Capítulo 05
Uma estranha sensação percorreu o corpo de Agamenon enquanto olhava o movimento do posto de gasolina que agora era muito maior, com oito bombas de gasolina, um prédio grande ao lado com uma tabuleta onde se lia “CHURRASCARIA” Continuava encontrando carros de modelos estranhos estacionados ou abastecendo. A sua volta nada parecia real, até a iluminação forte era completamente diferente.
Repentinamente Agamenon se sentia em outro mundo. Apoiou-se em um poste de iluminação sentindo o chão desaparecer e ar lhe faltar e um vazio lhe tomar o cérebro.
Só depois de muito tempo, o médico conseguiu respirar normalmente e pensar com clareza. Estava estático na entrada e precisava prosseguir em suas descobertas, fossem elas estranhas ou não, para tudo haveria uma explicação. Lentamente caminhou em direção a uma porta do prédio ao lado do restaurante, onde havia uma tabuleta “ESCRITÓRIO”.
Enquanto caminhava, os olhos percorriam tudo a sua volta e os pensamentos fervilhavam de maneiras intensa e muito rápida. Não poderia deixar sua língua ser menos inteligente do que a realidade. Caso contasse sobre o carro, a luz e suas preocupações verdadeiras, seria logo internado com suspeita de esquizofrenia. Acreditava ainda na prudência ao conversar com outra pessoa, mesmo que fosse um amigo de muitos anos, pois, nem a sua própria imaginação conseguiria processar até aquele momento as coisas estranhas que estavam sucedendo.
Ao abrir a porta do escritório, Agamenon encontrou um rapaz gordo e muito pálido, com pouco mais de trinta anos, cabelos suados e escorridos, vestindo um guarda pó branco, sentado sobre uma mesa desarrumada falando ao telefone.
Assim que o rapaz viu o médico indeciso parado na porta, acenou para que entrasse e esperasse um pouco.
- Não esqueço..., leite..., farinha e pão. Compro..., pode deixar... um beijo.
Colocando o fone no gancho, ele se voltou para Agamenon com ar de resignação.
- Minha mulher...! O que o senhor deseja?
- Gostaria de falar com Dorival.
- Dorival... O borracheiro?
- Não! O dono do posto.
- O senhor deve ter se enganado. Esse posto é do dono da churrascaria, seu Abelardo.
- O Dorival...
- Já sei! O senhor fala do velho, o que era dono, não é isso?
- Sim, ou melhor, pode ser...
- Ele vendeu tudo, já faz muito tempo. Dizem que morreu já faz um bom tempo.
- Não estou entendo! – O rosto de Agamenon demonstrou preocupação e medo.
- O velho vendeu o posto mais ou menos, há uns... quinze anos, dizia que estava muito velho e seu filho era doutor, não queria saber disso aqui. Seo Abelardo que havia feito uma reforma do posto com o velho... Era sócio, comprou tudo.
- Não sei o que dizer...
Sentindo o chão faltar sob seus pés, Agamenon se deixou cair na primeira cadeira que viu na sua frente. Seu olhar parecia perdido no meio de um grande abismo. O rapaz, notando que o homem não estava bem, correu até uma geladeira pequena e voltou com um copo cheio de água. Depois de beber a água, Agamenon se preparou para levantar, mas as pernas não queriam obedecer. O rapaz ficou olhando aquele homem de aparência distinta e antiga com um olhar curioso e preocupado.
- Posso fazer alguma coisa para que se sinta melhor?
Durante alguns segundos o médico pensou em chorar, mas aos poucos voltou a assumir o controle da mente e do corpo. Voltou-se para o rapaz com ar de duvida.
- Como faço para chegar ao centro da cidade? – Perguntou com a voz rouca arranhando a garganta.
- Pode pegar uma carona ou o ônibus que passa dentro de alguns minutos.
- Nunca fiquei tão..., Assim, sem saber o que fazer. – Desabafou o médico pensando em voz alta e olhar perdido no chão.
- Se o senhor estiver sem pressa, vou descer para a cidade dentro de mais ou menos uma hora, lhe dou uma carona!
- Seria muito bom! Vou lhe agradecer muito, mas não quero incomodar.
- Não será incomodo algum. Vou fechar o caixa e assim que acabar com umas coisinhas..., desceremos juntos. Pode ficar por aqui.
O rapaz saiu da sala fechando a porta, deixando Agamenon com seus pensamentos que ainda se batiam confusos na cabeça.
