segunda-feira, 7 de julho de 2008

Capítulo 07

Capítulo 07

Quando o ônibus parou na rodoviária, saltou apressado, com ânsia de vomito, correu em busca de um sanitário e se deixou ficar apenas descarregando seu interior que parecia trazê-lo de volta a vida. Teria de resistir a tentação de morrer, se deixar morrer.
Depois de muitas perguntas conseguiu chegar ao centro da cidade, era sempre o melhor lugar, os prédios antigos lhe eram paisagens familiares e sempre havia possibilidade de encontrar alguém conhecido. O primeiro lugar que deveria procurar era o banco, mas, com toda certeza seu amigo Reinaldo já não estava lá, provavelmente morrera. Não valia a pena mexer ainda na sua reserva que deveria estar guardada no cofre.
Desanimado, foi até a rua onde havia um pequeno hotel que se hospedava quando era obrigado a passar a noite na capital. Tudo estava muito decadente, mas para sua alegria, pelo menos o hotel ainda estava lá, não se chamava mais Lorde, agora era Estrela. Ele não poderia imaginar que sua vida toda seria resolvida por causa dessa escolha.
Na recepção pouco havia mudado. O mesmo balcão que agora estava velho e descascando, as mesmas poltronas forradas de azul encardido e uma moça atendendo. Entrou sem prestar atenção para a moça.
- Posso ajudá-lo...? – Ela indagou ao ver Agamenon.
- Quero um quarto. – Ele falou de maneira insegura, olhando para a moça como se estivesse diante de alguém intimo..
- Vai ficar muito tempo? – Ela indaga displicente.
- O suficiente para resolver alguns negócios. – ele pensa de onde poderia conhecer aquela moça e não consegue imaginar, não poderia ser a mesma pessoa.
- O senhor tem já conhece o hotel? – Ela o encara sorrindo percebendo o constrangimento dele por ter mantido o olhar fixo nela.
- Acho que não! – Ele gagueja.
- Seja bem vindo!
A moça entregou a ficha para ele preencher. Na hora de colocar o nome pensou e escreveu seu nome verdadeiro e o endereço como sempre fizera, o único que se acostumara durante muitos anos. Ao entregar a ficha de volta, olhou desconcertado para aquela moça muito bonita e jovem, cabelo castanho claro, liso como se feitos com fios de seda cortados na altura dos ombros. Os olhos negros e muito grandes adornavam sua face, parecia ter um corpo bonito e um sorriso envolvente. Ele a conhecia embora acreditasse nunca ter visto. Era possível que fosse a moça dos seus sonhos.
- Sua bagagem? – Ela o despertou para a realidade.
Tentando se mostrar descontraído, Agamenon sorriu e mostrou sua mala de mão. A moça também ofereceu um lindo sorriso muito simpático e entregou a chave.
- Pronto, o 204, tem vista para a praça da matriz.
- Muito obrigado... Como é seu nome?
A moça ficou algum tempo pensando se diria e também parecia buscar nos olhos do médico algo que ele não entendia. Por alguma razão aquele homem era como uma pessoa que conhecia, embora fosse boa de memória, nunca o havia visto.
- Heloisa... – Falou com timidez.
- Muito obrigado, Dona Heloisa!
- Pode me chamar de Heloisa! – A moça sorriu para o médico e voltou sua atenção para alguns papeis ao seu lado. O médico saiu se encaminhando para a escada, ela voltou a observá-lo com um olhar intrigado.
Assim que acabou de tomar banho, Agamenon olhou para onde deixara suas vestes, ficou com expressão enojada ao pensar em vestir a roupa que acabara de tirar. A outra estava ainda muito suja na sua mala de mão. Resolveu que seria melhor sair para comer alguma coisa, andar perambulando pelo centro, na esperança de encontrar um rosto conhecido, comprar roupas novas já que não poderia ficar apenas com a que estava no corpo e a outra imunda. Deveria para mandar lavar, se houvesse ainda alguma lavanderia ali por perto.
Mais aliviado depois banho, sentou-se na cama despido, com a toalha enrolada no corpo, olhou em volta ainda sem acreditar no que estava acontecendo. Uma lagrima correu pela sua face, sentia um grande vazio e não deixava de pensar “Preciso encontrar uma maneira de acabar com esse pesadelo, voltar pra casa, rever meus filhos, meu trabalho e... minha mulher”.
Ficou inerte por um bom tempo tentando pensar com mais objetividade, mas tudo parecia fugir da sua cabeça, nenhuma idéia lhe ocorria. Levantando-se com preguiça, sentia que o mundo não era mais seu. Pegou a roupa que estava numa cadeira e começou vestir mecanicamente com os olhos fixos no vazio a sua frente. Antes de sair, olhou a janela, para sua sorte a altura era pouca, provavelmente não morreria se caísse depois de um impulso suicida.
