Capítulo 06
Os primeiros raios do sol banharam um homem completamente exausto, inquieto e temeroso do que poderia encontrar no momento seguinte. Havia passado uma noite inteira sentado num pequeno assento de madeira na porta da sua antiga casa que, assim como a maioria das casas daquela rua não abrigavam mais famílias. Sem conseguir raciocinar com clareza, nada surgia como uma idéia esclarecedora.
A chuva que caíra, apenas aumentou a angustia no coração de Agamenon. Sentia-se sujo, precisava trocar de roupa, sua maleta de mão estava mais pesada, ou parecia mais pesada, seu estômago reclamava por comida embora não houvesse apetite.
Ao ver as primeiras pessoas passarem nas ruas, foi até a praça, viu um menino vendendo mingau, em duas panelas grandes cobertas por um pano branco, sobre um tabuleiro de madeira lembrou que não havia comido nada desde o almoço do dia anterior. Desconfiado, se aproximou sentindo a boca salivar.
- O senhor vai querer de milho ou tapioca?
- De milho.
Depois de beber o copo de mingau, Pegou a carteira para pagar e entregou ao menino, uma nota de dez. O menino pegou a nota com ar de duvida, olhou de um lado, do outro e estendeu de volta para o médico com ar irônico.
- Moço...! Quer fazer brincadeira? Isso não vale nada.
O médico ficou desconcertado. Não era possível que o dinheiro fosse sem valor. O menino notando a inquietação do homem, pegou uma outra nota e mostrou para ele.
- Olha aqui, esse é de verdade! O senhor tá sem dinheiro?
Envergonhado sem saber o que dizer, Agamenon, ficou em silencio com os olhos baixos, o menino deu uma tapinha no braço dele fazendo uma careta.
- Pode deixar, outro dia o senhor me paga.
Completamente perdido, Agamenon, sentou-se num dos bancos da praça e ficou olhando os micos pularem nos galhos das arvores. A realidade era ainda mais cruel, estava com dinheiro no bolso que não valia nada, sem amigos ou parentes, numa situação que não sabia explicar, desprovido de uma idéia, pelo menos uma que fosse um socorro.
Quieto, apenas olhando o movimento a sua volta e os macacos nas arvores, ele se abraçava a sua maleta de mão, talvez fosse o único elo com a sua vida, poderia morrer e ninguém notaria, o tempo estava perdido.
Pouco antes das dez horas, um homem de uns setenta anos, cabeça quase totalmente calva, vestindo um paletó azul escuro, de calças folgadas, aparentando serem novas, sentou-se no banco em frente e logo depois veio uma senhora gorda e agitada, carregando uma sacola de compras.
A mulher sentou-se nervosa, olhando desconfiada para os lados, tirou do dedo da mão esquerda um anel entregando ao homem que sem pressa, retirou do boldo uma lente de joalheiro e examinou a jóia.
Depois de algum tempo, os dois pareciam discutir o valor. Ela mostrava a jóia e apontava para o céu, o homem quase sem expressão, retirou um maço de notas do bolso do paletó, contou umas cinco e ofereceu, a mulher relutou um pouco, depois agarrou o dinheiro e saiu apressada. Não demorou muito, veio um rapaz bem jovem com aspecto doentio e entregou uma caixinha, o homem disse que não e o mandou embora de com impaciência.
Agamenon olhava tudo com atenção, mas estava certo que aquele homem era alguém conhecido, mas, não ousaria se identificar. O medo das pessoas ou do que teria de contar, assumia inexplicavelmente, a dianteira dos seus pensamentos. O homem negociava jóia, e era a cara do ourives que morava na sua rua, muito embora fosse mais velho, o famoso Senhor Clovis que fazia jóias perfeitas, fizera até um anel para Dora.
Timidamente, Agamenon acariciou a aliança no seu dedo da mão esquerda. Sabia ser de ouro muito bom e uma vez Clovis comentou que poderia fazer mais de uma jóia com tanto ouro. Estava sem dinheiro e assim, não poderia ir em busca da família onde quer que ela estivesse, morreria de fome antes mesmo de tentar. Dando um suspiro resignado, levantou-se e sentou ao lado do velho.
