terça-feira, 8 de julho de 2008

Capítulo 08

Capítulo 08

Pouco depois das sete horas, ele encontra Heloisa na portaria, percebe que ela está acompanhada de uma moça muito feia, gorda, cabelos cortados muito curtos, óculos grossos e nariz achatado. A impressão que Agamenon teve, foi que a moça havia levado um soco no meio do rosto, embora também fosse uma face familiar que não poderia dizer se realmente conhecia.
Voltando-se para o médico, Heloisa sorri descontraída – Deixe-me apresentar... minha amiga, Norma, ela é minha companheira desde os cinco anos, o pai dela é dono do cinema. Já aprontamos muitas travessuras nesse mundo.
As duas se entreolham com cumplicidade. A moça estende a mão para Agamenon que sorri delicado.
- Muito prazer, Sou Agamenon.
- Bem que Heloisa falou, o senhor é muito bonito!
Heloisa fica com as faces coradas demonstrando ter ficado constrangida, dá um beliscão na amiga e se volta para o médico.
- Não liga para o que ouve da boca dessa..., ai. Só fala besteira!
- Eu sou bonito? Isso me deixa vaidoso e feliz. Com tantos problemas que enfrento, pelo menos não passo despercebido para duas moças tão agradáveis. Não precisam ter vergonha, eu não ligo para essas coisas, sou um velho...
- Velho...? – Interrompe Norma – Se for velho, parece conservado em formol.
Todos gargalham e começam a andar na direção do cinema. O tempo inteiro Agamenon olha para as duas moças de maneira furtiva. Ambas lhe parecem pessoas familiares, como se já as tivesse encontrado, embora tenha a certeza de nunca conhecê-las de fato.
Ao saírem depois da sessão de cinema, Agamenon convida as moças para beberem uma cerveja.
- Desculpem esse bonitão aqui, conservado em formol, mas estou na cidade sem amigos e precisando fazer milhões de coisas que nem sei por onde começar. Parece que tem anos que não bebo uma cerveja.
- Tem um bar muito agradável perto daqui – se adiantou Heloisa – Podemos ficar algum tempo, amanhã é sábado e papai acorda cedo, não preciso ficar na portaria.
- Boa idéia! Quem sabe assim conversamos um pouco. Sinto que Agamenon, precisa falar, não sei o que, mas sinto isso. Vamos lá, somos ótimas ouvintes tagarelas. – Norma fala entre risos curtos segurando o braço da amiga.
Sentados numa mesa que ficava quase junto ao poste de iluminação na calçada, os três conversam coisas sobre o dia a dia e Agamenon deixa escapar varias vezes seu assombro com os acontecimentos e coisas modernas. Norma olha as estrelas começa a falar sobre as viagens espaciais.
- Imagine! O homem com tantos problemas na terra, fica gastando fortunas só para mandar um foguete consertar outro. Antes de conquistar o espaço, deviam ter consertado a terra que a cada dia fica mais pobre.
- O homem no espaço...? – Pergunta Agamenon com expressão de incrédulo.
- Onde você andou esse tempo todo meu amigo? – pergunta Norma já alegre pela ingestão do álcool.
- Não sabia que... – Agamenon ficou aflito por ter deixado escapar uma asneira.
- O homem já pisou na lua em 69, manda telescópios imensos e caros para vigiar a terra de lá do espaço. Quem sabe nesse momento, tem gente olhando o que estamos fazendo?
Agamenon percebendo que está se traindo, respira fundo e engole sua curiosidade. Bebe um grande gole de cerveja e chama o garçom pedindo uns bolinhos de peixe, em seguida se volta para as moças com ar de quem quer mudar de assunto.
- O que vocês duas mais gostam de fazer?
- Eu gosto de Desenhar, tenho vários trabalhos que já foram premiados – disse Norma com ar de importância.
- Ainda vou conseguir me formar em pedagogia – Falou Heloisa olhando a cerveja no copo em sua mão com ar de sonhadora.
- Fiz umas gravuras que um advogado, amigo de papai, fez questão de comprar para ilustrar seu livro.
- Aquelas da estatua da justiça? – disse Heloisa com um sorriso malicioso.
- Isso! Pena que tenho de trabalhar na Agencia de publicidade desenhando aquelas coisas horrorosas. Um dia ainda vou viver só para meus quadros.
- Muito bem, aqui estou diante de uma desenhista de sucesso e outra que sonha com a arte de educar. – disse Agamenon com ar professoral.
- Olha, acho que estou com o livro aqui!- Norma falou tentando se mostrar casual enquanto metia a mão na bolsa.
- Você anda com ele pra tudo que é lado! Vá desculpando minha amiga, não perde chance de mostrar os desenhos!- comentou Heloisa, piscando o olho com desdém. – Ainda acho que ele também escreve muito bem e devia se dedicar!
Norma tirou da bolsa um livro de capa azul escura, com o desenho de uma balança inclinada para um dos lados, abriu escolhendo uma pagina e entregou para Agamenon que olhou o desenho com atenção. Uma mulher de cabeça baixa, despedida e a balança em uma das mãos erguida para o alto, acima da cabeça.
- Você já escreveu o seu? – Agamenon vê pelo canto do olho a moça sacudir a cabeça negando. – Muito bonito! – O médico observa o desenho e olha para o céu e comenta como quem compara alguma coisa invisível - O rosto... lembra um pouco minha..., deixe pra lá! – Ele retém as palavras na boca, pensando na sua mulher Dora a quem o desenho lembrou, volta a olhar para a gravura depois de um suspiro. - Parece que a estátua está com um sorriso irônico nos lábios. – Comentou o médico fechando o livro e lendo o titulo e nome do autor.

