quinta-feira, 3 de julho de 2008

Capítulo 03

Capítulo 03

Pouco depois das dez horas da manhã, Agamenon entrou na sala do advogado, que cuidava do inventário de seu pai que havia morrido há mais de cinco anos. Seu irmão Justino, o mais velho ficara encarregado de ser o inventariante e o já aguardava na ante-sala.
- Bem na hora Agamenon! Você não perde tempo nem faz os outros perderem.
- Arquimedes não vem...?
- Já assinou todos os papeis ontem, estava com pressa, viajava a noite para a Alemanha, ou qualquer coisa assim, uma reunião com os fabricantes de equipamentos industriais ou... – Justino dá de ombros fazendo cara de desconfiança, parecia não acreditar no que dissera.
Os dois se abraçaram e entraram na sala do advogado. Depois de cumprimentarem o advogado, um homem muito alto e gordo com óculos pretos e lentes grossas, assinaram alguns papeis, receberam o dinheiro e logo estavam de saída.
- Essa foi uma meia hora mais chata dos últimos tempos – disse Agamenon dando uma tapinha nas costas do irmão.- Estou doido para volta para casa, não consigo ficar muito tempo longe deles.
- Pelo menos essa droga de inventário ficou finalmente resolvida. Essa ladainha jurídica é insuportável. Espero que Hermes seja um bom advogado.
- Meu filho será um bom advogado. Você vai na formatura?
- Não sei..., Tenho muitos compromissos no fim de ano. A loja me deixa tonto, não sei como papai conseguia fazer tudo sozinho.
- Arquimedes disse que vai, embora não tenha muito a ver com Hermes. – Agamenon fez uma expressão de desconfiança. - Fico abismado com a relação entre ele e Luiz, parece mais pai e filho do que tio e sobrinho. Arquimedes não casou e vive paparicando o meu filho.
- Deixa de ser ciumento, Agamenon!
- Não é isso! Meu filho se interessa mais pela fabrica de calçados do que devia. Você vai para a loja?
- Vou...! E você não vai lá em casa ou ver os meninos?
- Tenho de providenciar algumas coisas, prometi para Dora que chego cedo, não sei se dará tempo para passar em sua casa, quanto aos meninos, estão na escola e só os veria pela noite. De qualquer forma, dê lembranças para Lucia, mulher maravilhosa que te agüenta.
Os dois se abraçaram alegres, Agamenon foi caminhando sem pressa pelas ruas movimentadas do centro da cidade olhando o trafego nas ruas largas. Ele detestava aquele movimento de cidade grande para viver, mas se divertia quando aparecia vez por outra, olhando as pessoas e suas manias.
Vendo uma joalheria famosa a sua frente, ficou algum tempo admirando as jóias expostas numa pequena vitrine. Com a mão acariciando o queixo, olhou em volta, respirou profundamente por um tempo e entrou na loja de maneira insegura.
Depois de muito conversar com um vendedor, comprou algumas jóias e um anel de formatura para seu filho mais velho que estava concluindo o curso de direito. Antes de sair, olhou para o vendedor com olhar ameaçador.
- Olha só! Gastei uma pequena fortuna e espero que o ouro seja bom.
- Pode ficar tranqüilo, doutor...- disse o vendedor sorridente depois de ter feito uma grande venda.
Sem perder tempo, Agamenon foi direto ao banco onde possuía conta e o gerente era seu amigo de infância. Parando em frente do prédio imponente, apalpou o bolso do paletó junto ao peito, olhando desconfiado para os lados. Assim que entrou, viu seu amigo Reinaldo, um homem de quase cinqüenta anos, cabelos brancos, vestido elegantemente na ultima moda, sentado numa poltrona forrada de couro preto por traz de uma grande mesa ao fundo conversando com uma senhora idosa. Um dos caixas, que conhecia bem o médico, o cumprimentou.
- Olá Doutor!
- Bom dia Inocêncio, sua mulher já pariu?
- No próximo mês.
- Mande lembranças minhas e de Dora. Quando nascer, me avise, não compramos o presentinho porque não sabemos se é menino ou menina.
- Acho que é outra menina. Meu irmão me disse que só sei fazer mulher.
- Quem sabe esse terceiro, é um menino!
- Gostaria muito. Olha..., - o caixa aponta com a mão - O seu Reinaldo já está se despedindo da cliente.
- Vou falar com ele. Até logo.
Agamenon dá uma olhada em volta, o salão amplo com grandes colunas centrais, um balcão extenso, cinco guichês cheios de gente indo e vindo nas filas. Em passos lentos mais decididos, Agamenon caminha até a mesa do gerente. Coloca a maleta de mão sobre a mesa e os dois se olham sorridentes. Depois de se abraçarem com carinho de velhos amigos, os dois sentam.