- Bom dia!
- Bom dia...! Eu conheço o senhor?
- Não! – O médico fala apressado - Acabei de chegar, preciso de dinheiro fui roubado.
- O que posso fazer...?
Agamenon mostra a aliança no dedo. O homem olha desconfiado, mas com um aceno irritado pede para que retire do dedo a jóia, pega com cuidado profissional. Examina atentamente.
- Dou 300...
- O senhor acha justo?
- Sou comerciante não juiz para julgar se é justo.
- Se é... tudo que vale? – Agamenon coça a cabeça com ar indeciso - Pode ser! Preciso comer.
O homem pega o maço de notas, conta e entrega aquele dinheiro estranho para Agamenon que conta as notas sem saber realmente o que elas podem comprar. O homem se levanta e sai da praça rapidamente como quem receia a desistência do outro. Agamenon vê o menino do mingau, resolve pagar o que deve.
- Pronto! Garoto..., agora tenho dinheiro de verdade.
Estendendo uma nota de cinqüenta, fica intrigado com a expressão do menino.
- O que foi, esse dinheiro não serve?
- Desculpe doutor, mas é muito dinheiro, não tenho troco. O senhor não conhece dinheiro?
- Esse não! Estava longe e tudo mudou. – diz Agamenon um tanto sem jeito.
- Mudou mesmo, todo dia é um dinheiro novo. – O menino sorri mostrando a gengiva sem os dentes da frente - Vou explicar mais ou menos. Essa nota de cinqüenta compra um sapato e tem troco. O mingau custa apenas um, não cinqüenta. Mas não precisa pagar, gostei do senhor e peço que esqueça. Ande um pouco por ai e veja os preços das coisas nas vitrines das lojas, logo aprende.
Dando uma tapinha no braço de Agamenon, o menino termina de arrumar seu tabuleiro e vai embora. O médico resolve seguir o conselho do menino e começa a andar pelas ruas da cidade olhando pessoas andando de um lado para outro e as vitrines. Descobre que pode comprar uma roupa nova mais descontraída e quem sabe, mandar lavar a outra que está vestindo.
Sentindo o dinheiro lhe revigorar, esquece por algum tempo a sua situação estranha no mundo. Almoça num restaurante pequeno e decide arrumar um lugar para passar a noite. No caminho da praça, sente uma mão segurar seu braço com muita força, se volta e encontra o velho a quem vendeu a sua aliança que parece muito excitado.
- Sabia que conhecia você, meus olhos não estavam me enganando.
- O senhor me conhece?
- Claro, é o filho do doutor...Agamenon.
- E o senhor é?
- Não lembra? Nemias, o filho de Clovis o ourives. Seu pai salvou minha vida quando engoli um anel. Eu tinha uns oito ou nove anos. Você é mais ou menos da minha... Não pode ser...
- Se eu contar para o senhor, não vai nem querer saber de mais nada.
- Contar o que?
Durante alguns segundos a mente de Agamenon trabalha rapidamente, sabe que não deve contar a verdade, mas não pode perder a oportunidade de continuar a conversa. Aquele homem podia ter alguma informação valiosa e quem sabe, comprar o seu relógio. Resolve inventar uma história.
- Sofri um acidente e fiquei em coma muito tempo. Minha memória esteve adormecida, e só aos poucos vou me lembrando.
- Vamos lá em casa, precisa de um banho. Dormiu na chuva? Parece um mendigo bem vestido com roupas antigas. – O homem olha com expressão de curiosidade para as roupas de Agamenon. – Onde achou essas roupas antigas?
Sem esperar resposta de Agamenon, o velho o segurou pelo braço arrastando para um bairro novo onde morava. Uma casa moderna com dois pavimentos e um carro estranho parado na garagem. Assim que entraram, o velho gritou para a cozinha.
- Samira vem logo, veja só quem achei perdido por ai, meu amigo Hermes.