“O que será que me aconteceu? Parece que estou no tempo errado! Isso não pode ser! O tempo não adianta nem atrasa, isso é coisa de livros, na vida real não acontece. Seja lá o que for, tem que haver uma maneira de voltar ao normal, preciso voltar pra casa, para meus filhos, minha mulher e meu trabalho”.
Sem conseguir ficar quieto, o médico estica as pernas tomadas por uma dormência estranha. Levantou, olhou para o lado de fora do posto por uma janela pequena. Os carros estranhos não paravam de chegar e sair e vários deles estavam estacionados bem a sua frente. Tentando se manter sob controle, andou por algum tempo de um lado para o outro e suas mãos pousaram sobre um calendário.
“Março de 2001, dezoito de março, cinqüenta anos depois, o mesmo dia, ano diferente. Isso não é lógico”. Mordendo os lábios, percebe a boca ressecar, as pernas voltam a tremer e seu coração dispara. “Preciso ter calma, investigar, encontrar minha família, saber o que está acontecendo”.
Completamente desanimado, o médico se deixa cair na cadeira com medo de pensar, reconhece o medo de descobrir que houve algum equivoco da natureza, que ele avançou no tempo ou está em outra dimensão, um outro mundo, quem sabe um outro planeta. Sente um arrepio tomar conta de seu corpo ao pensar na possibilidade de sua família não existir mais, de que o mundo é novo para ele, que terá de enfrentar muitas dificuldades que nunca ousaria sonhar.
O calendário deveria ser alguma brincadeira, não era possível ele ter saltado no tempo, isso não fazia parte de sua lógica. Olhando em volta, vê um jornal dobrado junto do telefone. Amedrontado, estira o braço e pega nervoso o jornal, fica com ele em suas mãos sem coragem de trazê-lo diante dos olhos. Respira profundamente e aos poucos desce o olhar e se fixa na data sobre a pagina amarrotada. Mais uma vez sente que vai desmaiar, não havia brincadeira no calendário, a data estava coincidindo. Apressadamente retira o olhar do papel, o fixa no ventilador de teto girando sobre sua cabeça. Pela primeira vez na vida não queria pensar.
Imóvel, completamente aturdido, se recusava ao confronto com o inevitável. Seria melhor deixar para sofrer mais tarde, esperaria chegar na cidade para começar a ter certeza das coisas a sua volta. Enquanto aguardava o rapaz que lhe daria carona, sente que o tempo se arrasta.
Sua ansiedade transforma quarenta minutos de espera em uma eternidade e quando o homem do posto retorna, sente um pouco de alivio. Espera impaciente que ele guarde um livro numa gaveta, o dinheiro no cofre e o convide para a carona desejada.
Ao entrar no carro estranho do rapaz, nota que ele pega um pequeno disco metálico e coloca num orifício que parece um rádio. Na estrada ouve musicas que não conhece e em silencio sofre ao entrar na cidade. É uma outra cidade, não se parece em nada com a que vivia. O rapaz abaixa o volume da musica e pergunta em tom casual.
- O senhor é da cidade?
- Não! – Responde apressado.
- Quer ficar no centro?
- Se for possível, na praça da prefeitura.
- Da nova ou... da velha?
- Da...Velha! – Fala engasgando nas palavras.
O rapaz entra numa rua desconhecida, passa um jardim que não existia e finalmente entra na praça da prefeitura velha. Agamenon vê as velhas casas, os velhos sobrados de sua cidade. Sente-se novamente em casa. O rapaz do posto, para o carro e olha para o homem ao lado que parece petrificado.
- Chegamos!
O médico demora algum tempo para saltar do carro, agradece e fica contemplando a velha praça enquanto ouve o carro partindo. A iluminação era diferente, mas as casas pareciam às mesmas de sempre, exceto pela utilização. Onde havia uma farmácia estava escrito mercadinho, na porta da prefeitura uma placa grande dizia: “Reforma da escola Assis Valente”.
Esperando qualquer coisa, já sem esperança de encontrar sua casa, entra na rua dos Alfaiates. Morava logo no inicio, a sua casa era a terceira e para sua surpresa, encontra uma loja de ferragens. Aturdido, volta até a esquina e lê a placa com o nome da rua. Ele não acreditava que aquela coisa estranha estivesse realmente acontecendo. Sem fôlego, se deixa cair sentado na beira da calçada, as lagrimas escorrem pelo seu rosto.
A chuva fina que caiu durante toda a noite, fez Agamenon se abrigar numa cobertura que agora existia na loja que um dia foi seu lar. Sua cabeça dolorida já elaborava a justificativa para tantas informações loucas, estava morto, o clarão na estrada havia sido um farol mortal ao seu encontro.