Voltou para o hotel pouco depois das seis e meia, depois de andar sem destino e sem conseguir um ponto inicial para começar a busca por seus filhos e parentes. Pegou suas chaves e se jogou na cama. A solidão o atormentava, não havia com quem dividir suas angustias, pensar soluções, buscar alternativas. Estava perdido, não sabia nem por onde começar e lhe faltava, pelo menos, um ouvido amigo. A televisão não lhe interessava, era um objeto que apenas enfeitava o quarto, nem imaginava para que poderia servir. Ficou em silencio tentando organizar suas idéias que escorregavam de sua cabeça antes mesmo de se formarem.
Pela manhã, acordou mais tarde do que era costume, impaciente, sentindo perder tempo, se arrumou e desceu. Ao chegar na portaria, ouviu um homem conversando com Heloisa sobre ele, ficou na espreita.
- Quem você pensa que é? – O homem falava sussurrando. - Ele chega sem bagagem e você nem cobra adiantado.
- Ele é distinto! – A moça se mostrou contrariada.
- Acorda menina! – o homem começou a se mostrar exaltado, era de estatura media, muito magro, calvo, cabelos cortados rentes e olhos iguais ao de Heloisa. Falava com um leve sotaque espanhol. - Se der porrete, desconto do seu salário.
- Mas ele é... honesto!
- Como sabe? – O homem deu um muxoxo. - Apresentou atestado?
- Vi no olhar sua sinceridade.
- Da próxima vez, anota a identidade, cobra adiantado e pronto. Depois disso, pode confiar no olhar.
Indignado e impaciente, Agamenon se aproximou do balcão forçando um sorriso, deu bom dia puxando o dinheiro do bolso.
- Pronto, mocinha! Já estou pagando para não deixar duvidas. Quanto tenho de pagar adiantado?
- Uma semana! – Se adiantou o homem enquanto a moça ao lado, cobre o rosto com as mãos sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação.
Naquela manhã, mais uma vez, o médico ficou pelas ruas com o olhar perdido nos rostos e não encontrou nem uma sombra familiar. Não saber para onde ir o incomodava, sempre que chegava na capital era para resolver algum assunto e em seguida voltava para casa, agora, não poderia fazer assim, não havia pra onde voltar. De maneira inexplicável sentiu saudades da bela moça do hotel.
Na hora do almoço, entrou num restaurante pequeno e cheio de gente que servia comida por um preço anunciado numa tabela afixada na porta, que para ele, não era caro nem barato, ainda não estava acostumado com o novo dinheiro. Para sua surpresa, viu a moça do hotel sentada numa das mesas junto ao balcão, se aproximou com cuidado.
- Incomodo se me sentar com você?
- De forma alguma, Dr. Agamenon.
- Me chamou de doutor por algum motivo em especial.
- O senhor tem cara de médico. – Ela falou desconcertada.
Os dois sorriram e o garçom perguntou o que ambos queriam, pediram um lombo assado com macarrão e salada, era um prato comercial, barato. Assim que o rapaz se afastou a moça pousou delicadamente uma mão nas mãos do médico.
- O senhor me desculpe, mas o dono do hotel é um grosso. É meu pai!
- Não se preocupe, eu entendo o cuidado dele. Hoje não trabalhou?
- Hoje não, vou visitar minha mãe que está no hospital.
- O que ela tem?
- Câncer, não tem mais cura.
- Doença desgraçada! O mundo avança, a ciência faz milagres, e o câncer mata.
- Quem sabe no futuro...
- Não tem futuro. A indústria farmacêutica não deixa achar a cura, tem gente que lucra com a morte e a doença.
- O senhor fala de maneira amarga.
- A vida é amarga.
- Nem sempre. Se não for ousadia minha, gostaria de convidá-lo para ir comigo agora até o hospital, vai ver que nem sempre tudo é amargo.
Depois do almoço os dois saíram juntos, foram até o terminal de ônibus. O hospital ficava em um bairro mais afastado. O ambiente familiar de um hospital deu um pouco de satisfação ao médico e logo que entrou no quarto da mãe da moça, viu que realmente ali estava um paciente terminal.
Quase sem cabelos, a pele ressecada, totalmente monitorada e respirando por meio de equipamentos modernos, mas com um enorme sorriso iluminando o que lhe restava, muito embora não falasse e nem parecia saber quem estava ao seu lado. Heloisa acariciou com ternura sua mãe e se voltou para Agamenon com ar de sofrimento.
- Ai está! Essa é minha mãe! O que resta da bela e querida Regina. – A moça suspirou. – Ela vive em seus sonhos, foi amada e amou muito agora deve ser isso que lhe permite sorrir.
Um médico se aproximou de Heloisa a cumprimentando com intimidade. Ela apresentou Agamenon, que procurou saber os detalhes técnicos do estado de Regina com a curiosidade natural da profissão. O outro, reconhecendo que estava diante de um colega não escondeu nenhum detalhe.
- Ela só espera a morte!
Na volta do hospital, Agamenon continuava pensativo, havia refletido a vida pela sua solidão, mas, estava com saúde e poderia ter esperanças, já aquela mulher que acabara de encontrar, sabia que ia morrer, mas se apegava a qualquer prazer, sorria com a visita e se animava com o próximo segundo, não esperava muito.
