TEMPO SEM TEMPO
As luzes do restaurante se apagam permanecendo apenas um refletor aceso, o do cento da pista de dança, com uma cor azul muito forte. Uma névoa de fumaça começa a envolver os dançarinos rapidamente e quando quase não se consegue enxergá-los, ouve-se alguém batendo palmas fortes e uma voz silenciando tudo.
- CORTA!
As luzes voltam a serem acesas enquanto as pessoas das mesas começam a levantar sorridentes, se abraçando. Uma jovem muito feia, que parecia ter levado um soco no meio do rosto, sai do meio deles e vem ao encontro do homem que gritou. Ele de longe lhe acena chamando com uma mão levantada e na outra um maço grosso de papel encadernado, que joga sobre uma cadeira de fechar com a palavra DIRETOR escrita no pano de encosto.
- Roteirista...! – Ele sorriu ao ver a moça bem próxima. – Parabéns mocinha!
Agamenon acorda de má vontade olhando para o teto do quarto ainda no escuro. Aquele sonho lhe ofereceu uma alegria que jamais experimentara ao lado de Dora sua mulher. O rosto da bela jovem com quem dançava lhe vem à mente, ele sorri, olhando para o lado oposto da cama. Sua mulher já havia levantado. Dá um muxoxo e pula da cama. Sabe que terá de viajar para a capital.
Lentamente caminha na direção do banheiro sussurrando repetidamente “Sonho... Paixão”.
Capitulo 01
Bebendo uma xícara de café, Agamenon, se espreguiça e olha para o relógio na parede da cozinha que marca sete horas e cinco minutos. Homem alto e magro com feições juvenis embora já estivesse com cinqüenta anos, quase sem nenhum fio de cabelo branco, dá uma olhada para sua mulher, Dora, com a qual já estava casado por mais de 25 anos.
Ela, alta e muito elegante, com porte de bailarina, parecia ter uns quarenta anos embora estivesse com quarenta e seis, cabelos loiros começando a mostrar sinais do tempo com alguns fios brancos, deixava na face uma expressão de tédio e preocupação. Distraída olhava para a frigideira enquanto fritava um ovo.
- Dora, você é uma mulher bonita! – Ele percebe que ela se estremece.
- O que foi, assim, Agamenon? - Dora suspira desconfiada. - Logo cedo me fazendo elogios...
- Se quiser, retiro o que disse?
- Não se faça de besta, deixe tudo como está, amei o elogio madrugador.
- Devo voltar ainda hoje da capital. – ele fala com melancolia. - Você bem sabe que minha família vale mais do que tudo. Não consigo viver sem vocês!
- Não sei...! Devia pensar mais nisso quando se enfurna no hospital!
- Ora...! Não compare uma coisa com outra. Meu trabalho é minha segunda razão de viver.
- Será?
A mulher despeja lentamente o ovo frito num prato que está sobre a pedra da pia, colocando imediatamente em frente do marido, o olha com ternura. Acariciando o cabelo dele, suspira.
- Não vá hoje, deixe para amanhã, estará mais descansado.
- Quem disse que estou cansado? – ele levanta-se e retira a pagina do calendário preso na parede ao lado para atualizar o dia, 18 de março de 1951, volta para sentar onde estava.
- Você teve um dia tumultuado ontem, foi dormir muito tarde e...
Agamenon faz uma expressão de desdém para esposa, pega uma maleta de couro sobre a cadeira a seu lado e a coloca sobre as pernas, abre displicente e dá uma olhada.
- Preciso trocar esse fecho, sempre abrindo ou travando, ainda bem que tem essas duas correias com fivelas de couro. Não precisava colocar essa cueca e nem o par de meias!
Recolocando a maleta de volta na cadeira começa a comer. A mulher senta-se ao lado, olha para as próprias unhas como se estivesse pensando no que diria.
- Tive um sonho estranho!
- Ora! Sonhos são apenas sonhos. – ele sorri para si mesmo lembrando do sonho que tivera.
- Mas esse era... Não sei dizer, parecia real, não me lembro bem, mas era como se eu nunca mais fosse ver você, via seu rosto sumindo numa estrada sem fim.
- Prometo que vou dirigir com cuidado, não me meter em nenhuma farra com amigos. – Ele sorri debochado. - Assim que terminar o que vou fazer volto para casa.
- Deixe para amanhã, seu irmão vai entender, diga que tem um assunto urgente, sei lá...
- Não vai acontecer nada! – Agamenon se mostra impaciente.
- Pode ser... Mas dentro de mim tem um vazio.- ela joga a cabeça para um lado com ar preocupado – Você tem tempo para resolver isso depois, não tem?