Uma estranha sensação percorreu o corpo de Agamenon enquanto olhava o movimento do posto de gasolina que agora era muito maior, com oito bombas de gasolina, um prédio grande ao lado com uma tabuleta onde se lia “CHURRASCARIA” Continuava encontrando carros de modelos estranhos estacionados ou abastecendo. A sua volta nada parecia real, até a iluminação forte era completamente diferente.
Repentinamente Agamenon se sentia em outro mundo. Apoiou-se em um poste de iluminação sentindo o chão desaparecer e ar lhe faltar e um vazio lhe tomar o cérebro.
Só depois de muito tempo, o médico conseguiu respirar normalmente e pensar com clareza. Estava estático na entrada e precisava prosseguir em suas descobertas, fossem elas estranhas ou não, para tudo haveria uma explicação. Lentamente caminhou em direção a uma porta do prédio ao lado do restaurante, onde havia uma tabuleta “ESCRITÓRIO”.
Enquanto caminhava, os olhos percorriam tudo a sua volta e os pensamentos fervilhavam de maneiras intensa e muito rápida. Não poderia deixar sua língua ser menos inteligente do que a realidade. Caso contasse sobre o carro, a luz e suas preocupações verdadeiras, seria logo internado com suspeita de esquizofrenia. Acreditava ainda na prudência ao conversar com outra pessoa, mesmo que fosse um amigo de muitos anos, pois, nem a sua própria imaginação conseguiria processar até aquele momento as coisas estranhas que estavam sucedendo.
Ao abrir a porta do escritório, Agamenon encontrou um rapaz gordo e muito pálido, com pouco mais de trinta anos, cabelos suados e escorridos, vestindo um guarda pó branco, sentado sobre uma mesa desarrumada falando ao telefone.
Assim que o rapaz viu o médico indeciso parado na porta, acenou para que entrasse e esperasse um pouco.
- Não esqueço..., leite..., farinha e pão. Compro..., pode deixar... um beijo.
Colocando o fone no gancho, ele se voltou para Agamenon com ar de resignação.
- Minha mulher...! O que o senhor deseja?
- Gostaria de falar com Dorival.
- Dorival... O borracheiro?
- Não! O dono do posto.
- O senhor deve ter se enganado. Esse posto é do dono da churrascaria, seu Abelardo.
- O Dorival...
- Já sei! O senhor fala do velho, o que era dono, não é isso?
- Sim, ou melhor, pode ser...
- Ele vendeu tudo, já faz muito tempo. Dizem que morreu já faz um bom tempo.
- Não estou entendo! – O rosto de Agamenon demonstrou preocupação e medo.
- O velho vendeu o posto mais ou menos, há uns... quinze anos, dizia que estava muito velho e seu filho era doutor, não queria saber disso aqui. Seo Abelardo que havia feito uma reforma do posto com o velho... Era sócio, comprou tudo.
- Não sei o que dizer...
Sentindo o chão faltar sob seus pés, Agamenon se deixou cair na primeira cadeira que viu na sua frente. Seu olhar parecia perdido no meio de um grande abismo. O rapaz, notando que o homem não estava bem, correu até uma geladeira pequena e voltou com um copo cheio de água. Depois de beber a água, Agamenon se preparou para levantar, mas as pernas não queriam obedecer. O rapaz ficou olhando aquele homem de aparência distinta e antiga com um olhar curioso e preocupado.
- Posso fazer alguma coisa para que se sinta melhor?
Durante alguns segundos o médico pensou em chorar, mas aos poucos voltou a assumir o controle da mente e do corpo. Voltou-se para o rapaz com ar de duvida.
- Como faço para chegar ao centro da cidade? – Perguntou com a voz rouca arranhando a garganta.
- Pode pegar uma carona ou o ônibus que passa dentro de alguns minutos.
- Nunca fiquei tão..., Assim, sem saber o que fazer. – Desabafou o médico pensando em voz alta e olhar perdido no chão.
- Se o senhor estiver sem pressa, vou descer para a cidade dentro de mais ou menos uma hora, lhe dou uma carona!
- Seria muito bom! Vou lhe agradecer muito, mas não quero incomodar.
- Não será incomodo algum. Vou fechar o caixa e assim que acabar com umas coisinhas..., desceremos juntos. Pode ficar por aqui.
O rapaz saiu da sala fechando a porta, deixando Agamenon com seus pensamentos que ainda se batiam confusos na cabeça.