Agamenon olhou a sua volta. Era uma casa muito confortável, com uma sala ampla, muitos equipamentos elétricos desconhecidos por todos os cantos, um grande sofá, duas poltronas, tudo forrado de um vermelho muito vivo. Mais para frente, uma outra sala menor com uma escada larga para o andar superior, uma mesa redonda com quatro cadeiras e uma arca muito antiga que não combinava com o resto da decoração.
Se voltando para o médico, o ourives segredou.
- Vivo contando nossas aventuras quando meninos, ela me diz todo dia que se o encontrar na rua será capaz de reconhecê-lo, de tanto que falo. Claro que isso não seria possível.
- Tudo é possível!
- Falando em ser possível, você me parece muito bem! Jovem, como quem... não passou dos cinqüenta!
Dando de ombros Agamenon, tenta sorrir. O seu anfitrião o pega pelo braço e o arrasta em direção de uma mulher que entra na sala vinda da cozinha. Ela sorri, mais ou menos uns sessenta anos, cabelos presos por um rabo de cavalo e uma toalha de prato nas mãos. Depois de apresentar o médico como Hermes, o velho o leva para o andar superior, a mulher corre para pegar uma toalha limpa e o deixam no banheiro, junto com um pijama limpo e cheiroso.
Enquanto saboreia a água caindo sobre o corpo, sua mente trabalha de maneira confusa. Ele sente que não deve enganar, mas não pode contar a verdade. Se passar pelo filho o incomoda muito e saber que desfazer a novela, seria perder publico. Lembrava vagamente do filho do ourives Clovis, mas para sua sorte crescera com a fisionomia do pai.
Depois de ter se banhado, trocado de roupa e relaxado um pouco, desceu e foi recebido pelo dono da casa que o convidou para beberem um vinho enquanto conversavam. Depois da primeira taça, o ourives foi direto ao assunto que o fez retornar para encontrar Agamenon.
- Aqui está a sua aliança, vejo que era de seu pai, pois tem o nome de sua mãe gravado.
- De maneira alguma, fizemos um negocio.
- Então vou lhe pagar o preço justo, - pegando no bolso um maço de notas – pronto ai tem mais duzentos.
- Vou aceitar, preciso mesmo de dinheiro.
- Ainda me lembro quando seu pai desapareceu. Conseguiram saber alguma coisa?
- Não lembro! Como disse, perdi a memória no acidente. Por falar nisso, onde eu estava morando.
- A ultima vez que o encontrei, foi a mais ou menos... uns dez ou doze anos, estava na capital e havia comprado uma casa nova mas não mudara, se não me engano.
- É horrível lembrar aos poucos, me sinto completamente atônito.
- Deve ser mesmo uma coisa horrível. Não se preocupe, vai terminar lembrando de tudo.
- Assim espero! Conte-me o que aconteceu no nosso ultimo encontro.
Enquanto o homem falava, a cabeça de Agamenon já estava indo em direção à capital. Depois do almoço, o médico pegou a sua pasta e retirou as jóias de dentro, um anel de formatura, um broche de ouro com dois diamantes e um colar de perolas.
- Faça-me o favor, compre essas jóias.
- O seu anel de formatura?
- Ele mesmo.
- Parece um pouco diferente do que vi na sua mão... mas deixe pra lá, sou um profissional que não perde o habito. Hoje tenho uma joalheria e meu filho toma conta, me aposentei, mas continuo negociando, é um vicio.
- E então, tem interesse?
- Coisas finas! – Estala a língua. - Vamos fazer um negocio, amanhã, vamos até a loja e meu filho vai comprar, eu serei o avalista, darei as garantias de que não são roubadas. Esta noite pode descansar, está na casa de amigos.
Agamenon não agüentou o sono que fechava seus olhos, se desculpou, seu anfitrião o aconselhou dormir sem pressa de acordar, afirmando que ninguém o incomodaria. Assim que entrou no quarto, o médico caiu pesadamente na cama, sentindo o mundo pesar sobre seu corpo. O sono era intenso, não acordou nem para o jantar. No meio da noite, deu um pulo para fora da cama sentindo-se estranho e assustado. Suando frio, recordou que sonhara que as pessoas que mais amava caiando mortas a sua frente e uma luz intensa o cegava deixando apenas o vazio. Era uma visão distorcida da realidade que parecia escapar de um livro aberto.
