sábado, 12 de julho de 2008

Capítulo 12

Capitulo 12

“... Nascido no interior na cidade de Jaraperim, homenageia todos aqueles que sempre o incentivaram em sua cidade, principalmente sua mãe, Dora”.
Agamenon acordou cedo, por volta das sete horas com a frase que havia vindo a sua cabeça, frase inicial da biografia do livro de seu filho. Atordoado, olhou para o lado e viu que Heloisa já havia levantado e saíra enquanto dormia. Lentamente recobrou seu controle, cheirou o travesseiro e sentiu prazer com o perfume da mulher que o surpreendera, não havia sido um sonho.
Era isso, ele conhecia aquela mulher encantadora de um sonho. Ele agora sabia o motivo de ter sempre encontrado na sua fisionomia algo que o fazia pensar conhece-la realmente. Havia sido um belo sonho.
Levantou-se com preguiça, havia tido uma noite muito agradável, a melhor de sua vida. Cantarolando em voz baixa, foi direto para baixo do chuveiro, aquela era a primeira vez que cantarolou depois de muitos...
“Já nem sei como pensar no tempo”. Pensou sem aflição.
Assim que se vestiu, saiu do quarto e começou a descer a escada sem pressa, sentia um novo animo lhe tomar o corpo e desejava encontrar o rosto daquela mulher que provocara uma esperança de vida em sua mente. Estava sentindo a utilidade de continuar a fazer o que era necessário.
Ao chegar na portaria, viu que era o pai da moça que estava por traz do balcão e havia um homem mulato, um pouco gordo e cabeça raspada, vestido com uma camisa azul escura aberta até metade do peito onde aparecia um medalhão sustentado ao pescoço por uma corrente grossa e uma bolsa pequena de couro preta pendurada no ombro. Agamenon entregou a chave do seu quarto e saiu desconfiado diante dos olhares dos dois homens.
Não havia andado nem uns vinte metros quando viu que o homem que estava no balcão havia se aproximado e segurava seu braço. Se assustando, ele parou encarando o outro.
- Senhor Agamenon?
- Sou eu...!
- Me acompanhe até a delegacia, precisamos ter uma conversa.
- Quem é o senhor?
- Detetive, Andrade! – com a cabeça mostrou que estava com uma arma na cintura e mão segurando o cabo.
O homem puxou do bolso um distintivo e mostrou para o médico que estava sem entender o que ele poderia querer.
- Não precisa da arma, eu o acompanho sem qualquer problema. Não sou um bandido, sou médico.
Outro homem vestindo uma jaqueta surrada se aproximou e juntos foram até um carro que estava estacionado na frente do hotel. Agamenon notou que os dois policiais cheiravam a perfume barato de odor muito forte e enjoativo. O detetive soltou o braço que havia segurado e indicou com a mão o interior do veiculo. O outro homem entrou primeiro e sentou-se ao volante, era meio avermelhado com ares de idiota e muito forte, o pescoço emendava com a cabeça. Assim que entraram no veiculo, o detetive Andrade sacou sua arma da cintura e deixou pendurada na mão olhando malicioso para Agamenon.
Assim que entraram na delegacia, conduziram o médico para uma pequena sala onde só havia duas cadeiras velhas, de madeira e uma mesa no canto com uma garrafa de plástico sobre ela. O cheiro de urina e medo parecia mais forte do que o perfume barato dos homens.
- Sente-se doutor! – disse Andrade com ar pouco amigável.
- O que deseja saber, senhor policial? - Perguntou o médico com ar de importância.
- Não sei bem! – Andrade sentou-se puxando a cadeira e virando ao contrário, deixando o encosto na sua frente.
- Não tenho nada para esconder.
- Quem é você? – perguntou repentinamente o policial.
- Agamenon, Doutor Agamenon Lanufo.
- Está certo, li seu registro no hotel. Vamos esvazie lentamente os bolsos sobre aquela mesa. Não crie problema, meu colega é um pouco nervoso e atira sem esperar explicações.
- Posso levantar?
- Claro!
Os policiais mantinham os olhares nos movimentos lentos de Agamenon que esvaziou completamente os bolsos e voltou sem pressa para a cadeira que estivera sentado enquanto Andrade se aproximava da mesa para ver o que estava nos bolsos do interrogado. O outro policial se aproximou rapidamente de Agamenon e lhe deu um tapa no pescoço.
