quinta-feira, 10 de julho de 2008

Capítulo 10

Capítulo 10

Ao acordar, ele escova os dentes, toma um banho e veste sua roupa como quem tem medo das próximas horas. Logo cedo, Agamenon desce até a portaria do hotel e encontra Heloisa arrumando alguns papeis sobre o balcão.
- Bom dia! Vejo que acordou cedo! – Ele Falou tentando esconder seu desânimo com um sorriso cansado.
- Papai precisou sair e eu me ofereci para ficar na portaria. Espero que tenha dormido bem! Seus olhos mostram cansaço.
- Os seus também!
- Toda vez que Norma dorme aqui em casa, ficamos até tarde conversando.
- Por falar nela, posso lhe perguntar uma coisa?
- O quê? - Heloisa para de arrumar os papeis com ar desconfiado. – Claro...Acho que sim!
Durante alguns segundos Agamenon sente duvidas se deve ir direto ao assunto, sem ter de explicar muito.
- Como se chama o pai dela?
- Ah...! é isso? Pensei que... deixe pra lá. O nome dele é Porfírio. Se, pretende procura-lo, só depois do almoço.
Vendo que a moça fica com um ar curioso, Agamenon se aproxima tentando disfarçar seu nervosismo.
- Preciso de algumas informações e acho que ele pode ajudar. Aquele autor do livro pode ser um parente que procuro.
- Parece que os dois foram amigos, ou o advogado fez algo pra ele, não sei bem! De qualquer sorte, tomara que consiga o que procura.
- Obrigado!
Agamenon sorri para a moça e pisca o olho com ar de brincadeira. Sai para a rua andando sem pressa, fica vagando esperando o horário do comercio abrir e vai direto para uma livraria na praça da Consolação. Estava lembrando que sempre comprara livros ali, agora torcia para ela ainda existir.
Ao chegar no seu destino, ficou na rua olhando o prédio antigo que antes era um dos mais importantes no centro. Lá funcionavam grandes escritórios de advogados famosos e estivera ai no dia em que sua vida deu um salto para o desconhecido e cinqüenta anos se passaram num piscar de olhos.
A livraria Cultura e Letras, funcionava no andar térreo ocupando uma grande área. Sua especialidade sempre foi livros técnico e material para desenho profissional. Agora, vendia até maquinas que estavam expostas em vitrines, com cartazes que Agamenon leu atentamente sem acreditar no que estava escrito, “Computador de ultima geração”.
Ele só conhecia essas maquinas por ouvir falar e viu um filme onde um cientista tentava dominar o mundo com uma dessas maquinas, só que era imensa e aquelas, eram pequenas. Estava confuso sem saber para que aquilo servia e se assustou ao ouvir uma voz ao seu lado. Voltou-se rapidamente, viu um rapaz negro com o cabelo crespo todo trançado e longo, vestindo uma camiseta com o nome da livraria e a palavra VENDEDOR logo abaixo. Como não entendeu o que ele lhe falara, perguntou o que havia dito e o rapaz repetiu sorrindo.
- Posso ajudá-lo?
- Ah! Claro que sim. Estou procurando um livro técnico. Interpretações Jurídicas.
- O autor...?
- Hermes Lanufo.
- Se me acompanhar, vou consultar nosso catalogo.
O rapaz entrou na loja e parou junto de uma bancada onde havia um computador. Começou a escrever enquanto Agamenon se mantinha a distancia com ar desconfiado, olhava a sua volta, a livraria parecia outra bem diferente da sua época. Em poucos segundos o rapaz se voltou sorrindo.
- Temos dois exemplares, esse livro tem edição esgotada.
- Eu quero!
- Só um minuto.
O rapaz foi até um mezanino onde estava escrito, “Edições Jurídicas”, pegou um livro em uma prateleira e retornou chamando Agamenon até um pequeno balcão e entregou o livro enquanto preenchia uma nota que entregou em seguida.
- Pode pagar no caixa! – Vendo que o seu freguês parecia perdido, ele indicou apontando – Ali... quase na porta por onde entrou.
O livro custara caro, mas para Agamenon era um troféu. Um livro escrito por seu filho não podia ser medido pelo valor em dinheiro. Sentou-se numa praça, sob a sombra de uma arvore e ficou lendo a biografia.
“... Nascido no interior na cidade de Jaraperim, no dia 10 de março de 1928...”
Agamenon lia, pulando os parágrafos inúteis, buscando as referencias que lhe permitissem identificar o filho.
“...Homenageia todos aqueles que sempre o incentivaram, principalmente sua mãe, Dora”.
“O autor, destacado membro da Universidade, hoje é Juiz e se dedica a estudar as diversas interpretações que a lei oferece. No curso de graduação, notou a dificuldade dos alunos em interpretar a legislação e, por conseguinte, desenvolver teorias cabíveis...”.
O coração do médico ficou apertado, era realmente o seu filho, mas, em momento algum citara o nome do pai. Parecia que o esquecera por completo. Os olhos de Agamenon se encheram de lagrimas e uma sensação de vazio lhe instigava pensamentos angustiados.
“Talvez, nem seja preciso encontrá-los, me sinto morto, eles devem achar que fugi, que desapareci por um motivo qualquer os abandonei”.
Durante um bom tempo, o médico fica inerte com o olhar fixado no céu olhando as nuvens brancas que pareciam feitas de algodão. O livro nas mãos parecia pesar, sua cabeça estava vazia. Só se deu conta da hora, quando o estômago roncou de fome, não havia comido nada pela manhã e já passavam do meio dia. Motivado apenas pela curiosidade, resolveu que ainda seguiria sua intenção original em buscar informações com o pai de Norma. Foi almoçar no mesmo restaurante da véspera.
