quarta-feira, 9 de julho de 2008

Capítulo 09

Capítulo 09

Heloisa morava no antigo restaurante do hotel que fora reformado, se transformando em um apartamento confortável com uma sala muito ampla, dois quartos, dois sanitários e uma cozinha espaçosa. Assim que entraram, Norma olhou em volta, observa com olhar de saudade os moveis antigos. Uma mesa grande ao centro com cadeiras de encosto alto, os quadros nas paredes, o lustre antigo com pingentes de cristal, um grande armário de madeira escura e pesada junto da parede ao lado de uma janela que dava para a rua, o assoalho brilhante, e um conjunto de poltronas forradas de couro. Soltou um suspiro longo comentando sobre a casa da amiga.
- Toda vez que chego aqui... Lembro da época em que meu pai nos trazia para almoçar. Esse hotel era famoso, o restaurante de primeira.
- O centro da cidade não é mais o mesmo. Construíram nos últimos anos, quase uma nova cidade no lado Leste.
- Meu pai que o diga. O cinema vai mal, ele pensa até em aceitar a proposta de uma empresa que pretende construir um centro comercial nos terrenos onde tem o cinema e a biblioteca que já está quase em ruínas.
- Você pretende estudar Belas Artes?
- Quem sabe?
- Acho que estou velha para uma faculdade!
- Deixe de bobagem. Desde quando se é velho para fazer alguma coisa? Ainda mais, estudar.
- Mas me diga o que achou do meu amigo?
- Muito simpático, bonito e... refinado. Parece até que é gente importante.
- Você precisa ver como ele entende de medicina. Hoje, me falou coisas que os médicos tentaram explicar e não conseguiam, ele até parece que se formou em medicina.
- Ele lhe disse isso?
- Não...!
- Como sabe?
- Não sei, disse que parece... não que era.
- Ele tem alguma coisa misteriosa, um segredo! Não acha? – disse Norma com ar de desconfiança.
- Também acho. Tem alguma coisa o incomodando, algo que precisa contar para outra pessoa e não tem coragem. Notei isso na nossa conversa quando voltamos do hospital.

As duas se olharam maliciosamente. Heloisa vai até a janela, abre um pouco a cortina e caminha com um balanço exagerado sorrindo para a amiga. Norma se joga numa poltrona enquanto a amiga pega uma garrafa de conhaque num armário junto com dois cálices e serve oferecendo para amiga que acena para ela trazer.
Dois andares acima, em seu quarto, Agamenon deitado em sua cama com a luz ainda apagada, se revira de um lado para o outro. Pensa inseguro, em como se aproximar do pai de Norma sem chamar muita atenção e ficar na obrigação de explicar mais do que precisa.
“Não posso chegar e perguntar como se fosse a coisa mais normal do mundo se ele sabe onde posso encontrar meu filho, o homem vai me achar louco, olhando para mim sem entender como o pai pode ser mais jovem. Preciso me acalmar, refletir”.
Agamenon sabia que precisava dar logo inicio a sua busca. Andar pela rua a espera de um milagre não resolveria em nada o grande problema que o destino lhe reservara. Angustiado, levanta-se lentamente sentindo o rosto febril, retira os sapatos olhando a parede vazia a sua frente.
Ele não queria mais continuar naquela angustia. Sente que vai chorar e se deixa novamente cair na cama e adormece ainda vestido e completamente exausto sem uma explicação lógica para sua vida.

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