- Quem mandou sentar?
- Calma... Jiló, o doutor ainda não é um prisioneiro, está apenas respondendo algumas perguntas. – Acalmou o detetive Andrade com uma expressão cínica no rosto.
O detetive pegava uma coisa de cada vez e olhava com atenção, ao pegar o saco de veludo onde estavam as jóias e as moedas, deu um assobio e mostrou para o colega. Em seguida se voltou para o médico com ar de duvida.
- Vamos lá doutor, como explica essas jóias?
- São minhas! - Respondeu sem pestanejar – tem recibo em meu nome na minha carteira.
Os dois policiais se entreolham e Andrade se volta para a mesa, pega a carteira de Agamenon e mostra para ele.
- Onde?
- Na parte do fundo - responde o médico.
Abrindo lentamente como estivesse com medo de alguma surpresa, o policial vê o dois papeis dobrados e os retira com as pontas dos dedos. Abre e lê por algum tempo em silencio coçando queixo.
- Vamos Lá Jiló, chama o delegado aqui!
Saindo da sala, o outro policial bate a porta com força. Andrade se volta para Agamenon fazendo expressão de duvida. Olha os papeis contra luz, coça o queixo mais uma vez ainda sentando na cadeira e fica com um olhar perdido procurando lembrar alguma coisa. Depois de algum tempo a porta se abre e entre um homem muito gordo, suado, gravata despencada no colarinho aberto e mangas de camisa dobrada até os cotovelos.
- O que foi Andrade?
- Doutor..., temos um problema aqui. Esse homem disse que é médico, estava de posse de jóias caras, mas não tem identificação que prove ser quem diz.
- O senhor está enganado, tenho uma identidade profissional também na carteira, se olhasse...- interrompe Agamenon.
- Quem lhe perguntou alguma coisa – Bravejou o delegado com expressão de raiva.
- Quer que olhe a carteira doutor?
O delegado faz uma expressão de desagrado com a pergunta do policial, ele mesmo pega a carteira de Agamenon e procura a identidade. Encontra uma carteira forrada de couro que se abre em duas, na capa ele vê escrito “Conselho de Medicina”, abre e lê em voz alta “Doutor Agamenon Lanufo”, fazendo uma pausa olha mais abaixo e continua lendo, “nascimento: 25 de outubro de 1901”.
Vendo um detalhe que havia passado desapercebido do delegado, o detetive Andrade aponta mostrando que pouco acima do nome estava escrito “Cargo: Secretário Geral”. O delegado sorri desorientado, olha para o médico e volta a olhar data de nascimento, em seguida sorri mostrando que teve uma idéia.
- Já sei como identificar. Venha comigo Andrade, deixe Jiló tomando conta dele.
O delegado sai da sala acompanhado de Andrade, levando a carteira. No corredor, para e diz para o policial em voz baixa.
- Muito estranho esse homem dizer, que tem mais de cem anos! Deve ter uma mentira nisso, vamos investigar quem é esse médico da carteira, por enquanto, deixe ele de molho ai. Vá ao Conselho de Medicina, investiga, é pra isso que você é pago. Será que tenho de pensar em tudo?
Entregando a carteira de Agamenon ao Detetive, o delegado vai embora e desaparece numa porta no fim do corredor. O policial coloca a carteira no bolso e sai contrafeito para fazer o que o delegado ordenara.
Algumas horas depois, Entra na sala onde está Agamenon e fala ao ouvido de Jiló que faz cara de contrariado dando um soco na parede e acena chamando Agamenon. O conduz até uma outra sala junto de uma porta onde tem uma placa “DELEGADO”, manda Agamenon entrar. O cheiro de perfume barato misturado ao de urina parece impregnado por toda parte. Agamenon olha tento em volta, uma sala pequena com fotos em molduras, antigos, pendurados por todo lado, um grande arquivo de aço com cinco gavetas e duas cadeiras forradas com plástico marrom.
O delegado sentado numa cadeira giratória segura uma foto antiga emoldurada nas mãos, ao lado dele, Andrade com expressão de espanto olha para o médico.
- Sente-se Doutor! – o delegado fala com a voz mais calma – O senhor me desculpe, mas... tudo é muito estranho. Como o senhor me explica ter mais de cem anos com um rosto de cinqüenta? – o delegado mostra a foto que tem nas mãos.