- Meu velho amigo! O que posso fazer por você? – disse o gerente de maneira afetuosa.
- Hoje...? Deixa ver...! Caminhar na rua de cabeça para baixo, roer os sapatos dos clientes, comer a viúva de Aristides...
- Isso não, a viúva tem mais de setenta anos, é feia de doer.
Os dois gargalham. Agamenon puxa a mala de mão a colocando sobre os joelhos, com cuidado abre os fechos e retira um pacote com o timbre da joalheria. Entrega para o amigo que com um gesto de cenho, pergunta se pode abrir. Agamenon autoriza com a mão estendida em direção ao pacote.
Reinaldo Examina as jóias e faz um sinal com a cabeça de aprovação.
- Vai dar as jóias para Dora?
- Não! São investimentos.
- Grande investimento. Mas tenho outros pra você.
- Então, me diga...! Estou com dinheiro e não sei o que fazer. Saiu o inventario de papai.
- Tenho uma novidade, sei que não está acostumado a isso, coisa nova. – Ele se cala por alguns segundos olhando em volta e fala quase baixinho como se informasse um segredo. - Existem alguns riscos, mas se der certo... Parece que tem tudo pra ser, muito lucrativo. Está saindo no mercado,... ações,... papeis, de uma grande empresa nacional de petróleo, acho que é um bom investimento, seguro. Deixe lhe mostrar.
O gerente puxa de uma de suas gavetas um maço de papeis e começa a mostrar ao amigo. Depois de algum tempo, convence o médico que compra varias preenchendo um formulário. Com ares de satisfação, chama um garoto entregando os papeis junto com o dinheiro que Agamenon acabara de contar.
- Agora vamos ver o caso das jóias. Guarde tudo no cofre do banco. Basta pagar uma taxa percentual, de menos de um por cento do valor das jóias e elas ficam seguras por quanto tempo desejar.
- Se você, meu amigo, é gerente dessa porcaria e me diz que é seguro, tudo bem, acho melhor do que guardar em casa.
- Então vou fazer os cálculos do seguro, tem a nota de compra?
- Tenho... – Agamenon retira do bolso um papel e entrega para Reinaldo. – menos o anel, o broche de rubi e a corrente de ouro, esses já estão com destino certo.
O gerente faz algumas contas, preenche um papel, Agamenon preenche dois recibos de deposito, quando terminam, o gerente acena chamando novamente o garoto e o manda até o caixa fazer os depósitos após receber a quantia das mãos do médico. Enquanto aguardam o recibo, Reinaldo que parece pensativo pergunta para o amigo de maneira bem intima.
- Ainda não entendo... me diga o que lhe fez viver no interior?
- Você conhecia papai. Não aceitava que um de seus filhos não fosse comerciante. A fabrica de calçados e a loja, eram seus maiores troféus enquanto vivo. A loja ficou com Justino e a fabrica com Arquimedes, eu sou o mais moço e não me interessei por nenhuma das duas coisas. Depois de me formar, tomei a decisão junto com Dora. Uma vida mais calma e sem papai por perto.
- Essa sua explicação não me convence. Admiro muito você, um homem pacato, vive só para duas coisas, a família e seu trabalho, mesmo assim não me convenço. Sempre soube que... você sempre foi agitado, nunca consegui entender isso direito. O que você tem a ver com uma cidade do interior? O que o levou a fazer essa escolha? Poderia viver aqui na capital ou em qualquer outra. Não entendo! Preferir a calma cidade do interior e ficar longe das novas descobertas...
- Nunca se fica longe, basta acompanhar, estudar!
O garoto se aproxima trazendo os recibos entregando para Agamenon que confere. Reinaldo se levanta com um suspiro olhando o relógio de pulso. O médico guarda os documentos na maleta de mão e se volta para o gerente que demonstra certa impaciência com a maneira lenta do amigo.
- Os meninos nem sabem que depositei esse dinheiro nas contas deles! Vão ter uma grande surpresa. – Diz Agamenon levantando.
- Não tenho a menor duvida!
- Já é mais de meio dia? – o médico olhou o relógio
- Vamos colocar as jóias e as ações no cofre, depois saímos para almoçarmos juntos.
- Boa idéia! Estou ficando azul de fome!
- Lembre-se, que essa chave que vai ficar com você, não pode ser perdida, só você, com ela, vai retirar o que ficar guardado.
- Pode deixar, sou cuidadoso!

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