Na hora que pagou sua refeição, lembrou que o dinheiro que havia conseguido, vendendo algumas jóias, estava acabando, mas deveria ainda conseguir algo pelas moedas antigas e as outras jóias que estavam dentro de sua mala de mão. Não estava com coragem de passar no banco e ver o seu cofre, era como se não esperasse ter nada para retirar.
“Devem ter me considerado morto e com quase toda certeza, o inventariante conseguiu ordem judicial para ter acesso a minha caixa forte”.
Pouco depois das duas da tarde, ele estava parado diante do cinema. Um prédio antigo com um letreiro já bastante castigado pelo tempo. Respirando profundamente entrou e logo encontrou um funcionário varrendo o chão junto da porta.
- Boa tarde! O senhor Porfírio...?
- No escritório. Segunda porta a direita.
O homem nem levantou os olhos do seu trabalho. Agamenon entrou pisando com cuidado o tapete vermelho desbotado e cheio de remendos. Bateu na porta indicada e ouviu uma voz rouca no lado de dentro.
- Entre!
- Boa tarde! Senhor Porfírio?
- Sou...! E o senhor?
Por um momento a duvida se abateu sobre o médico. Podia ser um problema dizer seu nome, ele não sabia o grau de amizade que havia entre aquele estranho e seu filho mais velho. Mesmo considerando arriscado disse de maneira insegura.
- Agamenon!
- Vamos entrando. O que deseja?- Com um gesto Porfírio indicou uma cadeira a sua frente para o visitante sentar.
- Sou... amigo de Hermes... Doutor Hermes Lanufo.
- Hermes...? Hum...! Já sei, o advogado.
- Isso mesmo.
- Em que posso ajudá-lo?
- Preciso encontrá-lo para entregar um objeto que ficou comigo durante muitos anos e não tenho o endereço.
- Não vou ajudar muito. Ele foi meu advogado quando ainda não era Juiz. O escritório dele era no prédio Mauá, aquele perto do antigo cassino.
- O senhor não o conhecia intimamente?
- Mais ou menos. Depois que resolveu o meu problema, vinha vez por outra ao cinema e umas duas ou três vezes nos encontramos na rua...
- Ele publicou desenhos de sua filha no livro...
- Foi uma casualidade, sempre que o encontrava estava com minha filha. Ele gostava muito de criança, e a minha era bem pequena mas já desenhava,...uns oito ou nove anos,...ele viu uns rabiscos e publicou no livro que escreveu. Ao que parece que ele morava no bairro da Chapada, uma casa grande.
- Mas se ele era Juiz, no fórum...
- Talvez eles possam ajudar, a Ordem dos Advogados, talvez...
- Muito obrigado.
- Não ajudei muito, não foi?
- Ajudou bastante, agora tenho por onde começar a busca.
Ao sair do cinema, o coração de Agamenon parecia bater em ritmo de valsa, lento e triste. Sabia que aquela visita não havia lhe ajudado muito, mas também já não havia certeza dentro dele se queria mesmo encontrar sua família, talvez o abominassem. Sem ter o que fazer, foi até uma loja de antiguidades ali perto da praça onde estava e conversou com o dono que se interessou em comprar as moedas e as notas antigas que ele ainda trazia no bolso.
Por sorte, achou ter conseguido uma boa oferta pelo dinheiro. Estava começando a entender os novos valores e a identificar melhor o que poderia comprar. No dia seguinte levaria ate o antiquário as moedas e aproveitaria para vender as jóias, só que não sabia onde. Não seria qualquer joalheiro que se arriscaria a uma compra sem que o proprietário se identificasse. O recibo de venda estava em seu nome e a data era de cinqüenta anos antes.
A sua identificação começava a incomodar, sabia que mais cedo ou mais tarde poderia ter algum problema. Naquela noite ao chegar no hotel não viu Heloisa, o pai da moça o cumprimentou muito simpático,
- Boa noite!
- Boa noite, Senhor Agamenon. O seu rosto parece preocupado. Posso ajudar em alguma coisa.
- Nem sei...
- Olha! Sou homem vivido. Com um hotel desses, nos meus mais de trinta anos no seu país, não tem coisa que seja segredo.
Pensativo, Agamenon se aproxima do homem e o encara.
- Estou precisando uma identidade, a minha está muito velha. - os dois continuam se observando laconicamente.
- Se for coisa ilegal, não tenho como ajudá-lo!
- Nada disso! Mas pode deixar eu procuro.
- Se não tem problema com a policia, tem um policial amigo meu que pode adiantar as coisas. Ele ajuda só pelo prazer.
- Muito bem! Quando for preciso eu aviso.
Acenando para o dono do hotel, Agamenon sobe as escadas e vai direto para seu quarto, deixando o outro com ar pensativo e desconfiado. Pouco depois das dez horas, o porteiro da noite chega e o pai de Heloisa vai pra casa, ao entrar vê a filha diante da televisão, senta ao lado dela ainda pensando no que o seu hospede lhe pedira.
- O que foi, papai?
- Uma coisa estranha...
- Como assim?
- Aquele hospede que você fez amizade.
- O que tem ele?
- Parece ter algum problema com a policia.
- Ele lhe disse alguma coisa?
- Disse que precisa de uma identidade. Coisa suspeita.
- Vou deitar, tem lasanha no forno!
- Vá minha filha, mais tarde eu janto.
A moça levanta, dá um beijo no pai e vi para seu quarto. O homem ainda preocupado com o hospede, olha para o telefone.

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