“O que será que me aconteceu? Parece que estou no tempo errado! Isso não pode ser! O tempo não adianta nem atrasa, isso é coisa de livros, na vida real não acontece. Seja lá o que for, tem que haver uma maneira de voltar ao normal, preciso voltar pra casa, para meus filhos, minha mulher e meu trabalho”.
Sem conseguir ficar quieto, o médico estica as pernas tomadas por uma dormência estranha. Levantou, olhou para o lado de fora do posto por uma janela pequena. Os carros estranhos não paravam de chegar e sair e vários deles estavam estacionados bem a sua frente. Tentando se manter sob controle, andou por algum tempo de um lado para o outro e suas mãos pousaram sobre um calendário.
“Março de 2001, dezoito de março, cinqüenta anos depois, o mesmo dia, ano diferente. Isso não é lógico”. Mordendo os lábios, percebe a boca ressecar, as pernas voltam a tremer e seu coração dispara. “Preciso ter calma, investigar, encontrar minha família, saber o que está acontecendo”.
Completamente desanimado, o médico se deixa cair na cadeira com medo de pensar, reconhece o medo de descobrir que houve algum equivoco da natureza, que ele avançou no tempo ou está em outra dimensão, um outro mundo, quem sabe um outro planeta. Sente um arrepio tomar conta de seu corpo ao pensar na possibilidade de sua família não existir mais, de que o mundo é novo para ele, que terá de enfrentar muitas dificuldades que nunca ousaria sonhar.
O calendário deveria ser alguma brincadeira, não era possível ele ter saltado no tempo, isso não fazia parte de sua lógica. Olhando em volta, vê um jornal dobrado junto do telefone. Amedrontado, estira o braço e pega nervoso o jornal, fica com ele em suas mãos sem coragem de trazê-lo diante dos olhos. Respira profundamente e aos poucos desce o olhar e se fixa na data sobre a pagina amarrotada. Mais uma vez sente que vai desmaiar, não havia brincadeira no calendário, a data estava coincidindo. Apressadamente retira o olhar do papel, o fixa no ventilador de teto girando sobre sua cabeça. Pela primeira vez na vida não queria pensar.
Imóvel, completamente aturdido, se recusava ao confronto com o inevitável. Seria melhor deixar para sofrer mais tarde, esperaria chegar na cidade para começar a ter certeza das coisas a sua volta. Enquanto aguardava o rapaz que lhe daria carona, sente que o tempo se arrasta.
Sua ansiedade transforma quarenta minutos de espera em uma eternidade e quando o homem do posto retorna, sente um pouco de alivio. Espera impaciente que ele guarde um livro numa gaveta, o dinheiro no cofre e o convide para a carona desejada.
Ao entrar no carro estranho do rapaz, nota que ele pega um pequeno disco metálico e coloca num orifício que parece um rádio. Na estrada ouve musicas que não conhece e em silencio sofre ao entrar na cidade. É uma outra cidade, não se parece em nada com a que vivia. O rapaz abaixa o volume da musica e pergunta em tom casual.
- O senhor é da cidade?
- Não! – Responde apressado.
- Quer ficar no centro?
- Se for possível, na praça da prefeitura.
- Da nova ou... da velha?
- Da...Velha! – Fala engasgando nas palavras.
O rapaz entra numa rua desconhecida, passa um jardim que não existia e finalmente entra na praça da prefeitura velha. Agamenon vê as velhas casas, os velhos sobrados de sua cidade. Sente-se novamente em casa. O rapaz do posto, para o carro e olha para o homem ao lado que parece petrificado.
- Chegamos!
O médico demora algum tempo para saltar do carro, agradece e fica contemplando a velha praça enquanto ouve o carro partindo. A iluminação era diferente, mas as casas pareciam às mesmas de sempre, exceto pela utilização. Onde havia uma farmácia estava escrito mercadinho, na porta da prefeitura uma placa grande dizia: “Reforma da escola Assis Valente”.
Esperando qualquer coisa, já sem esperança de encontrar sua casa, entra na rua dos Alfaiates. Morava logo no inicio, a sua casa era a terceira e para sua surpresa, encontra uma loja de ferragens. Aturdido, volta até a esquina e lê a placa com o nome da rua. Ele não acreditava que aquela coisa estranha estivesse realmente acontecendo. Sem fôlego, se deixa cair sentado na beira da calçada, as lagrimas escorrem pelo seu rosto.
A chuva fina que caiu durante toda a noite, fez Agamenon se abrigar numa cobertura que agora existia na loja que um dia foi seu lar. Sua cabeça dolorida já elaborava a justificativa para tantas informações loucas, estava morto, o clarão na estrada havia sido um farol mortal ao seu encontro.
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