Não conseguiu mais dormir, estava faminto, mas não ousaria incomodar, ficou debruçado na janela, ouvindo os cachorros latirem a sua volta, observando a rua deserta e esperando o sol chegar.
Logo cedo, foi com Nemias até a loja, não se demorou muito e de lá mesmo pegou uma condução até a rodoviária, estava com pressa de chegar na capital. Aquela cidade era outra, os rostos desconhecidos, as ruas transformadas e não havia mais nada seu. Pegou o primeiro ônibus que saia, não havia ilusões, estava só.
O dinheiro na mala de mão parecia se anunciar, o médico estava com medo de ser roubado já que tudo na cidade grande era possível por isso mesmo, olhava desconfiado para quem se aproximava. Durante a viajem, seu coração disparava a cada pensamento. O homem que estava ao seu lado, gordo e cheirando mal, dormia e roncava.
Até a estrada não era a mesma olhando a luz do dia, estava muito diferente do que conhecia tão bem e ao passar pelo local onde tudo acontecera, sentiu um arrepio intenso e uma moleza tomar seu corpo como quem está febril.
Sabia que até a capital seria diferente, outra, ele começava a tomar consciência de que em cinqüenta anos, não só as pessoas mudam. Mesmo assim, era ainda muito difícil admitir que estivera ali naquela cidade não fazia muito tempo, apenas um dia e a armadilha era exatamente essa, o tempo.
Não poderia se apresentar, um homem de mais de cem anos com cara de cinqüenta ou até menos, levaria os outros a concluírem que só poderia querer enganar, roubar ou se esconder. Seria sempre um fugitivo sem ter cometido qualquer crime. Estava numa encruzilhada cruel, nem trabalhar em sua profissão seria mais capaz, podia se considerar morto para o mundo. Toda vez que fechava os olhos, via pessoas rindo dele ou policias tentando prende-lo. Sua vida não seria fácil e talvez nem valesse a pena viver.
Os primeiros raios do sol banharam um homem completamente exausto, inquieto e temeroso do que poderia encontrar no momento seguinte. Havia passado uma noite inteira sentado num pequeno assento de madeira na porta da sua antiga casa que, assim como a maioria das casas daquela rua não abrigavam mais famílias. Sem conseguir raciocinar com clareza, nada surgia como uma idéia esclarecedora.
A chuva que caíra, apenas aumentou a angustia no coração de Agamenon. Sentia-se sujo, precisava trocar de roupa, sua maleta de mão estava mais pesada, ou parecia mais pesada, seu estômago reclamava por comida embora não houvesse apetite.
Ao ver as primeiras pessoas passarem nas ruas, foi até a praça, viu um menino vendendo mingau, em duas panelas grandes cobertas por um pano branco, sobre um tabuleiro de madeira lembrou que não havia comido nada desde o almoço do dia anterior. Desconfiado, se aproximou sentindo a boca salivar.
- O senhor vai querer de milho ou tapioca?
- De milho.
Depois de beber o copo de mingau, Pegou a carteira para pagar e entregou ao menino, uma nota de dez. O menino pegou a nota com ar de duvida, olhou de um lado, do outro e estendeu de volta para o médico com ar irônico.
- Moço...! Quer fazer brincadeira? Isso não vale nada.
O médico ficou desconcertado. Não era possível que o dinheiro fosse sem valor. O menino notando a inquietação do homem, pegou uma outra nota e mostrou para ele.
- Olha aqui, esse é de verdade! O senhor tá sem dinheiro?
Envergonhado sem saber o que dizer, Agamenon, ficou em silencio com os olhos baixos, o menino deu uma tapinha no braço dele fazendo uma careta.
- Pode deixar, outro dia o senhor me paga.
Completamente perdido, Agamenon, sentou-se num dos bancos da praça e ficou olhando os micos pularem nos galhos das arvores. A realidade era ainda mais cruel, estava com dinheiro no bolso que não valia nada, sem amigos ou parentes, numa situação que não sabia explicar, desprovido de uma idéia, pelo menos uma que fosse um socorro.