“Interpretações Jurídicas – Hermes Lanufo”

Heloisa olhou assustada para a amiga. O homem havia ficado pálido de repente com os olhos arregalados, parecia estar passando mal. As duas se levantaram e correram para fazer o médico se levantar.
- Estou ... bem! Foi um..., o nome do autor. É meu filho.
- Como pode ser seu filho? – perguntou Norma curiosa e desconfiada olhando para a amiga, e com ar de duvida acrescentou – Ele tem mais de setenta anos.
- Deve ser apenas o mesmo nome, deve ser isso, não é Agamenon? – tentou acalmar Heloisa.
- Isso mesmo! Nome de meu filho – Agamenon falou ainda com dificuldade, bebendo logo em seguida um copo de cerveja num único gole.
Por alguns minutos reinou o silencio entre eles. Pouco tempo depois, chegaram os bolinhos de peixe, e os três retomaram uma conversa que parecia esquecida. Ao se despedirem, Agamenon sentia muita aflição, já havia decidido procurar o pai de Norma para encontrar com o autor do livro. Talvez, aquela fosse a primeira pista que o levaria de encontro aos que sempre amou muito.
Para ele, a conversa parecia ter perdido o rumo. Em sua cabeça fervilhavam as possibilidades de pistas que poderiam levá-lo ao filho mais velho e quem sabe o restante da família. Se havia um livro escrito por Hermes, ele devia ser conhecido e na faculdade com toda certeza obteria informações. Uma outra possibilidade era obter detalhes objetivos com o pai de Norma, o dono do cinema.
Percebendo a agitação de Agamenon, Heloisa, cutucou a amiga e prepôs irem embora.
- Acho que já está ficando tarde, é melhor irmos, não acha?
- Pode ser! Seu amigo parece que ficou preocupado ou... sei lá! Ficou estranho!
- Vamos...? – A amiga concordou com um sinal afirmativo de cabeça, Heloisa se voltou para Agamenon que estava com o olhar perdido dentro do copo de cerveja – Vamos pedir a conta?
- Claro... – acordou Agamenon, procurando o garçom com os olhos de maneira ansiosa.
Quando chegaram à portaria do hotel, Agamenon se despediu rapidamente, pegou as chaves com o pai de Heloisa que estava junto do balcão e subiu as escadas pulando degraus, entrou em seu quarto e no escuro se jogou na cama. As duas moças entraram na casa de Heloisa por uma porta lateral junto do balcão.
O homem perdido no tempo e na vida sentia que a sua esperança de voltar pra casa estava se esvaindo, e logo que entrou no quarto, tirou a roupa, caindo na cama com os olhos grudados no teto. Depois de alguns minutos, falou para si mesmo em voz alta, denotando uma profunda tristeza.
“Não sei como e por que tudo está me acontecendo dessa maneira, mas vou ter de aceitar e enterrar minha vida nesse pesadelo. Tenho de encarar essa realidade, meu filho já com mais de setenta anos e... Não vou mais voltar a minha casa, meus filhos e..., engraçado, me ocorreu, sinto culpa só em pensar, mas é minha verdade, não faço questão de voltar para Dora!”.

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