- Não sei doutor, estive viajando pelo mundo, talvez alguma coisa que bebi, comi, sei lá.
- Vamos providenciar uma nova carteira de identidade pro senhor, nossos arquivos não guardam informações tão antigas, impressão digital, foto... Precisamos ter certeza que não há nenhum engano.
- Eu entendo! – diz Agamenon com calma, olhando fixamente para Jiló.
- Vá Jiló, pega as coisas do doutor e traga. Não esqueça nada! Depois, o detetive Andrade, vai acompanhá-lo até o Instituto Técnico de Identificação, só então vamos liberá-lo.
- Posso pedir uma coisa doutor? – diz o médico olhando com superioridade para os policiais.
- Se estiver ao meu alcance...!
- Preciso localizar um parente, Hermes Lanufo, é advogado, Juiz.
- Sei quem é, foi meu professor na faculdade – diz o delegado cheio de pose.
- Então vai ser fácil!
- Vai! Ele morreu no ano passado. Um enfarto fulminante.
Agamenon empalidece, sente que seu corpo vai desabar. Fechando os olhos, deixa cair uma lagrima. Respira profundamente, sentindo uma vertigem, volta tentar manter o controle. O Delegado percebe que o médico não se sente bem, levanta da sua cadeira giratória e manda com um gesto Andrade pegar um copo com água.
Depois de algum tempo, Agamenon volta a sentir que o chão está novamente sob seus pés. Agradece aos policiais o copo com água e fala gaguejando.
- Doutor o senhor tem certeza que Hermes morreu?
- Infelizmente tenho. Eu fui ao enterro, ele era um juiz muito querido e respeitado. Posso fazer outra coisa pelo senhor?
- Pode! Quero localizar o irmão dele, Luiz Lanufo.
- Esse eu não conheço, mas não havia nenhum irmão no enterro que me lembre. Me dê uns dias e garanto que vamos saber alguma coisa. Se estiver sentindo que pode andar, Andrade vai levá-lo.
O médico confirma com um sinal de cabeça que está se sentindo bem, levanta ainda meio tonto, se equilibra e aperta a mão que o delegado lhe estende, pega suas coisas nas mãos de Jiló que está de pé junto da porta e sai com Andrade. Os dois caminham pelo corredor e chegam numa porta lateral da Delegacia onde tem um carro estacionado.
- Vamos Doutor?
Em silencio, Agamenon entra no carro enquanto o policial que parece impaciente, olha pela janela, de repente, ele se volta e olha para o médico que parece ignora-lo.
- Doutor, ainda me sinto confuso nessa história. Não engoli essa de comida ou bebida que deixa a pessoa jovem! Tem alguma coisa ai. Não sou um incrédulo, já tenho visto e ouvido muita coisa estranha.
- Quer saber mesmo?
- Gostaria! Garanto que não vou me assustar!
Com paciência Agamenon conta como tudo aconteceu desde o momento que saiu de casa naquele dia, os raios se cruzando no céu, o estrondo, o carro desaparecendo, conta todos os detalhes. Ao chegarem no destino, o policial parece mergulhado em um mar de duvidas. Indeciso, fica algum tempo em silencio depois que estacionaram. Finalmente sorri e bate levemente no ombro do médico, abrindo a porta e saltando.
- Não se preocupe doutor, vou verificar toda a história, tudo que for possível, minha tia fofoqueira, mora em Jaraperim. Claro que não uma tia, é a delegacia de lá que irei consultar.
Andrade solta uma gargalhada nervosa enquanto entram no prédio do Instituto Técnico. De alguma forma, o policial começa a sentir uma grande simpatia por Agamenon que mostra segurança nos gestos e na voz, mesmo nas horas mais complicadas. Logo depois que um técnico recolheu as impressões digitais do médico, Andrade o conduziu até uma outra sala onde havia um fotografo. Enquanto Agamenon se arruma, o policial se aproximou falando em voz baixa.
- Esse documento que você vai receber é provisório, ainda tem que esperar o juiz dar uma sentença, pois pra todos os efeitos, você é um morto. Não fique preocupado, qualquer coisa, é só ligar pra mim. – disse apontando para um aparelho na sua cintura. – Depois dou o numero.
- O que é isso? – o médico perguntou assustado e curioso.
- Um telefone celular! Nunca viu...?... Acho que não! Fala sem precisar de fios.

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