Agamenon nem responde. Médico tarimbado, acostumado com a vida, não era fácil de ser impressionado. Acabando de comer o ovo com pão, limpa os lábios num guardanapo, se levanta, dá um beijo na mulher, olha para a cozinha bem ampla de sua casa.
- Querida, Ainda bem que moramos no interior, o apartamento de meu irmão Justino, cabe quase aqui dentro.
- Deixe de exageros. Na capital, a vida é diferente!
- Vou indo! – O médico pega a maleta de mão e se encaminha para aporta e ao abri-la sorri dizendo em tom de despedida. – Tenho muita estrada pela frente!
Sem perder tempo, Agamenon entra no seu carro, um Dodge 1947, preto com quatro portas que havia comprado no fim do ano depois que seu Austim começou a dar mais prejuízo do que comodidade.
Olhou para sua mulher que se debruça na janela lhe acenando, liga o carro e parte em direção à Praça da Prefeitura, saindo da sua rua onde só há casas grandes e antigas. Na praça dá uma parada em frente do prédio escolar pensando sorridente.
“Se aprovarem meu projeto, essa escola vai melhorar muito, o prédio novo da prefeitura vai ser mais moderno e o antigo pode ser aproveitado para a escola funcionar. Na volta, preciso cobrar para logo esse projeto...” - Sorrindo, acelera o carro passando pelas ruas apertadas em direção a seu destino.
Na estrada, lembrou que não havia abastecido, mas havia um posto novo mais à frente, seu amigo Dorival era o dono, um comerciante afoito. Não se contentou em ficar só com o seu posto da cidade e logo que terminaram de asfaltar a estrada até a capital, ele construiu um moderno com duas bombas e uma pequena lanchonete. Se gabava, alegando que a estrada era o melhor lugar para ganhar dinheiro.
O médico morava numa cidade não muito longe da capital, considerada de médio porte. Possuía duas boas escolas, um hospital e ficava próxima do litoral. Havia decidido morar no interior para se afastar do movimento intenso da capital e quando seu filho mais velho, Hermes, foi estudar direito na faculdade federal. Para sua surpresa, o mais moço, Luiz, resolveu completar os estudos numa escola da capital com apoio total do tio.
Quando eles tomaram essa decisão, ele lamentou, “Coitados, vão ter de viver suando e apressados, pegar ônibus, não ter tempo para mais nada e comer a pior comida do mundo”.
As luzes do restaurante se apagam permanecendo apenas um refletor aceso, o do cento da pista de dança, com uma cor azul muito forte. Uma névoa de fumaça começa a envolver os dançarinos rapidamente e quando quase não se consegue enxergá-los, ouve-se alguém batendo palmas fortes e uma voz silenciando tudo.
- CORTA!
As luzes voltam a serem acesas enquanto as pessoas das mesas começam a levantar sorridentes, se abraçando. Uma jovem muito feia, que parecia ter levado um soco no meio do rosto, sai do meio deles e vem ao encontro do homem que gritou. Ele de longe lhe acena chamando com uma mão levantada e na outra um maço grosso de papel encadernado, que joga sobre uma cadeira de fechar com a palavra DIRETOR escrita no pano de encosto.
- Roteirista...! – Ele sorriu ao ver a moça bem próxima. – Parabéns mocinha!
Agamenon acorda de má vontade olhando para o teto do quarto ainda no escuro. Aquele sonho lhe ofereceu uma alegria que jamais experimentara ao lado de Dora sua mulher. O rosto da bela jovem com quem dançava lhe vem à mente, ele sorri, olhando para o lado oposto da cama. Sua mulher já havia levantado. Dá um muxoxo e pula da cama. Sabe que terá de viajar para a capital.
Lentamente caminha na direção do banheiro sussurrando repetidamente “Sonho... Paixão”.
Capitulo 01
Bebendo uma xícara de café, Agamenon, se espreguiça e olha para o relógio na parede da cozinha que marca sete horas e cinco minutos. Homem alto e magro com feições juvenis embora já estivesse com cinqüenta anos, quase sem nenhum fio de cabelo branco, dá uma olhada para sua mulher, Dora, com a qual já estava casado por mais de 25 anos.
Ela, alta e muito elegante, com porte de bailarina, parecia ter uns quarenta anos embora estivesse com quarenta e seis, cabelos loiros começando a mostrar sinais do tempo com alguns fios brancos, deixava na face uma expressão de tédio e preocupação. Distraída olhava para a frigideira enquanto fritava um ovo.
- Dora, você é uma mulher bonita! – Ele percebe que ela se estremece.
- O que foi, assim, Agamenon? - Dora suspira desconfiada. - Logo cedo me fazendo elogios...
- Se quiser, retiro o que disse?
