentinha e macia e de uma vontade enorme de caricias que vai por dentro de mim. Estou com as calcinhas molhadas só de pensar.
- Você...!
Agamenon não havia se acostumado com o linguajar mais descontraído de Heloisa que de uma certa forma, o deixava encantado e ao mesmo tempo, desconcertado. Sorrindo, ela segura a mão do médico e o puxa para a chuva, em poucos minutos chegam ao hotel completamente molhados como dois meninos, felizes e excitados.
A chuva caiu durante toda a tarde e durante o inicio da noite, continuava embora bem mais fraca. Heloisa se vestiu e olhou para o amante com um sorriso malicioso. Já passavam das seis horas e os dois estavam com fome.
- Você vai jantar lá em casa!
- Não fica bem. Por falar nisso, preciso conversar com seu pai!
- Não tem nada pra conversar com ele. Sou uma mulher, vinte e oito anos, dona do meu nariz. Deixe de se portar como um garoto, somos adultos e nossa relação, não é da conta de mais ninguém.
- Mesmo assim...! – Heloisa o interrompe colocando a mão nos lábios do médico.
- Não tem mais nada pra dizer sobre o assunto. Tome banho e se vista, nos encontramos lá em casa dentro de... uma hora. Vou cozinhar uma macarronada, é minha especialidade.
Os dois se beijam, ela sai do quarto deixando Agamenon despido de pé no meio do quarto. Durante algum tempo ele nem se mexeu sentindo ainda o perfume dela a sua volta.
Assim que se apronta, o médico olha o relógio e sai do quarto em direção ao apartamento da sua namorada. Na portaria, o pai dela, o cumprimenta e mostra a porta que dá acesso até sua casa.
- Vá logo, Heloisa já me perguntou duas vezes se você havia descido. – disse Fausto piscando com ar malicioso.
Agamenon, cautelosamente, pega a maçaneta da porta e gira como quem tem medo do que faz.
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