Quieto, apenas olhando o movimento a sua volta e os macacos nas arvores, ele se abraçava a sua maleta de mão, talvez fosse o único elo com a sua vida, poderia morrer e ninguém notaria, o tempo estava perdido.
Pouco antes das dez horas, um homem de uns setenta anos, cabeça quase totalmente calva, vestindo um paletó azul escuro, de calças folgadas, aparentando serem novas, sentou-se no banco em frente e logo depois veio uma senhora gorda e agitada, carregando uma sacola de compras.
A mulher sentou-se nervosa, olhando desconfiada para os lados, tirou do dedo da mão esquerda um anel entregando ao homem que sem pressa, retirou do boldo uma lente de joalheiro e examinou a jóia.
Depois de algum tempo, os dois pareciam discutir o valor. Ela mostrava a jóia e apontava para o céu, o homem quase sem expressão, retirou um maço de notas do bolso do paletó, contou umas cinco e ofereceu, a mulher relutou um pouco, depois agarrou o dinheiro e saiu apressada. Não demorou muito, veio um rapaz bem jovem com aspecto doentio e entregou uma caixinha, o homem disse que não e o mandou embora de com impaciência.
Agamenon olhava tudo com atenção, mas estava certo que aquele homem era alguém conhecido, mas, não ousaria se identificar. O medo das pessoas ou do que teria de contar, assumia inexplicavelmente, a dianteira dos seus pensamentos. O homem negociava jóia, e era a cara do ourives que morava na sua rua, muito embora fosse mais velho, o famoso Senhor Clovis que fazia jóias perfeitas, fizera até um anel para Dora.
Timidamente, Agamenon acariciou a aliança no seu dedo da mão esquerda. Sabia ser de ouro muito bom e uma vez Clovis comentou que poderia fazer mais de uma jóia com tanto ouro. Estava sem dinheiro e assim, não poderia ir em busca da família onde quer que ela estivesse, morreria de fome antes mesmo de tentar. Dando um suspiro resignado, levantou-se e sentou ao lado do velho.
- Bom dia!
- Bom dia...! Eu conheço o senhor?
- Não! – O médico fala apressado - Acabei de chegar, preciso de dinheiro fui roubado.
- O que posso fazer...?
Agamenon mostra a aliança no dedo. O homem olha desconfiado, mas com um aceno irritado pede para que retire do dedo a jóia, pega com cuidado profissional. Examina atentamente.
- Dou 300...
- O senhor acha justo?
- Sou comerciante não juiz para julgar se é justo.
- Se é... tudo que vale? – Agamenon coça a cabeça com ar indeciso - Pode ser! Preciso comer.
O homem pega o maço de notas, conta e entrega aquele dinheiro estranho para Agamenon que conta as notas sem saber realmente o que elas podem comprar. O homem se levanta e sai da praça rapidamente como quem receia a desistência do outro. Agamenon vê o menino do mingau, resolve pagar o que deve.
- Pronto! Garoto..., agora tenho dinheiro de verdade.
Estendendo uma nota de cinqüenta, fica intrigado com a expressão do menino.
- O que foi, esse dinheiro não serve?
- Desculpe doutor, mas é muito dinheiro, não tenho troco. O senhor não conhece dinheiro?
- Esse não! Estava longe e tudo mudou. – diz Agamenon um tanto sem jeito.
- Mudou mesmo, todo dia é um dinheiro novo. – O menino sorri mostrando a gengiva sem os dentes da frente - Vou explicar mais ou menos. Essa nota de cinqüenta compra um sapato e tem troco. O mingau custa apenas um, não cinqüenta. Mas não precisa pagar, gostei do senhor e peço que esqueça. Ande um pouco por ai e veja os preços das coisas nas vitrines das lojas, logo aprende.
Dando uma tapinha no braço de Agamenon, o menino termina de arrumar seu tabuleiro e vai embora. O médico resolve seguir o conselho do menino e começa a andar pelas ruas da cidade olhando pessoas andando de um lado para outro e as vitrines. Descobre que pode comprar uma roupa nova mais descontraída e quem sabe, mandar lavar a outra que está vestindo.
