sexta-feira, 4 de julho de 2008

Capítulo 04

Capítulo 04

Pouco depois das três horas, Agamenon sai da cidade dirigindo seu carro sem pressa. Sente alivio por deixar a cidade grande e retornar para casa. O sol quente e o vento abafado entram pela janela, ele pensa em tirar o paletó, faz uma expressão de indecisão resolvendo que não valia a pena parar.
Enquanto dirigia atento no movimento da estrada, o médico volta a pensar no que seu amigo perguntou sobre a decisão de morar no interior. Sorrindo satisfeito, buzina sem motivo mantendo o olhar perdido com expressão pensativa.
“Ainda acho que foi uma decisão acertada. Ganhei mais dinheiro e prestigio do que a maioria dos meus colegas que se perderam na multidão da capital. Se eu morresse hoje, meus filhos não teriam do que reclamar, o futuro deles estaria garantido”.
A estrada monótona quase sem movimento e o calor, estava deixando Agamenon sonolento. Depois de dirigir por quase duas horas. Resolveu sair da estrada, parar um pouco para respirar o ar puro. Desceu por uma estradinha esburacada e estacionou sob a sombra de uma grande arvore ao lado da estrada principal.
Assim que desligou o motor do carro, abriu a porta totalmente e ficou com as pernas para fora olhando o céu que parecia iluminado por uma grande bola de fogo quase por se encontrar com a terra. As nuvens avermelhadas passavam velozes.
Depois de alguns minutos apenas apreciando a natureza, deu um suspiro profundo, se esticou batendo com as mãos no teto do carro, sorriu pensando em voz alta.
“Não sei...! Acho que nunca fui feliz, apenas vivi ao lado de Dora. Mulher fabulosa, mas ao longo da nossa monotonia diária, me fez perder o encanto que ainda me contentava, tudo graças ao seu gênio intempestivo e inconstante, seu egoísmo. Em alguns momentos gostaria de não voltar para casa, me jogar no mundo, arriscar, sumir, desaparecer...!”.
Suspirando novamente com resignação, se preparou para dar partida no carro, olhou mais uma vez para o céu que começava rapidamente a escurecer ameaçando uma chuva inesperada. Um raio cruzou o firmamento diante dos seus olhos e poucos segundos depois, ouviu o trovão.
O barulho fez o médico se encolher receoso, lembrou que desde menino, ficava assustado quando ouvia trovoada. Esse pensamento o fez voltar para a teoria do psiquiatra do ultimo congresso, onde os fenômenos da natureza eram tidos como causadores de muitos distúrbios sem explicação. Agamenon era um homem de mente cientifica e não aceitava essas justificativas, sorrindo, sacudiu a cabeça de um lado para outro e falou para si mesmo pensando em voz alta.
“Pura ficção, onde já se viu acreditar em outras dimensões paralelas e coisas assim sem pé nem cabeça! Coisa de maluco!”.
Ligando o carro, engrenou a marcha e começou a subir a estradinha de barro de volta para estrada. Nesse momento, dois relâmpagos se cruzam no céu bem a sua frente. Ao mesmo tempo, ouve um grande estrondo. Antes de alcançar o asfalto, vê uma luz intensa vindo ao seu encontro, com o susto, breca por impulso, imediatamente. A luz muito intensa passou por ele sacudindo o automóvel como se fosse uma onda forte em dia de ressaca.
Por alguns instantes, Agamenon acreditou ter sido atingido por um outro veiculo, mas logo a estrada estava novamente a sua frente, o carro com o motor desligado, e ele, ainda pisava no freio.
Puxando o freio de mão, tentou fazer o motor funcionar varias vezes sem sucesso. Pensativo, coçou o queixo sem entender o que estava acontecendo maneou a cabeça para os lados tentando pensar um pouco. Saltou do carro e abriu o capô dianteiro. Para sua surpresa, viu que o motor parecia se decompor rapidamente diante dos olhos, logo começava a desaparecer não só o motor como também à parte da frente do carro.
Dando um salto para traz, num gesto de puro reflexo, correu para pegar sua maleta no banco do carona. Não demorou mais do que alguns segundos e o carro todo desaparecia como por encanto.
Sem saber no que pensar, completamente atônito, Agamenon sentou-se sobre um tronco caído. Abraçado com sua maleta de mão mantiver o olhar fixo no local onde antes estava o seu carro. Um grande vazio se apoderou da sua mente, estava sem qualquer pensamento, como se de uma hora para outra, fosse incapaz de se mover, pensar ou falar. Olhando para sua maleta, se assusta ao ver que o fecho dela também havia sumido. Fecha os olhos tentando respirar para manter o corpo respondendo ao comando do cérebro que parece querer adormecer.
Aos poucos, a mente pratica do médico, começou a reagir, mesmo que de forma ainda instável sem qualquer equilíbrio emocional.
“Nada disso deve ser verdade, talvez tenha dormido demais, isso deve ser um pesadelo, ainda estou no meu quarto!”.
Sem acreditar na própria teoria que elaborou, o médico levanta-se apressado, vai de um lado para o outro andando em círculos sem conseguir refletir no que acabou de lhe acontecer. Uma angustia enorme se apodera de sua mente. Com o coração disparado, a boca resseca e os olhos apertam como quem sente o calor de uma febre intensa.
A noite alcança o homem prático em situação de total impotência. Depois de respirar profundamente, olha sua maleta sobre o tronco onde estivera sentado. Passa as mãos no rosto como se tentasse acordar. Pega a maleta e sem pressa termina de subir a estradinha de barro de volta para a estrada principal. Fica olhando para os lados em busca de uma possível ajuda.
Depois de algum tempo, vê ao longe, da mesma direção de onde viera, dois faróis acesos se aproximando rapidamente, tenta levantar o braço para acenar pedindo ajuda, seu corpo não obedece. Passa um carro esquisito, de modelo nunca visto. Outro farol no sentido contrário se cruza mais à frente com o primeiro e vem em sua direção passa veloz, novamente outro carro de modelo estranho.
Confuso, resolve caminhar. Sabia que não deveria estar longe do posto de gasolina do seu amigo Dorival, o mesmo onde abastecera pela manhã quando foi para a capital. No inicio, seus passos eram trôpegos e inseguros, a estrada deserta lhe oferecia muita solidão, sua cabeça doía muito. Respirava procurando encher os pulmões com o máximo de ar que era possível. Aos poucos foi recobrando o domínio do corpo e da mente, começou a caminhar mais apressado enquanto pensava.
“Um carro não desaparece diante dos olhos de ninguém. Deve haver uma explicação lógica para tudo isso!”.
Meia hora depois, um pouco mais à frente, avistou as luzes que deveriam ser do posto de gasolina. Seu coração disparou, parecia querer saltar pela boca. Apertou o passo e entrou no posto quase correndo. Ficou mais assustado ainda, tudo estava completamente diferente.

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