- O doutor parece que ficou impressionado com mamãe! – disse Heloisa quebrando o silencio.
- Realmente ela me impressionou. Tenho vivido nos últimos dias um inferno pessoal e ela me mostrou, que enquanto se tem vida vale a pena aproveitar, seja lá como for.
- Desculpe-me, mas tenho notado que vive sempre com a expressão de angustia refletida, será que posso ajudar. Sou boa ouvinte.
- Quem sabe...! Mas o que se passa dentro de mim, é tão estranho que irá me chamar de louco na primeira frase.
- Se quiser tentar...?
- Uma outra hora. Não quero estragar tudo. Já acho bom demais ter sua companhia, não preciso dividir o que nem eu mesmo quero, contando minhas mazelas.
- O senhor não parece ser de nosso tempo. Fala como se vivesse no passado.
- Essa eu não entendi!
- Não é pelo que diz, mas... como diz. Há uma sombra em sua voz, algo que não combina. Já vivi muito nos meus vinte e oito anos, fui casada, viúva, perdi um filho no mesmo acidente que o pai morreu. Como viu, minha mãe está doente e meu trabalho no hotel é horrível. No entanto, o senhor me parece uma pessoa que precisa desabafar, não é como muitos que apenas querem falar, o senhor precisa compartilhar algo que o incomoda.
- Menina! Você seria uma grande analista. Freud estaria orgulhoso.
- Ele nem saberia que existo!
- Se eu lhe disser, tenho cem anos, acreditaria?
- Tudo é possível. O senhor tem no máximo uns cinqüenta!
- No hotel, se hospeda muita gente essa época do ano? – Agamenon desviou o assunto.
A conversa realmente toma um rumo diferente, Agamenon leva a moça para falar sobre a vida no hotel e depois sobre ela mesma, não estava na hora de compartilhar suas angustias. Enquanto a moça falava, seu pensamento ganhava asas e partia para uma busca interior, estava com um sentimento de que nunca mais poderia retomar sua vida normal, talvez estivesse mesmo perdido. Aquela mocinha era uma alegria inesperada, pela idade, até poderia ser seu pai, mas agradecia por ser apenas um amigo.
Começar uma investigação sem ter ponto de partida, refazer um caminho de volta sem ao menos conhecer a estrada por onde chegara, seria o mesmo que tentar conter águas de uma represa que estoura A vida estava estourando sem solução, na sua cabeça.
Para Agamenon não havia mais duvida. Estava vivendo num surto psicótico. A outra explicação que poderia encontrar, seria mais absurda ainda, morrera num acidente de carro e aquela vida era no além. Olhou para Heloisa como quem encontra um anjo, até aquele momento continuava sem saber realmente explicar o que acontecia.
Seus pensamentos eram negativos e sentia perder tempo tentando resolver o mistério. O endereço de Hermes que o ourives lhe dera, não ajudou. Encontrou um terreno baldio com restos de uma casa demolida e uma placa dizendo que ali seria construído um edifício residencial. A voz da moça ao seu lado parecia uma cantiga, não fazia sentido e sua cabeça parecia inchada, estourava de dor.
Aquele mundo não era mais o seu. As pessoas se vestiam estranhamente, homens com brincos nas orelhas e cabelos longos, mulheres quase despidas, algumas de cabeça raspadas e maquiagens malucas. As ruas, o cheiro das comidas vendidas pelos ambulantes, os assuntos que ouvia em conversas ao seu lado, nada lhe dizia respeito. Era como alguém que acorda num país estranho, ouvindo uma língua que não compreende.
Depois de algum tempo, Heloisa o tocou no braço umas duas vezes o chamando para levantar, haviam chegado ao ponto próximo do hotel. Logo depois que saltaram, a moça se voltou para Agamenon com ar de duvida falando com cuidado.
- Chegamos bem na hora do jantar! Vai ter algum compromisso essa noite?
- Não! Estou..., perdido no mundo!
- Se não estiver fazendo nada, podemos ver um filme no cine Astória.
- Tem muito tempo que não vou ao cinema!
- Vou com uma amiga, se quiser, não faça cerimônia, saímos do hotel depois das sete.
- Se resolver, nos encontramos na recepção.
- Combinado! – ela se mostrou alegre.
A moça entrou no hotel e o médico saiu caminhando sem rumo. Repentinamente fica ansioso e olha para o relógio, que marca seis e meia. Sorri dando de ombros e pensa observando o movimento apressado das pessoas a sua volta, “Vou ao cinema!”.
Como ainda era muito cedo para o encontro com Heloisa resolve entrar numa lanchonete para comer alguma coisa. O tempo era todo seu, não precisava ter pressa. Senta numa mesa do lado de fora da lanchonete e fica olhando como tudo se tornara muito agitado com pessoas voltando para casa depois de um dia de trabalho. Um pensamento corre por sua cabeça o inquietando.
“O que vou fazer da vida?”.

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