Sentindo o dinheiro lhe revigorar, esquece por algum tempo a sua situação estranha no mundo. Almoça num restaurante pequeno e decide arrumar um lugar para passar a noite. No caminho da praça, sente uma mão segurar seu braço com muita força, se volta e encontra o velho a quem vendeu a sua aliança que parece muito excitado.
- Sabia que conhecia você, meus olhos não estavam me enganando.
- O senhor me conhece?
- Claro, é o filho do doutor...Agamenon.
- E o senhor é?
- Não lembra? Nemias, o filho de Clovis o ourives. Seu pai salvou minha vida quando engoli um anel. Eu tinha uns oito ou nove anos. Você é mais ou menos da minha... Não pode ser...
- Se eu contar para o senhor, não vai nem querer saber de mais nada.
- Contar o que?
Durante alguns segundos a mente de Agamenon trabalha rapidamente, sabe que não deve contar a verdade, mas não pode perder a oportunidade de continuar a conversa. Aquele homem podia ter alguma informação valiosa e quem sabe, comprar o seu relógio. Resolve inventar uma história.
- Sofri um acidente e fiquei em coma muito tempo. Minha memória esteve adormecida, e só aos poucos vou me lembrando.
- Vamos lá em casa, precisa de um banho. Dormiu na chuva? Parece um mendigo bem vestido com roupas antigas. – O homem olha com expressão de curiosidade para as roupas de Agamenon. – Onde achou essas roupas antigas?
Sem esperar resposta de Agamenon, o velho o segurou pelo braço arrastando para um bairro novo onde morava. Uma casa moderna com dois pavimentos e um carro estranho parado na garagem. Assim que entraram, o velho gritou para a cozinha.
- Samira vem logo, veja só quem achei perdido por ai, meu amigo Hermes.
Agamenon olhou a sua volta. Era uma casa muito confortável, com uma sala ampla, muitos equipamentos elétricos desconhecidos por todos os cantos, um grande sofá, duas poltronas, tudo forrado de um vermelho muito vivo. Mais para frente, uma outra sala menor com uma escada larga para o andar superior, uma mesa redonda com quatro cadeiras e uma arca muito antiga que não combinava com o resto da decoração.
Se voltando para o médico, o ourives segredou.
- Vivo contando nossas aventuras quando meninos, ela me diz todo dia que se o encontrar na rua será capaz de reconhecê-lo, de tanto que falo. Claro que isso não seria possível.
- Tudo é possível!
- Falando em ser possível, você me parece muito bem! Jovem, como quem... não passou dos cinqüenta!
Dando de ombros Agamenon, tenta sorrir. O seu anfitrião o pega pelo braço e o arrasta em direção de uma mulher que entra na sala vinda da cozinha. Ela sorri, mais ou menos uns sessenta anos, cabelos presos por um rabo de cavalo e uma toalha de prato nas mãos. Depois de apresentar o médico como Hermes, o velho o leva para o andar superior, a mulher corre para pegar uma toalha limpa e o deixam no banheiro, junto com um pijama limpo e cheiroso.
Enquanto saboreia a água caindo sobre o corpo, sua mente trabalha de maneira confusa. Ele sente que não deve enganar, mas não pode contar a verdade. Se passar pelo filho o incomoda muito e saber que desfazer a novela, seria perder publico. Lembrava vagamente do filho do ourives Clovis, mas para sua sorte crescera com a fisionomia do pai.
Depois de ter se banhado, trocado de roupa e relaxado um pouco, desceu e foi recebido pelo dono da casa que o convidou para beberem um vinho enquanto conversavam. Depois da primeira taça, o ourives foi direto ao assunto que o fez retornar para encontrar Agamenon.
- Aqui está a sua aliança, vejo que era de seu pai, pois tem o nome de sua mãe gravado.
- De maneira alguma, fizemos um negocio.
- Então vou lhe pagar o preço justo, - pegando no bolso um maço de notas – pronto ai tem mais duzentos.