- Não se faça de besta, deixe tudo como está, amei o elogio madrugador.
- Devo voltar ainda hoje da capital. – ele fala com melancolia. - Você bem sabe que minha família vale mais do que tudo. Não consigo viver sem vocês!
- Não sei...! Devia pensar mais nisso quando se enfurna no hospital!
- Ora...! Não compare uma coisa com outra. Meu trabalho é minha segunda razão de viver.
- Será?
A mulher despeja lentamente o ovo frito num prato que está sobre a pedra da pia, colocando imediatamente em frente do marido, o olha com ternura. Acariciando o cabelo dele, suspira.
- Não vá hoje, deixe para amanhã, estará mais descansado.
- Quem disse que estou cansado? – ele levanta-se e retira a pagina do calendário preso na parede ao lado para atualizar o dia, 18 de março de 1951, volta para sentar onde estava.
- Você teve um dia tumultuado ontem, foi dormir muito tarde e...
Agamenon faz uma expressão de desdém para esposa, pega uma maleta de couro sobre a cadeira a seu lado e a coloca sobre as pernas, abre displicente e dá uma olhada.
- Preciso trocar esse fecho, sempre abrindo ou travando, ainda bem que tem essas duas correias com fivelas de couro. Não precisava colocar essa cueca e nem o par de meias!
Recolocando a maleta de volta na cadeira começa a comer. A mulher senta-se ao lado, olha para as próprias unhas como se estivesse pensando no que diria.
- Tive um sonho estranho!
- Ora! Sonhos são apenas sonhos. – ele sorri para si mesmo lembrando do sonho que tivera.
- Mas esse era... Não sei dizer, parecia real, não me lembro bem, mas era como se eu nunca mais fosse ver você, via seu rosto sumindo numa estrada sem fim.
- Prometo que vou dirigir com cuidado, não me meter em nenhuma farra com amigos. – Ele sorri debochado. - Assim que terminar o que vou fazer volto para casa.
- Deixe para amanhã, seu irmão vai entender, diga que tem um assunto urgente, sei lá...
- Não vai acontecer nada! – Agamenon se mostra impaciente.
- Pode ser... Mas dentro de mim tem um vazio.- ela joga a cabeça para um lado com ar preocupado – Você tem tempo para resolver isso depois, não tem?
Agamenon nem responde. Médico tarimbado, acostumado com a vida, não era fácil de ser impressionado. Acabando de comer o ovo com pão, limpa os lábios num guardanapo, se levanta, dá um beijo na mulher, olha para a cozinha bem ampla de sua casa.
- Querida, Ainda bem que moramos no interior, o apartamento de meu irmão Justino, cabe quase aqui dentro.
- Deixe de exageros. Na capital, a vida é diferente!
- Vou indo! – O médico pega a maleta de mão e se encaminha para aporta e ao abri-la sorri dizendo em tom de despedida. – Tenho muita estrada pela frente!
Sem perder tempo, Agamenon entra no seu carro, um Dodge 1947, preto com quatro portas que havia comprado no fim do ano depois que seu Austim começou a dar mais prejuízo do que comodidade.
Olhou para sua mulher que se debruça na janela lhe acenando, liga o carro e parte em direção à Praça da Prefeitura, saindo da sua rua onde só há casas grandes e antigas. Na praça dá uma parada em frente do prédio escolar pensando sorridente.
“Se aprovarem meu projeto, essa escola vai melhorar muito, o prédio novo da prefeitura vai ser mais moderno e o antigo pode ser aproveitado para a escola funcionar. Na volta, preciso cobrar para logo esse projeto...” - Sorrindo, acelera o carro passando pelas ruas apertadas em direção a seu destino.
Na estrada, lembrou que não havia abastecido, mas havia um posto novo mais à frente, seu amigo Dorival era o dono, um comerciante afoito. Não se contentou em ficar só com o seu posto da cidade e logo que terminaram de asfaltar a estrada até a capital, ele construiu um moderno com duas bombas e uma pequena lanchonete. Se gabava, alegando que a estrada era o melhor lugar para ganhar dinheiro.
O médico morava numa cidade não muito longe da capital, considerada de médio porte. Possuía duas boas escolas, um hospital e ficava próxima do litoral. Havia decidido morar no interior para se afastar do movimento intenso da capital e quando seu filho mais velho, Hermes, foi estudar direito na faculdade federal. Para sua surpresa, o mais moço, Luiz, resolveu completar os estudos numa escola da capital com apoio total do tio.
Quando eles tomaram essa decisão, ele lamentou, “Coitados, vão ter de viver suando e apressados, pegar ônibus, não ter tempo para mais nada e comer a pior comida do mundo”.
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