- Vou aceitar, preciso mesmo de dinheiro.
- Ainda me lembro quando seu pai desapareceu. Conseguiram saber alguma coisa?
- Não lembro! Como disse, perdi a memória no acidente. Por falar nisso, onde eu estava morando.
- A ultima vez que o encontrei, foi a mais ou menos... uns dez ou doze anos, estava na capital e havia comprado uma casa nova mas não mudara, se não me engano.
- É horrível lembrar aos poucos, me sinto completamente atônito.
- Deve ser mesmo uma coisa horrível. Não se preocupe, vai terminar lembrando de tudo.
- Assim espero! Conte-me o que aconteceu no nosso ultimo encontro.
Enquanto o homem falava, a cabeça de Agamenon já estava indo em direção à capital. Depois do almoço, o médico pegou a sua pasta e retirou as jóias de dentro, um anel de formatura, um broche de ouro com dois diamantes e um colar de perolas.
- Faça-me o favor, compre essas jóias.
- O seu anel de formatura?
- Ele mesmo.
- Parece um pouco diferente do que vi na sua mão... mas deixe pra lá, sou um profissional que não perde o habito. Hoje tenho uma joalheria e meu filho toma conta, me aposentei, mas continuo negociando, é um vicio.
- E então, tem interesse?
- Coisas finas! – Estala a língua. - Vamos fazer um negocio, amanhã, vamos até a loja e meu filho vai comprar, eu serei o avalista, darei as garantias de que não são roubadas. Esta noite pode descansar, está na casa de amigos.
Agamenon não agüentou o sono que fechava seus olhos, se desculpou, seu anfitrião o aconselhou dormir sem pressa de acordar, afirmando que ninguém o incomodaria. Assim que entrou no quarto, o médico caiu pesadamente na cama, sentindo o mundo pesar sobre seu corpo. O sono era intenso, não acordou nem para o jantar. No meio da noite, deu um pulo para fora da cama sentindo-se estranho e assustado. Suando frio, recordou que sonhara que as pessoas que mais amava caiando mortas a sua frente e uma luz intensa o cegava deixando apenas o vazio. Era uma visão distorcida da realidade que parecia escapar de um livro aberto.
Não conseguiu mais dormir, estava faminto, mas não ousaria incomodar, ficou debruçado na janela, ouvindo os cachorros latirem a sua volta, observando a rua deserta e esperando o sol chegar.
Logo cedo, foi com Nemias até a loja, não se demorou muito e de lá mesmo pegou uma condução até a rodoviária, estava com pressa de chegar na capital. Aquela cidade era outra, os rostos desconhecidos, as ruas transformadas e não havia mais nada seu. Pegou o primeiro ônibus que saia, não havia ilusões, estava só.
O dinheiro na mala de mão parecia se anunciar, o médico estava com medo de ser roubado já que tudo na cidade grande era possível por isso mesmo, olhava desconfiado para quem se aproximava. Durante a viajem, seu coração disparava a cada pensamento. O homem que estava ao seu lado, gordo e cheirando mal, dormia e roncava.
Até a estrada não era a mesma olhando a luz do dia, estava muito diferente do que conhecia tão bem e ao passar pelo local onde tudo acontecera, sentiu um arrepio intenso e uma moleza tomar seu corpo como quem está febril.
Sabia que até a capital seria diferente, outra, ele começava a tomar consciência de que em cinqüenta anos, não só as pessoas mudam. Mesmo assim, era ainda muito difícil admitir que estivera ali naquela cidade não fazia muito tempo, apenas um dia e a armadilha era exatamente essa, o tempo.
Não poderia se apresentar, um homem de mais de cem anos com cara de cinqüenta ou até menos, levaria os outros a concluírem que só poderia querer enganar, roubar ou se esconder. Seria sempre um fugitivo sem ter cometido qualquer crime. Estava numa encruzilhada cruel, nem trabalhar em sua profissão seria mais capaz, podia se considerar morto para o mundo. Toda vez que fechava os olhos, via pessoas rindo dele ou policias tentando prende-lo. Sua vida não seria fácil e talvez nem valesse a pena viver.
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